Repórter de Invest
Publicado em 29 de setembro de 2026 às 09h23.
Última atualização em 29 de setembro de 2026 às 12h40.
A Shein construiu boa parte de sua popularidade com roupas baratas, mas o balanço do primeiro semestre de 2026, o primeiro divulgado após a listagem em bolsa, mostrou quanto custa sustentar esse modelo em um cenário de fretes mais altos. Para os analistas, os números também trouxeram sinais de uma estratégia que pode aumentar o preço médio dos produtos vendidos pela plataforma.
No segundo trimestre, as despesas de fulfillment, relacionadas à preparação, processamento e entrega dos pedidos, chegaram a US$ 5,59 bilhões, uma alta de 18,1% em relação a igual período do ano anterior. O valor correspondeu a 50,4% de toda a receita da Shein no trimestre, ante 43,1% um ano antes.
A receita, por sua vez, teve avanço de 0,9%, para US$ 11,08 bilhões, enquanto o lucro líquido ajustado caiu 66,6%, para US$ 228 milhões, levando a margem de lucro líquido ajustado de 6,2% no segundo trimestre de 2025 para 2,1% no mesmo período deste ano.
O BTG Pactual (do mesmo grupo controlador da EXAME) destaca que os custos de fulfillment cresceram muito acima da receita, pressionados, principalmente, pelo frete aéreo, com a alta dos preços do combustível de aviação e das tarifas de transporte em meio às tensões geopolíticas no Oriente Médio.
O banco também chama atenção para a diferença entre o lucro ajustado e o lucro líquido reportado, que chegou a US$ 2,4 bilhões, mas foi inflado por mudanças na avaliação de ações preferenciais conversíveis e, por isso, é considerado menos representativo da rentabilidade recorrente da companhia.
Mesmo diante da pressão sobre a rentabilidade, a administração decidiu absorver o aumento dos custos logísticos em vez de repassá-lo aos preços, buscando preservar a experiência de compra e o crescimento dos pedidos.
Segundo a Shein, se o impacto provocado pela alta do petróleo e dos fretes fosse excluído, a margem de lucro líquido ajustado teria permanecido em nível próximo ao observado um ano antes.
Analistas da XP chamam a atenção para o peso dessa escolha sobre as contas da companhia, visto que as despesas de fulfillment avançaram cerca de sete pontos percentuais como proporção das vendas e a absorção desses custos mantém a pressão competitiva sobre os varejistas locais no curto prazo.
As margens mais apertadas podem limitar por quanto tempo a estratégia poderá ser mantida.
"Em nossa visão, embora vejamos a Shein como uma concorrente importante, especialmente em um contexto de poder de compra pressionado, acreditamos que os players locais [do Brasil] estão bem posicionados em termos de produto e preço", segundo a XP.
Já o BTG vê a deterioração da rentabilidade como uma das principais questões levantadas pelo trimestre. Para os analistas, a queda de 67% no lucro ajustado mostra que ganhar escala não elimina o problema de quanto lucro a Shein conseguirá preservar à medida que aumentam os custos logísticos, as tarifas e outras exigências.
A estratégia apresentada pela administração envolve ampliar a presença de marcas e mercadorias posicionadas em faixas de preço mais elevadas e mudar gradualmente o mix oferecido pela plataforma.
Em mensagem aos acionistas, o fundador, presidente e CEO da Shein, Yangtian Xu, afirmou que uma das prioridades da companhia para os próximos um ou dois anos será ampliar a variedade de faixas de preço.
Assim, à medida que marcas com preços mais elevados ganharem participação no mix, o preço médio de venda da plataforma deverá subir. A administração acredita que o movimento poderá contribuir para melhorar a rentabilidade.
A XP considera que esse avanço sobre segmentos de maior valor pode favorecer os varejistas brasileiros ao reduzir uma das diferenças de preço entre a Shein e as empresas locais. Para os analistas, a companhia continua sendo uma concorrente relevante, sobretudo em um ambiente de poder de compra pressionado.
"A prioridade declarada pela administração para os próximos anos é migrar para marcas com preços mais elevados. Interpretamos isso como positivo para os varejistas brasileiros, pois poderia reduzir a diferença de preços em relação à Shein", escreveram.
Os números da Europa ajudam a mostrar o impacto que mudanças de preço podem ter sobre a operação. A receita da Shein lá caiu 13,9% no segundo trimestre, para US$ 3,77 bilhões, com a companhia atribuindo parte da retração à queda do volume de vendas após elevar preços e reduzir os gastos com publicidade.
Nos Estados Unidos, a receita recuou 6%, para US$ 2,47 bilhões, enquanto o restante do mundo registrou crescimento de 21,6%, para US$ 4,84 bilhões. A expansão foi impulsionada pelo aumento dos pedidos e da base de clientes na América Latina, desempenho que compensou as parte das quedas.
