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Data centers: energia é gargalo para a construção (Erik Isakson/Getty Images)
Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 31 de agosto de 2026 às 11h59.
O maior obstáculo para o crescimento do mercado brasileiro de data centers não é falta de capital, nem de demanda — é energia. A avaliação é de Bruno Porto, gerente de Industrial, Logística e Data Center da JLL, em entrevista exclusiva à EXAME.
"O mais crítico é a infraestrutura de energia. Esse gargalo é o que leva mais tempo devido à sua complexidade de aprovações e complexidade das obras necessárias. As aprovações podem depender de órgãos regulatórios como a ONS [Operador Nacional do Sistema Elétrico] e contratos para garantia de energia", diz Porto.
Segundo ele, a obra necessária para viabilizar um projeto pode variar bastante em escala — "pode ser um simples reforço de linha, como também pode ser quilômetros de um novo ramal passando por diversas áreas que necessitariam ser desapropriadas".
O relatório da JLL mostra vacância entre 1% e 6% em São Paulo & Barueri e Campinas — os dois maiores polos do país —, contra 25% em Fortaleza e 40% em Porto Alegre.
Para Porto, essa diferença não indica que os novos polos crescem só por aposta de longo prazo, sem demanda real por trás.
"Entendemos que essa vacância em Fortaleza e Porto Alegre são momentâneas e, por serem mercados ainda pequenos, desocupações pontuais causam uma grande variação na taxa. No ano passado, por exemplo, a vacância em Porto Alegre era de 0%", afirma.
Segundo ele, a tendência é de estabilização à medida que esses mercados crescem.
Com 660 megawatts (MW) em construção e mais da metade já pré-comprometida antes mesmo de ficar pronta, o ritmo do setor levanta a dúvida sobre se a demanda das hyperscalers está superaquecendo a capacidade de entrega da indústria. Porto descarta esse risco.
"Esse nível de pré-comprometimento ainda é saudável, e a grande quantidade de projetos planejados demonstra que a indústria ainda possui capacidade de entrega", diz.
Parte relevante da capacidade pré-comprometida em Fortaleza vem de um único projeto sob medida (built-to-suit) — o que poderia sugerir risco de concentração excessiva.
Porto argumenta que os fundamentos da cidade sustentam a atratividade da região, independentemente do desempenho de um projeto específico.
"Fortaleza possui fundamentos sólidos para instalação de data centers: principal ponto de conexão dos cabos submarinos do Brasil, energia renovável a preço competitivo e disponibilidade de terrenos, além da proximidade com outras capitais do Nordeste. Então, mesmo um eventual problema momentâneo com esse projeto ainda tornaria a região atrativa no médio e longo prazo", afirma.
Para ele, "assim como uma montadora, um projeto desse porte deve trazer consigo todo um ecossistema de data centers de outras empresas para a região."
Hoje, Ascenty, Odata e Scala somam 70% da capacidade operacional do país. Segundo Porto, esse domínio deve se dissolver naturalmente à medida que o setor amadurece.
"No ranking de capacidade atual, vemos os nomes de nove empresas, enquanto no ranking considerando em construção e planejados o número de empresas já salta de nove para 14. Com o crescimento de mercado e maior necessidade de investimento de capitais, a tendência é essa concentração ser diluída nos próximos anos", diz.
No segmento de varejo (contratos abaixo de 250 kW), o preço médio em Fortaleza (US$ 385 por kW/mês) supera o de Campinas (US$ 320).
Segundo Porto, a explicação está na oferta disponível para o inquilino.
São Paulo é mais barata que Tóquio e Singapura para construir data center"A restrição de oferta faz com que o preço em média seja mais alto nessa região. Em Campinas, para o segmento de retail, um mesmo inquilino teria mais espaços ofertados do que em Fortaleza", afirma.
Para Porto, o domínio do Brasil na região — cerca de metade de toda a capacidade de data centers da América Latina — não é resultado de falta de concorrência regional, mas de vantagens concretas do próprio país.
"Está ligado a vantagens estruturais. Dadas essas vantagens, com um cenário regulatório claro e definição de questões fiscais, a tendência é a potencialização da atratividade do país", diz.
Sobre o peso da infraestrutura de cabos submarinos — com pontos de chegada em Fortaleza, Rio de Janeiro e Santos — na decisão das hyperscalers de construir instalações próprias, Porto pondera que essas empresas ainda preferem cautela.
"Para a construção de suas próprias instalações, os hyperscalers têm se mostrado mais conservadores e, por enquanto, focados nas regiões mais consolidadas com infraestrutura já pré-estabelecida. A infraestrutura dos cabos e a questão da conectividade têm se mostrado um dos pontos essenciais nessa decisão", afirma.
Sobre o impacto prático da demora na aprovação do Redata — regime de incentivo tributário para data centers ainda pendente no Congresso —, Porto confirma que projetos já sentem o efeito da incerteza.
"O impacto disso é que a demanda é menor do que seu real potencial, fazendo com que alguns projetos fiquem represados ou nasçam menores do que seriam com ambiente regulatório bem definido", diz.
Com 4.621 MW em pipeline planejado até 2030, existe o risco de sobra de capacidade em algum submercado específico. Porto acredita que o próprio mecanismo de mercado evita esse cenário.
"Os maiores projetos só saem, efetivamente, do status de planejado e recebem grandes investimentos a partir de indicações claras de demanda por parte dos hyperscalers, com isso, diminui-se o risco de excesso de oferta. O que pode ocorrer é que alguns desses projetos sejam abandonados ao longo do tempo", afirma.