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Como streaming e bets transformaram a Copa em um desafio para a Renner

Companhia foi a mais afetada entre as grandes varejistas de moda, revisou sua projeção de receitas para 2026 e vê as ações liderarem as perdas do Ibovespa nesta sexta

Balanço da Renner: "Essa Copa do Mundo teve um comportamento muito diferente de todas as outras que vimos", afirmou o CEO da Renner, Fabio Faccio (Marcos Gouveia/ Renner/Divulgação)
Balanço da Renner: "Essa Copa do Mundo teve um comportamento muito diferente de todas as outras que vimos", afirmou o CEO da Renner, Fabio Faccio (Marcos Gouveia/ Renner/Divulgação)

Publicado em 7 de agosto de 2026 às 12:52.

Última atualização em 7 de agosto de 2026 às 13:01.

A Copa do Mundo costuma aparecer nos balanços do varejo como uma explicação pontual para dias mais fracos de vendas. Neste segundo trimestre de 2026, porém, ela ganhou outro peso. Não foi apenas a Renner que citou o torneio como um freio ao consumo, C&A e Riachuelo também relataram perda de fluxo nas lojas. A diferença é que, entre as grandes varejistas de moda, foi justamente a Renner quem mais sentiu o impacto — a ponto de revisar sua projeção de receitas para o ano.

A companhia encerrou o segundo trimestre com lucro maior, margens recordes e caixa robusto, mas admitiu que o ritmo de vendas ficou aquém do esperado e reduziu sua estimativa de crescimento da receita de varejo neste ano de 9% para 13% para uma nova faixa entre 4% e 8%. A revisão não altera o plano estratégico até 2030, mas escancara como um evento que tradicionalmente afeta apenas alguns dias de operação acabou tendo efeitos muito mais amplos sobre o varejo brasileiro. "Essa Copa do Mundo teve um comportamento muito diferente de todas as outras que vimos", afirmou o CEO da Renner, Fabio Faccio, em entrevista à EXAME. "Normalmente havia queda de fluxo apenas nos dias de jogos do Brasil. Desta vez vimos uma redução durante todo o evento".

Segundo o executivo, uma combinação de fatores mudou completamente a dinâmica do consumo. "O streaming gratuito na palma da mão, um número maior de jogos e de seleções e também a expansão das apostas esportivas fizeram com que as pessoas acompanhassem partidas durante todo o torneio. Isso reduziu o fluxo nas lojas físicas muito mais do que imaginávamos", disse.

Mas é só isso?

A Copa, porém, não explica sozinha a revisão do guidance. A esperada queda mais rápida da taxa básica de juros, a Selic, não se concretizou. Até o início do ano havia quem visse os juros encerrarem 2026 no patamar de 12% ao ano. A projeção mais otimista agora vê a taxa em 13,75% até o fim do ano.

Além disso, a inflação permaneceu acima das projeções da companhia, o endividamento das famílias continuou aumentando e mudanças tributárias elevaram a competitividade de plataformas internacionais. Em maio, o governo federal zerou o imposto de importação sobre compras internacionais de até US$ 50, a chamada "taxa das blusinhas". "São pequenos fatores que vão se somando. Mas o que realmente foi diferente para nós foi a Copa do Mundo", afirmou.

Concorrência sofrendo

Os relatos dos executivos da Renner dialogam com o que outras varejistas de moda também disseram nas últimas semanas.

Na C&A, o CEO, Paulo Correa, afirmou que o período da Copa prejudicou o fluxo nos shopping centers, embora a empresa tenha conseguido compensar parte desse efeito com uma coleção de inverno mais forte e boas vendas nas datas comemorativas."Essa é a minha sexta Copa do Mundo na C&A. Historicamente sempre há queda de fluxo nos dias de jogos do Brasil. Desta vez havia mais jogos, mais seleções e a Copa estava no celular de todo mundo. Isso reduziu ainda mais o fluxo", afirmou.

Na Riachuelo, o CEO André Farber também atribuiu parte da desaceleração das vendas em mesmas lojas (SSS) ao torneio. "Se tirássemos o efeito Copa, teríamos crescido acima de 10%", disse à EXAME.

Os números, entretanto, mostram que a intensidade do impacto foi diferente entre as empresas. Enquanto as vendas SSS do vestuário em operações há mais de 12 meses avançaram 7,8% na Riachuelo e 4,1% na C&A, a Renner registrou crescimento de apenas 0,5%, ficando significativamente atrás das concorrentes e de seu próprio desempenho no ano passado, de 17,3% entre abril e junho do ano passado.

