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Data centers: setor espera Redata (Imagem gerada por IA/Exame)
Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 1 de setembro de 2026 às 08h01.
O Brasil já reúne boa parte dos ingredientes que fazem de um país um polo global de data centers — energia renovável abundante, escala territorial, matriz elétrica limpa.
O que falta, segundo especialistas em direito regulatório e energético ouvidos pela EXAME, não é potencial, mas previsibilidade. Com o ajuste regulatório certo, dizem eles, o país poderia competir de igual para igual com mercados hoje mais consolidados, como Chile, México e até os países do Golfo Pérsico. Mas alguns obstáculos — como o acesso a chips de ponta e o custo de capital em dólar — não desaparecem só com uma lei aprovada.
É esse o pano de fundo da votação marcada para esta terça-feira, 1º, no Senado, do Redata, regime tributário que segue travado no Congresso desde o ano passado. Os especialistas ouvidos pela reportagem divergem menos sobre o mérito do incentivo do que sobre o custo político de ele ter demorado tanto para sair do papel.
Para Bianca Bez, advogada especialista em energia do escritório BBL Advogados, o Brasil perde competitividade não pelo tamanho do incentivo, mas pela forma como ele foi construído.
"O investidor internacional não precifica apenas tributo: precifica incerteza", diz. Segundo ela, o Redata nasceu como medida provisória, passou pela Câmara e foi para o Senado — e, nesse tempo todo, quem decidia entre Brasil, Chile e Texas via um regime cuja sobrevivência dependia de aprovação no Congresso. "Um incentivo excelente e instável vale menos, na conta do investidor, do que um incentivo mediano e perene."
Marcos Poliszezuk, sócio-fundador do Poliszezuk Advogados, detalha essa cronologia: a Medida Provisória nº 1.318/2025 caducou em 25 de fevereiro de 2026, sem sequer ter comissão instalada para analisá-la, e o projeto que a substituiu, o PL 278/2026, segue parado no Senado desde então. Segundo ele, o limite anual de R$ 1 bilhão em benefícios previsto na lei é pequeno perto do tamanho dos projetos que o setor movimenta — o da ByteDance no Ceará, por exemplo, é estimado em R$ 200 bilhões sozinho.
Mas reduzir o problema só ao imposto seria simplificar demais. Felipe Kfuri, sócio do L.O. Baptista, pondera que a decisão de investir nunca depende de uma variável isolada. "Os investidores analisam simultaneamente disponibilidade de energia, rapidez de conexão à rede elétrica, segurança regulatória, acesso a cabos submarinos, previsibilidade ambiental e velocidade de licenciamento", diz.
É na energia que aparece um dos gargalos mais citados pelos especialistas. Segundo Bianca Bez, o dilema entre concentrar data centers no Sudeste e migrar para o Nordeste é uma falsa escolha.
Dados do Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS) mostram que, dos cerca de 38 projetos de data center já com acesso aprovado, somando 7 gigawatts (GW), 20 estão em São Paulo — e corredores como Tamboré, Vinhedo, Hortolândia e Campinas já operam perto do limite.
"Reforçar a rede no Sudeste é possível, mas a obra de transmissão tem prazo médio de cinco a sete anos, e a demanda de IA não se contenta em esperar", diz.
Para ela, o Nordeste ganha força justamente por unir carga e geração no mesmo lugar. Cargas de treinamento de IA, menos sensíveis à latência, encontram ali a resposta mais eficiente, enquanto cargas de nuvem corporativa seguem dependendo da proximidade do Sudeste com o usuário final.
A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) já registrou pedidos de conexão para data centers somando 26,3 GW até 2038 — cerca de 25% de todo o pico histórico de demanda elétrica do país, de 105 GW, registrado em fevereiro de 2025. Para Poliszezuk, os números dimensionam o tamanho do setor.
"O eixo Sul-Sudeste ainda atrai aproximadamente metade dos novos investimentos do setor, mas a tendência é de diversificação regional", afirma.
Essa diversificação para o Nordeste, porém, já mostra seus próprios limites.
O contrato de autoprodução entre a Casa dos Ventos e a ByteDance, em Pecém, no Ceará — cerca de US$ 2 bilhões por 20 anos, o maior acordo desse tipo já fechado na América Latina —, é citado pelos três especialistas como referência, mas também como exemplo do que esse modelo não resolve sozinho.