A Shein não divulgou os números do Brasil separadamente, mas informou que nenhum país fora dos Estados Unidos representou mais de 10% das vendas no primeiro semestre. O BTG, por outro lado, estima que o Brasil já tenha se tornado o segundo maior mercado da Shein no mundo, com US$ 3,5 bilhões em vendas em 2025.
Para o banco, o país está no centro da mudança geográfica do crescimento da companhia, enquanto Estados Unidos e Europa enfrentam um ambiente mais difícil.
Segundo os cálculos da XP, a receita brasileira deve ter alcançado um patamar máximo próximo de US$ 2 bilhões no semestre, enquanto a América Latina aparece como um dos principais vetores de expansão da companhia.
Ao mesmo tempo, grande parte dos custos da empresa está diretamente vinculada à movimentação dos pedidos. Além dos 50,4% da receita consumidos por fulfillment, o custo das mercadorias representou 30,2% das vendas, enquanto marketing respondeu por 13,6%.
Somadas às despesas de tecnologia e administrativas, as despesas operacionais chegaram a US$ 10,85 bilhões, equivalentes a 97,8% da receita, e o lucro operacional caiu de US$ 698 milhões para US$ 235 milhões em um ano.
Os analistas do BTG também citam a retirada do imposto federal de 20% sobre compras internacionais de até US$ 50 como um fator que melhorou a economia das compras transfronteiriças no Brasil durante o segundo trimestre.
O BTG aponta que a expansão brasileira está mudando de perfil e depende cada vez mais do marketplace local. A estratégia original estava concentrada na produção, com uma promessa feita em 2023 de investir US$ 150 milhões, fechar parcerias com 2 mil fábricas brasileiras e criar 100 mil empregos, mas a execução encontrou dificuldades.
Segundo o relatório, reportagens indicavam que a empresa havia chegado a 336 parcerias com fábricas ao fim de 2023, antes de a iniciativa perder ritmo diante das dificuldades dos fabricantes em acompanhar as exigências de preço e velocidade de produção da Shein.
Em sentido contrário, o marketplace local ganhou escala rapidamente. Para o BTG, a combinação da capacidade da Shein de atrair consumidores com estoques de vendedores brasileiros amplia a natureza da competição, que deixa de se restringir às roupas importadas de baixo preço e passa a disputar também consumidores e lojistas locais.
Dados da Sensor Tower citados pelo banco mostram ainda que os usuários ativos mensais da Shein no Brasil cresceram cerca de 34% no segundo trimestre na comparação anual, acima dos avanços registrados por Mercado Livre, com 17%, Amazon, com 16%, e Shopee, com 9%.
Na avaliação da XP, esse modelo deixa a companhia mais exposta às oscilações de frete do que varejistas com redes físicas de lojas. Enquanto os concorrentes tradicionais têm uma estrutura maior de custos fixos, a Shein trabalha com uma base mais flexível de custos, mas fica mais sensível a choques logísticos.
A companhia também pretende aumentar a quantidade de mercadorias armazenadas mais perto dos clientes europeus, em uma tentativa de acelerar as entregas e aumentar a confiabilidade da operação.
A administração reconhece que a localização de mais estoques deve elevar modestamente as despesas de fulfillment no curto prazo, mas espera que o aumento da densidade de pedidos ajude a compensar esses custos ao longo do tempo.
A posição financeira da Shein oferece espaço para sustentar esses investimentos e absorver parte das pressões de curto prazo. Ao fim de junho, a empresa tinha US$ 15,25 bilhões em recursos de caixa e gerou US$ 813 milhões em caixa operacional apenas no segundo trimestre.
A XP avalia que essa disponibilidade de recursos dá à companhia capacidade para continuar investindo no negócio, principalmente nas regiões em que cresce mais rapidamente, como a América Latina.
Ao mesmo tempo, a combinação de margens estreitas e despesas logísticas elevadas aumenta a importância de iniciativas capazes de elevar a rentabilidade nos próximos trimestres.
O resultado foi o primeiro divulgado pela Shein desde sua estreia na Bolsa de Hong Kong, em 1º de setembro. As ações chegaram a cair quase 12% nesta terça-feira, 29, e fecharam em queda de 10,71%, negociadas a HK$ 31,50, cerca de 36% abaixo dos HK$ 48,56 cobrados na oferta pública inicial (IPO, em inglês).
A administração espera que as pressões tarifárias e a volatilidade dos custos logísticos continuem no segundo semestre, embora projete uma aceleração dos pedidos no quarto trimestre, período que concentra datas promocionais importantes como 11.11, Black Friday, Cyber Monday e Natal.
*Atualizado com relatório do BTG Pactual.