Maior queda do Ibovespa

Foi justamente esse desempenho que chamou atenção dos analistas. Para o Safra, o crescimento das vendas em mesmas lojas da Renner foi "decepcionante" em comparação com seus pares e, somado ao corte do guidance, tende a pressionar o sentimento dos investidores no curto prazo.

O banco, porém, destaca que a companhia preserva uma posição financeira sólida e mantém recomendação de compra, observando que ainda será preciso entender se a fraqueza das vendas foi apenas temporária ou se representa uma desaceleração mais estrutural.

Já o Itaú BBA avalia que o segundo semestre precisará mostrar uma aceleração importante para que a empresa consiga atingir até mesmo a nova projeção de crescimento da receita. Pelas estimativas do banco, após crescer apenas 2,5% no primeiro semestre, a Renner precisará acelerar para cerca de 5,5% na segunda metade do ano.

Ao mesmo tempo, o BBA observa que julho já começou mais difícil para o varejo de vestuário, o que torna os próximos meses decisivos para validar a nova projeção da companhia. Na primeira hora de negociação no pregão desta sexta, 7, as ações da varejistas caíam mais de 11%, a maior queda do Ibovespa.

Lucro cresce, mas vendas decepcionam

Apesar da revisão do guidance, a Renner entregou um trimestre mais rentável. O lucro líquido ajustado atingiu R$ 397,3 milhões entre abril e junho, alta de 8% sobre o mesmo período de 2025 e avanço de 113,8% em relação ao primeiro trimestre. O lucro líquido reportado foi de R$ 404,6 milhões.

A receita líquida de varejo somou R$ 3,69 bilhões, crescimento de 1,1%, enquanto a receita operacional líquida consolidada alcançou R$ 4,2 bilhões, avanço de 0,8%.

Mesmo com vendas abaixo do esperado, a companhia registrou margem bruta recorde para um segundo trimestre, de 57,5%, beneficiada por uma gestão mais eficiente de estoques e maior disciplina nas despesas, que cresceram apenas 1,5%.

O CFO Daniel Martins reforçou que a fortaleza operacional permaneceu preservada. "Seguimos com margem bruta recorde, despesas sob controle e lucro crescendo. A companhia continua uma forte geradora de caixa e mantendo uma remuneração relevante aos acionistas", disse à EXAME.

Segundo o diretor financeiro, apenas no segundo trimestre foram distribuídos R$ 220 milhões em juros sobre capital próprio e R$ 213 milhões em recompras de ações.

E o que esperar da Copa do Mundo Feminina?

Mesmo diante de um ambiente econômico mais desafiador e da proximidade das eleições de 2026, a administração afirma que não pretende alterar sua estratégia de expansão. A companhia manteve todas as metas de médio e longo prazo e segue confiante na abertura de novas lojas, principalmente em cidades médias e pequenas.

Segundo Faccio, as unidades inauguradas em 2024 já apresentam desempenho acima da média da rede, enquanto as abertas em 2025 e 2026 também vêm superando as expectativas. "Independentemente do cenário de curto prazo, nosso investimento de médio e longo prazo continua mantido", afirmou o CEO.

A companhia pretende abrir entre 50 e 60 novas lojas Renner neste ano. Até agora, 19 já foram inauguradas. De acordo com o executivo, justamente por se tratar de um evento excepcional, a Copa não altera a visão estrutural da empresa. "O ano que vem não tem Copa masculina. Todo ano tem alguma variável, mas não um evento desse tamanho. Nosso modelo continua preparado para atingir as metas de longo prazo."

Questionado sobre a Copa do Mundo feminina de 2027, Faccio ponderou que ela poderá gerar algum efeito sobre o fluxo das lojas, mas acredita que o impacto tende a ser menor. "A Copa do Mundo feminina pode ter algum impacto no fluxo das lojas, e vamos nos preparar para isso. Mas acredito que ele tende a ser menor, porque a audiência é diferente e a Copa masculina mobiliza um público muito maior, o que acaba afastando mais consumidores dos shopping centers e das lojas".

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Clara Assunção

É repórter em São Paulo e cobre mercado de capitais e finanças. Formada em Jornalismo pela PUC-SP, é pós-graduada em Política e Sociedade pelo IESP-UERJ. Teve passagem pela TV Globo, Rede Brasil Atual e UOL Economia.

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