Patrocinado por:
Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 7 de agosto de 2026 às 07h01.
A disputa por chips, modelos de linguagem e data centers não precisa ser vencida pelo Brasil para que o país capture os ganhos da inteligência artificial (IA) — nem mesmo um "ChatGPT brasileiro" precisa ser criado.
Para Paulo Ernani, diretor de operações da consultoria AVEX AI Lab, o risco maior é a demora das empresas brasileiras para incorporarem a tecnologia em suas rotinas.
“O Brasil não precisa que a tese de infraestrutura dê certo para capturar valor”, afirmou Ernani à EXAME. "Empresa média brasileira usando IA para automatizar atendimento, processo comercial ou operação captura ganho de produtividade independentemente de quem pagou o data center, e num cenário de correção, captura até mais, porque o custo de inferência despenca."
A tese de Ernani separa a corrida da IA em duas camadas. Na primeira estão fabricantes de chips, laboratórios de modelos, provedores de nuvem e operadores de data centers. Na segunda estão as companhias que usam a tecnologia para automatizar processos, reduzir custos ou ampliar receitas.
É nessa segunda camada que Ernani identifica a principal oportunidade para o país.
“Nossa exposição negativa é basicamente financeira e cambial, via bolsa e fluxo de capital. Nossa exposição positiva é operacional. O risco real do Brasil é não adotar a tecnologia”, disse.
A corrida atual concentra capital na infraestrutura necessária para treinar e executar sistemas de IA. Amazon, Alphabet, Meta e Microsoft ampliaram seus investimentos em centros de processamento, servidores e equipamentos especializados ao longo de 2026.
Para Ernani, essa concentração é característica do início de um ciclo tecnológico. Os fornecedores da infraestrutura capturam os primeiros ganhos porque vendem os recursos escassos de que o restante do mercado precisa.
“É a fase da picareta na corrida do ouro, e é onde estamos”, afirmou.
Esse equilíbrio pode mudar conforme os chips se tornem mais disponíveis, os modelos disputem clientes e o custo de inferência — a execução de uma IA já treinada — continue caindo.
Na avaliação do executivo, a competição entre as empresas que vendem infraestrutura e modelos favorece quem compra a tecnologia. Margens menores nas camadas superiores podem significar preços mais baixos para companhias que usam IA em atendimento, vendas, logística e processos internos.
“Infraestrutura e modelos estão em guerra de preços permanente entre si, o custo de inferência cai em ritmo acelerado, o que é péssimo para quem vende e ótimo para quem compra”, disse Ernani.
A oportunidade brasileira não desapareceria necessariamente diante de uma correção no mercado de IA.
Uma redução nos investimentos globais poderia atingir fabricantes de chips, laboratórios e projetos de data centers, mas também pressionaria o preço da capacidade computacional.
Para as empresas usuárias, modelos mais baratos poderiam reduzir o custo de automatizar tarefas e incorporar sistemas de IA aos produtos.
“Num cenário de correção, captura até mais, porque o custo de inferência despenca”, afirmou o executivo ao tratar da empresa média brasileira.
Brasil está atrás na corrida por uma IA própria, diz diretora do CEIAA declaração não significa que uma queda no investimento global seria positiva para toda a economia. Ernani avalia que o Brasil permaneceria exposto pelos mercados financeiro e cambial, por meio da bolsa e dos fluxos internacionais de capital.
A diferença estaria na exposição operacional: uma companhia que usa IA para diminuir custos poderia continuar se beneficiando da tecnologia mesmo que as avaliações das empresas do setor caíssem.
A adoção empresarial não é a única oportunidade. O Brasil também tenta ocupar espaço como destino de data centers, apoiado pela disponibilidade de energia renovável e pela escala de seu sistema elétrico.
O país concentra 48% da capacidade instalada de data centers da América Latina e 71% dos projetos em construção na região, segundo relatório publicado pelo GRI Institute em julho de 2026. As estimativas variam conforme a metodologia e o conjunto de projetos considerados.
“O maior vencedor não vai ser uma empresa de IA, vai ser a empresa comum que aprendeu a usá-la antes dos concorrentes.”
Essa expansão, porém, exige capital, equipamentos importados, conexão à rede elétrica e segurança regulatória. Para Ernani, o ganho com o uso da IA é menos dependente desses fatores.
Uma empresa brasileira não precisa construir um modelo fundacional, fabricar chips ou operar um data center para aplicar uma ferramenta já disponível em um processo comercial. A captura de valor ocorre quando a tecnologia se transforma em produtividade dentro da operação.
Ernani compara o ciclo da IA à evolução de outras plataformas tecnológicas. A infraestrutura concentra os ganhos no começo, mas o valor de longo prazo tende a migrar para negócios que reorganizam produtos e processos em torno da nova tecnologia.
Ele cita a internet e a eletricidade como exemplos de inovações cujo impacto ultrapassou as empresas que inicialmente forneceram os equipamentos necessários para sua expansão.
“Se a tese estiver certa, o maior vencedor não vai ser uma empresa de IA, vai ser a empresa comum que aprendeu a usá-la antes dos concorrentes”, afirmou.
Para o Brasil, a corrida decisiva pode não ser por quem produz o chip mais avançado — mas por quem aprende primeiro a usar o que esses chips tornam possível.