"O contrato privado resolve o problema da energia para este empreendimento, mas, por óbvio, não resolve o problema do fio na região como um todo. Geração e transmissão são bens econômicos distintos", diz Bianca Bez. "A transmissão é monopólio natural, planejado centralizadamente e remunerado por tarifa. O que o poder público precisa fazer não é necessariamente investir mais, mas planejar melhor e licitar mais rápido."
Poliszezuk reforça o ponto com dados do leilão mais recente da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel): o Leilão 01/2026 concedeu 888 quilômetros de novas linhas de transmissão, com investimento estimado em R$ 5,8 bilhões — valor que ele considera "insuficiente diante das solicitações de conexão que somam dezenas de gigawatts".
Segundo ele, o próprio Google já declarou publicamente, em janeiro deste ano, que o maior gargalo para expandir infraestrutura de inteligência artificial (IA) hoje "não é os chips, nem os engenheiros, nem o capital, mas a energia elétrica".
Energia à parte, outro fator já encarece qualquer projeto antes mesmo de sair do papel: o custo da própria obra. Segundo o índice da consultoria Turner & Townsend, São Paulo tem o maior custo de construção de data centers da América Latina, acima de Querétaro, no México, e Bogotá, na Colômbia.
Segundo Bianca Bez, esse custo tem duas origens diferentes. A primeira é conjuntural — escassez de mão de obra especializada e cadeia de suprimentos ainda em amadurecimento —, e tende a ceder com a escala.
A segunda é estrutural, e é onde mora o chamado "custo Brasil", a tributação em cascata sobre a cadeia de construção, litigiosidade trabalhista precificada de antemão pelos empreiteiros, e custo de capital inflado pelo juro real e pelo risco cambial. "A parcela conjuntural vai cair; a estrutural só cai com reforma", afirma.
Kfuri concorda que parte do custo tende a ceder com a maturação do mercado, mas não todo. "Regiões que concentram demanda digital e enfrentam restrições de infraestrutura costumam permanecer mais caras do que novas fronteiras de expansão."
Para Poliszezuk, o ciclo de construção de um data center hiperescalar leva de 18 a 36 meses entre o início da obra e a operação comercial — um prazo relativamente previsível.
Já o intervalo entre o anúncio de um projeto e a decisão final de investir nele, afetado pela incerteza regulatória, não tem cronograma fixo.
"É razoável afirmar que uma parte significativa dos atrasos observados é atribuível à incerteza regulatória tributária, mas parte também decorre do tempo natural de maturação de projetos dessa envergadura", diz.
Mesmo resolvendo energia e regulação, ainda existe um obstáculo que nenhuma lei brasileira consegue controlar sozinha: o acesso a chips.
Desde janeiro de 2026, os Estados Unidos dividiram o mundo em três níveis de acesso a semicondutores avançados, e o Brasil ficou no Nível 2 — grupo de mais de 150 países sujeitos a limites de compra.
"Países do Golfo Pérsico, embora também classificados no Nível 2, frequentemente negociam acordos bilaterais com Washington que lhes garantem acesso preferencial em troca de compromissos geopolíticos e de investimento", afirma Poliszezuk.
Segundo o especialista, o Brasil, sem acordo estratégico específico na área de semicondutores, disputa a mesma cota que dezenas de outros países.
É essa desigualdade de acesso — e não falta de dinheiro — que resume, para Bianca Bez, o maior desequilíbrio de forças na disputa global por infraestrutura de IA.
"Os americanos têm os chips e disputam elétrons; nós temos os elétrons e disputamos chips", diz.
Depois de percorrer energia, regulação, mão de obra e acesso a chips, resta uma última pergunta: mesmo resolvendo tudo isso, o Brasil competiria de igual para igual com os líderes globais? Os três especialistas apontam praticamente o mesmo trio de obstáculos remanescentes: câmbio, geopolítica e custo de capital.
"O investimento chega em dólar, mas o custo operacional é em real — e a volatilidade da nossa moeda imporia um custo de proteção cambial que o investidor na Virgínia ou em Abu Dhabi simplesmente não tem", diz Bianca Bez.
Para Kfuri, "sempre haverá fatores externos que o Brasil não controla, como a concentração global da produção de semicondutores e as dinâmicas geopolíticas que afetam essa cadeia". Mas, segundo ele, do ponto de vista doméstico, os principais desafios discutidos hoje pelo setor estão relacionados justamente à energia, à infraestrutura e à previsibilidade regulatória.
"Se esses obstáculos forem superados, o Brasil tende a se tornar um competidor muito mais relevante na disputa por investimentos em data centers", afirma.