Otimismo com cautela nos mercados: "Estamos em um mercado de manchetes", afirmou Guillermo Hernandez Sampere, da MPPM, à Bloomberg, sobre cenário ainda dependente de "manchetes" (Getty Images/Reprodução)
Repórter
Publicado em 4 de março de 2026 às 11h50.
Depois de um dia de forte aversão a risco que varreu os mercados globais, esta quarta-feira, 4, começa com sinais de uma certa correção, ao menos por ora.
Os principais índices acionários da Europa aceleraram ganhos após as fortes quedas da véspera. O Stoxx 600 subia 1,53% por volta das 11h30, com avanço também do DAX, do FTSE 100, do CAC 40 e do IBEX 35.
Em paralelo, no Brasil, o Ibovespa abriu em alta superior a 1%, enquanto o dólar recuava quase 1% frente ao real e o índice DXY, que mede a força da moeda americana frente a uma cesta de divisas fortes, caía levemente.
O petróleo Brent também recuava para perto de US$ 81 o barril, após declarações do presidente dos EUA, Donald Trump, de que o país poderá garantir seguro e até escolta naval para navios no Estreito de Ormuz, buscando assegurar o fluxo de exportações na região.
Mas, de acordo com operadores, há mais notícias sobre o conflito entre Estados Unidos e Israel contra o Irã que vem mexendo com o humor dos investidores nesta quarta.
Entre elas, estão as declarações do secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, que afirmou à CNBC que Washington "anunciará uma série de medidas" para dar suporte ao comércio de petróleo no Golfo Pérsico, sinalizando disposição para intervir caso as tensões ameacem o corredor energético.
Segundo a Bloomberg investidores também reagem à notícia do New York Times, de relatos sobre o Teerã ter feito contato indireto com os EUA para negociar o fim do conflito, ainda que autoridades mantenham ceticismo quanto a uma solução rápida.
Apesar do alívio, gestores reforçam que o cenário segue dependente de manchetes. "Estamos em um mercado de manchetes", afirmou Guillermo Hernandez Sampere, da MPPM, à Bloomberg, destacando que a volatilidade tende a persistir até que haja maior clareza sobre as cadeias de suprimento.
Estrategistas do Deutsche Bank ponderam que, até o momento, a alta do petróleo não se compara a choques históricos como os de 2022, na invasão da Ucrânia pela Rússia, ou da Guerra do Golfo.
Segundo o banco, para que o impacto sobre ações seja mais profundo e duradouro, seria necessário um salto de 50% a 100% no preço do barril ao longo de vários meses, acompanhado de danos macroeconômicos mais amplos e reação mais agressiva de bancos centrais.
Nos Estados Unidos, o dado de emprego da ADP também trás algum suporte. O setor privado criou 63 mil vagas em fevereiro, acima das expectativas. Ainda assim, investidores aguardam o relatório oficial de emprego nesta sexta, 6, e dados de atividade nos próximos dias.
Na véspera, o choque geopolítico provocado pela escalada do conflito no Oriente Médio desencadeou uma onda de vendas em bolsas ao redor do mundo, disparada do dólar e temor renovado de pressão inflacionária via energia.
No Brasil, o Ibovespa tombou 3,28%, aos 183.104 pontos, na pior sessão desde dezembro, após chegar a cair mais de 4% no intradia. O movimento eliminou R$ 166,4 bilhões em valor de mercado das empresas listadas na B3, segundo levantamento da Elos Ayta.
Enquanto na Ásia, o índice Kospi despencou 7,24% em Seul, o pior pregão em 11 meses, com quedas também nas demais bolsas da região. A pressão das vendas também chegou na Europa, onde os índices caíram mais de 2%.
Nos Estados Unidos, as perdas foram mais moderadas, mas ainda expressivas. O Dow Jones caiu 0,83%, o S&P 500 recuou 0,94% e o Nasdaq Composite perdeu 1,02%, após um dia de forte volatilidade.
No centro da tensão na sessão passada esteve o anúncio do Irã de bloqueio do Estreito de Ormuz, rota estratégica por onde passa cerca de 20% do petróleo consumido globalmente. A ameaça de interrupção no fluxo elevou o temor de choque de oferta e nova rodada de pressão inflacionária.
No câmbio, o dólar à vista subiu 1,91%, a R$ 5,265, refletindo a busca por proteção. O índice DXY, que mede a força da moeda americana frente a uma cesta de divisas fortes, chegou ao maior nível intradia em quase um ano, antes de desacelerar e encerrar com alta mais moderada, em torno de 0,40%.
O estrategista-chefe da XP Investimentos, Fernando Ferreira, observou que o mercado pode ter subestimado o potencial de impacto de choques de petróleo associados a eventos geopolíticos, citando precedentes históricos em que conflitos com efeitos sobre energia geraram impactos mais duradouros nos preços dos ativos.
"O mercado havia concluído muito rápido que eventos geopolíticos em geral têm um efeito limitado nas Bolsas, com base em alguma análise olhando o histórico desses eventos e a performance subsequente dos mercados meses depois", escreveu Ferreira em sua conta no X (antigo Twitter).