Prédio residencial atacado em Kharkiv, na Ucrânia, perto da linha de frente da guerra (Governo da Ucrânia/AFP)
Redação Exame
Publicado em 11 de janeiro de 2026 às 19h38.
Os soldados russos estão em combate na Ucrânia há 1.418 dias, o mesmo período em que o Exército Vermelho lutou na Segunda Guerra Mundial (1941-1945).
O dado evidencia que o que começou há quase quatro anos como uma “operação militar especial” (SVO, em russo) se transformou em uma guerra de desgaste, com desfecho incerto e consequências catastróficas para o Kremlin.
Conhecido como Guerra da Ucrânia, o conflito começou na madrugada de 24 de fevereiro de 2022. Embora no ano passado ambos os lados tenham retomado negociações, nem russos nem ucranianos veem uma saída próxima.
No caso soviético, o Exército Vermelho só entrou formalmente na Segunda Guerra Mundial após a invasão nazista da União Soviética, em 22 de junho de 1941. A campanha durou até a tomada do Reichstag, em Berlim, em 9 de maio de 1945.
Durante o conflito, os soviéticos perderam mais de 8 milhões de militares, além de cerca de 18 milhões de civis, segundo fontes oficiais.
Já na Ucrânia, fontes independentes estimam que as Forças Armadas russas sofreram mais de um milhão de baixas, incluindo entre 200 mil e 300 mil mortos — acima de 13% dos mobilizados. Moscou, porém, reconhece apenas 5.937 óbitos, conforme seu Ministério da Defesa, último dado divulgado em setembro de 2022.
O que Moscou pretendia que fosse uma ofensiva relâmpago se transformou em uma campanha prolongada, que consumiu recursos bilionários — 7% do PIB em 2025 — e provocou elevado número de mortes, diante da resistência ucraniana.
Desde o início, o presidente Vladimir Putin comparou a “nobre causa” da operação militar aos objetivos da Segunda Guerra Mundial, e chegou a classificar a SVO como uma guerra “santa” durante missa de Natal:
"Frequentemente chamamos Deus de Salvador, pois veio à Terra para salvar todos os homens. Pois os soldados russos cumprem sempre, como por ordem do Senhor, a missão de defender a pátria e seu povo".
Na cerimônia, o patriarca ortodoxo Kirill chamou de “traidores da pátria” aqueles que não apoiam o conflito.
Para o Kremlin e aliados próximos, como a Igreja, a vitória na Ucrânia é a nova utopia, independentemente de, historicamente, a União Soviética ter sido invadida pela Alemanha nazista, enquanto hoje a Rússia é considerada, pela maior parte da comunidade internacional, a potência invasora.
Nos primeiros dias da operação, a propaganda do Kremlin repetia a frase “Kiev em três dias”. Contudo, a tentativa de tomar o aeroporto de Gostomel fracassou, impedindo a captura rápida da capital ucraniana. Desde então, quase quatro anos de combates se passaram, e os russos não conseguiram dominar totalmente as quatro regiões que anexaram de forma simbólica em setembro de 2022.
"Podemos repetir! Vamos a Berlim!", proclamavam os ultranacionalistas russos, hoje indignados com a captura pelo EUA do líder venezuelano Nicolás Maduro “em apenas três horas”. Enquanto isso, o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, rotulado por Moscou como chefe de um regime “neonazista”, segue em Kiev e se recusa a se render.
Em 1.418 dias, o Exército Vermelho expulsou Hitler de seu território, libertou cidades importantes da Europa Oriental e tomou Berlim. Em contraste, os russos conquistaram recentemente cinco pequenas localidades e cerca de 5.000 a 6.000 km² em 2025, muito abaixo do planejado.
Ao todo, controlam aproximadamente 94.000 km² — equivalente à Hungria —, cerca de um quinto da Ucrânia, sendo que 7% já estava sob influência pró-Rússia em 2022. No início do conflito, porém, chegaram a ocupar quase 40% do território ucraniano.