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Justiça decreta falência de rede que chegou a ter 96 supermercados e 5 mil funcionários em SP

Grupo Ricoy entrou em recuperação judicial em outubro de 2025, com centenas de milhões de reais em dívidas. Plano foi rejeitado pelos credores e Justiça apontou fechamento de lojas e esvaziamento da operação

Grupo Ricoy: no auge, empresa chegou a ter 96 unidades por São Paulo (Reprodução)

Grupo Ricoy: no auge, empresa chegou a ter 96 unidades por São Paulo (Reprodução)

Daniel Giussani
Daniel Giussani

Repórter de Negócios

Publicado em 31 de agosto de 2026 às 11h58.

Última atualização em 31 de agosto de 2026 às 11h59.

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A Justiça de São Paulo decretou a falência do Grupo Ricoy, uma das redes de supermercados mais tradicionais de São Paulo.

A decisão atinge 33 empresas ligadas ao grupo, entre supermercados, distribuidoras, holdings e a operação do Vencedor Atacadista. A sentença foi assinada em 28 de agosto pela juíza Fernanda Perez Jacomini, da 3ª Vara de Falências e Recuperações Judiciais de São Paulo.

A queda encerra uma tentativa de recuperação judicial iniciada menos de 1 ano atrás. O Grupo Ricoy fez o pedido em 29 de outubro de 2025 e teve o processamento deferido em 19 de novembro.

No auge, segundo o laudo apresentado pela própria companhia no processo, chegou a operar 96 lojas próprias em mais de 70 municípios paulistas e empregou mais de 5.000 trabalhadores diretamente.

A falência veio depois de uma sequência de problemas durante a recuperação. O plano apresentado pelo Ricoy foi rejeitado pelos credores em julho. Uma segunda alternativa, formulada por credores, também não reuniu apoio suficiente para sequer ser levada a votação.

Ao mesmo tempo, a administradora judicial relatou falta de documentos financeiros, fechamento de lojas e uso de máquinas de cartão que direcionavam pagamentos para empresas de fora do grupo em recuperação.

Agora, o processo muda de finalidade. Sai a tentativa de preservar e reorganizar as empresas e entra a etapa de falência, na qual ativos são arrecadados e vendidos para pagamento dos credores conforme a ordem prevista em lei. A Justiça também determinou que habilitações de créditos passem a seguir o procedimento da falência.

O que levou o Grupo Ricoy à falência

O golpe final veio da assembleia de credores. Em 14 de julho, o plano de recuperação do próprio Ricoy foi rejeitado porque não obteve a aprovação necessária na Classe III, formada principalmente pelos credores sem garantia real.

A Justiça entendeu que não estavam presentes os requisitos para aprovação forçada do plano, mecanismo conhecido no mercado como cram down, quando o juiz pode homologar uma proposta mesmo sem o apoio de todas as classes de credores.

Ainda havia uma segunda possibilidade. Um grupo de credores apresentou em agosto um plano alternativo que previa, entre outras medidas, a criação de uma unidade produtiva isolada para o negócio de laticínios e a nomeação de um gestor judicial.

A saída também fracassou. Após analisar as adesões, a Vivante, administradora judicial do caso, concluiu que os subscritores do plano representavam apenas 0,185% dos créditos presentes na assembleia, muito abaixo do quórum de 35% exigido para levar a proposta à votação.

A administradora passou, então, a defender a falência.

A assembleia que estava prevista para esta segunda-feira, 31 de agosto, acabou cancelada pela própria sentença. Segundo a Justiça, não havia quórum legal para votação do plano alternativo.

A administradora judicial também informou à Justiça que o Ricoy havia parado de fornecer documentos operacionais, financeiros, contábeis e trabalhistas desde fevereiro de 2026.

Visitas às operações mostraram ainda uma redução rápida da rede. De acordo com a administradora judicial, nenhuma operação estava plenamente em funcionamento em agosto.

O último relatório mensal disponível da administradora judicial mostra a dimensão do passivo sujeito à recuperação.

A relação reunia 2.824 credores trabalhistas, com créditos de 50,7 milhões de reais; 653 credores da Classe III, com 385,9 milhões de reais; e 1.194 micro e pequenas empresas, com outros 24,6 milhões de reais. Somados, os créditos listados superavam 461 milhões de reais.

Qual é a história do Ricoy

A história do Ricoy começou muito antes da crise atual.

A rede tem origem em supermercados de bairro da Zona Sul de São Paulo, da fusão das operações Riviera e Yokoi, criadas por famílias que atuavam no varejo alimentar da região.

Nas décadas seguintes, o crescimento passou por aquisições e incorporação de redes regionais. Diferentes bandeiras estiveram ligadas ao grupo ao longo desse período, entre elas Amais, Economax, Pão de Mel, Peri, Gimenez, Rei do Gado e Russi.

O próprio laudo econômico-financeiro entregue à Justiça aponta a aquisição do Grupo Russi como um dos acontecimentos que depois pesaram sobre as contas. Segundo o documento, os impactos fiscais e tributários relacionados à operação ficaram entre as três causas da crise, ao lado do aumento da concorrência e da alta dos juros.

O grupo também investiu em logística. Em maio de 2011, implantou um centro de distribuição na Grande São Paulo. Depois avançou sobre o atacarejo com a bandeira Vencedor Atacadista. Foi nesse ciclo que a operação chegou às 96 lojas próprias, espalhadas por mais de 70 municípios e com mais de 5.000 funcionários.

Como foi a crise

A expansão perdeu força na década seguinte. O grupo passou por fechamento de unidades, redução da operação e mudanças de bandeira. Quando pediu a recuperação judicial, em 2025, a estrutura já estava distante do tamanho alcançado nos anos anteriores.

No laudo entregue junto ao plano de recuperação, o grupo sustentava que enfrentava um “desequilíbrio conjuntural” e que a crise era transitória.

A tese era de que a operação poderia voltar a crescer após a renegociação das dívidas. Entre as causas apontadas estavam custos logísticos e tributários maiores, redução de margens, concorrência, encurtamento dos prazos dados pelos fornecedores e juros mais altos.

O plano previa renegociação do passivo, possíveis vendas de unidades produtivas isoladas e obtenção de novos financiamentos.

Menos de oito meses depois da apresentação desse plano, o diagnóstico judicial era outro. Sem aprovação dos credores, com operações encerradas durante o processo e diante dos relatos de esvaziamento da atividade, a recuperação terminou antes de chegar à fase de pagamentos.

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