O avanço no Ibovespa é disseminado: dos 84 papéis que compõem o índice, 79 operavam em alta, três estavam estáveis e apenas dois registravam queda (Patricia Monteiro/Bloomberg)
Repórter
Publicado em 27 de janeiro de 2026 às 12h14.
Última atualização em 27 de janeiro de 2026 às 12h36.
Depois de um pregão de acomodação na véspera, o Ibovespa voltou a ganhar força e iniciou esta terça-feira, 27, em alta expressiva, renovando máximas históricas ao longo das duas primeiras horas de negociação. O índice retomou o rali recente da bolsa brasileira, que havia sido interrompido na segunda, 26, após quatro sessões consecutivas de recordes.
O movimento ganhou tração em meio à divulgação do IPCA-15 de janeiro, que subiu 0,20%, abaixo das expectativas do mercado, reforçando a leitura de inflação sob controle na margem e estimulando o apetite por risco.
Por volta das 11h27, o principal índice da B3 avançou 2,29%, aos 182.816,64 pontos, e renovou sua máxima intradiária. Pouco depois, às 12h06, o Ibovespa mantinha alta de 2,14%, aos 182.550 pontos.
Na avaliação de Pablo Spyer, conselheiro da Ancord, o IPCA-15 confirma uma inflação ainda controlada na margem, mas traz alertas importantes na composição. Apesar do alívio pontual vindo das passagens aéreas, os núcleos seguem resilientes, especialmente em serviços subjacentes e bens industrializados, o que reforça uma postura cautelosa do Banco Central.
Para ele, o dado sustenta a expectativa de manutenção da Selic na reunião desta quarta-feira, 28, afastando, por ora, a discussão de cortes no curtíssimo prazo.
Já Rodrigo Marques, economista-chefe da Nest Asset Management, destaca que, embora os núcleos tenham vindo quantitativamente piores, a trajetória de desinflação permanece. Com isso, a casa mantém o cenário de início do ciclo de cortes na Selic, com uma redução de 25 pontos-base em março.
O avanço no Ibovespa é disseminado: dos 84 papéis que compõem o índice, 79 operavam em alta, três estavam estáveis e apenas dois registravam queda.
Mas o rali desta terça-feira tem forte contribuição do setor financeiro. As ações preferenciais do Itaú (ITUB4), que têm peso próximo de 9% na composição do Ibovespa, avançavam 3,28%. As units do Santander (SANB11) subiam 3,10%, enquanto Bradesco (BBDC4) ganhava 2,93% e Banco do Brasil (BBAS3) avançava 2,30%. Já as units do BTG Pactual (BPAC11) tinham alta de 1,34%.
Para Gabriel Mollo, analista de investimentos da Daycoval Corretora, o movimento segue sendo sustentado pela entrada de capital estrangeiro. “Com a saída de notícias negativas nos Estados Unidos, principalmente ligadas às decisões do presidente Donald Trump, o investidor estrangeiro tem direcionado recursos para mercados emergentes, entre eles o Brasil”, afirma.
No exterior, o noticiário segue contribuindo para a busca por risco em mercados emergentes. Nos Estados Unidos, o presidente Donald Trump prometeu um “grande pronunciamento” sobre a economia e o custo de vida, ao mesmo tempo em que voltou a pressionar bancos por um eventual teto nos juros do cartão de crédito e sinalizou intervenções no mercado imobiliário.
Além disso, cresce a preocupação com a possibilidade de um novo shutdown, pouco tempo após o país enfrentar o mais longo apagão da máquina pública de sua história.
No fim de semana, Trump também elevou as tensões comerciais ao ameaçar impor tarifas de 100% sobre produtos canadenses caso o país avance em um acordo comercial com a China. As declarações aumentaram a cautela dos investidores globais e reforçaram o fluxo para ativos fora dos EUA.
Esses fatores têm levado janeiro a registrar um retorno muito acima da média histórica, com fluxo externo impulsionando a bolsa e pressionando o dólar para baixo. “O IPCA-15 veio levemente abaixo do esperado, o que ajuda, mas não é forte o suficiente para mudar, por si só, as apostas de juros. Ainda assim, reforça a percepção de que o ciclo de cortes pode começar em março”, diz.
Mollo alerta, porém, que o mercado já está bastante esticado. “Os bancos estão subindo bem acima da média do mercado. Acho que o mês pode terminar em alta, mas vale começar a adotar uma postura mais cautelosa, com stops ou proteção via opções, porque qualquer notícia negativa pode desencadear uma realização mais forte.”
Entre as maiores altas do dia, Yduqs disparava 7,75%, após o Itaú BBA elevar a recomendação da companhia — e também da Cogna — de neutra para compra. Para o banco, o setor de educação segue bem posicionado para se beneficiar do ciclo de queda dos juros, e 2025 marca um ponto de inflexão, com foco maior na proteção de margens e geração de caixa.
As ações do Assaí avançavam 5,95%, em meio ao recuo dos juros futuros, que favorece papéis ligados ao consumo e ao varejo. Na ponta oposta, Eneva (-1,22%) e Totvs (-1,52%) figuravam entre as únicas baixas do índice.
Segundo Alexandre Pletes, head de renda variável da Faz Capital, o movimento reflete mais uma realização de lucros do que qualquer mudança estrutural. “A Eneva subiu mais de 100% nos últimos 12 meses, enquanto o Ibovespa avançou cerca de 48% no mesmo período. A Totvs também teve um desempenho muito forte. Não há nenhuma notícia negativa específica”, afirma.
O setor de energia elétrica, que vinha se beneficiando intensamente do fluxo estrangeiro, operava próximo da estabilidade. Para Pletes, esse comportamento é natural. “O investidor estrangeiro costuma entrar primeiro em setores de maior liquidez, como utilities e financeiro. Agora, vemos uma rotação para small caps, que hoje sobem mais que o próprio Ibovespa”, explica.