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Sensação da Copa, França é 'dominada' por atletas africanos

No Brasil, contratação de atletas africanos ainda é tímida, apesar do crescimento nos últimos anos

 (SHAWN THEW/EFE/EPA)

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Luiz Anversa
Luiz Anversa

Repórter

Publicado em 2 de julho de 2026 às 19h30.

Dentre todas as seleções que disputam a Copa do Mundo, a França é a que mais vem encantando os olhos do público, com grandes atuações, goleadas e atuações marcantes do trio formado por Mbappé, com 6 gols e 2 assistências, Dembelé, com 4 gols e 2 assistências, e Olisé, com 5 assistências, sendo o principal garçom até o momento na competição.

A atual geração de atletas franceses é vista por especialistas como uma das mais talentosas dos últimos anos, e não é de hoje. Campeão do mundo em 2018 e vice em 2022, a seleção se consolida mais uma vez como favorita a uma edição de Mundial.

Antes do início da Copa, um levantamento produzido pelo Bank of America, feito com 65 analistas da divisão Global Research do banco, apontava a França como favorita a levantar o caneco. O estudo aponta que o país venceria a Espanha na final, e que o atacante Kylian Mbappé deve ser o provável artilheiro do torneio.

O que poucos sabem, no entanto, é que dos 26 convocados da seleção francesa para a Copa do Mundo, nada menos do que 2/3 dos atletas - 16 no total - têm dupla nacionalidade africana, o que para alguns especialistas, reflete na evolução técnica do país nos últimos anos.

A lista

Dos 26 convocados, possuem dupla nacionalidade africana Brice Samba (Congo), Ibrahima Konaté (Mali), William Saliba (Camarões), Dayot Upamecano (Guiné Bissau), Jules Koundé (Benim), N'Golo Kanté (Mali), Manu Koné (Costa do Marfim), Aurélien Tchouaméni (Camarões), Maghnes Akliouche (Argélia), Rayan Cherki (Argélia), Ousmane Dembelé (Mauritânia), Jean Mateta (Congo), Désire Doué (Costa do Marfim), Bradley Barcola (Togo), Kylian Mbappé (Camarões/Argélia) e Michael Olise (Nigéria/Argélia/Inglês).

"A aceleração da imigração após a criação da União Europeia proporcionou ao futebol francês o que já foi tido no Brasil como o "privilégio da miscigenação", que já deixou de ser exclusividade nossa faz tempo. No futebol, a França será na primeira metade desse século o que fomos na segunda metade do século passado: a referência, o país a ser batido. Hoje, são eles que podem formar três seleções em condição de chegar entre as oito melhores de um mundial, duas entre as quatro melhores", analisa Thiago Freitas, COO da Roc Nation Sports no Brasil, empresa de entretenimento norte-americana.

Colonização

Não é de hoje, aliás, que esse movimento tem ocorrido na França, fruto do que aconteceu ainda no final do século XIX e início do XX, com a invasão e colonização do país em inúmeros territórios africanos. No futebol, isso se tornou um reflexo e extensão do que aconteceu na sociedade francesa.

Em 1998, ano do primeiro título Mundial do país, o craque Zinedine Zidane, considerado um dos maiores ídolos de toda a história, tinha descendência argelina. Já no bicampeonato em 2018, o então jovem Kylian Mbappé, que viria a ser protagonista também no vice-campeonato em 2022, com três gols na decisão diante da Argentina, é filho de mãe argelina e pai camaronês.

Nas duas últimas Copas do Mundo, a influência de jogadores com origem africana na França foi enorme: em 2018, ano do título, dois atletas eram literalmente nascidos na África, casos de Mandanda (Congo) e Umtiti (Camarões), enquanto outros 12 tinham dupla nacionalidade, casos de Rami (Marrocos), Kimpembé e Nzonzi (Congo), Sidibé, Dembelé e Kanté (Mali), Matuidi (Angola), Pogba (Guiné), Mbappé (Camarões e Argélia), Fekir (Argélia), Mendy (Senegal) e Tolisso (Togo).

Já em 2022, ano do vice-campeonato para a Argentina, dos 21 franceses de nascença, 16 tinham dupla nacionalidade, sendo 11 de origem africana, casos de Axel Disasi (Congo), Koundé (Benin), Saliba (Camarões), Upamecano (Guiné-Bissau), Konaté (Mali), Guendouzi (Marrocos), Tchouaméni (Camarões), Fofana (Costa do Marfim), Mbappé (Camarões e Argélia), Dembelé (Mauritânia) e Muani (Congo).

Para não dizer que essa influência é recentem na primeira Copa do Mundo disputada no Uruguai, em 1930, a França já tinha dois atletas nascidos na Argélia, sendo que um deles, Alexandre Villaplane, chegou a ser capitão da seleção em alguns jogos.

Contratação de atletas africanos ainda é tímida no Brasil

Apesar do número de atletas estrangeiros ter aumentado nas últimas temporadas no Brasil - foram 157 em 2025, e já são 158 nesta temporada -, a contratação de jogadores do continente africano ainda é bastante tímida no país. Na Série A, apenas quatro estão inscritos até o momento, casos de Bastos, do Botafogo (Angola), Yannick Bolasie, da Chapecoense (Congo), João Pedro, do Remo (Guiné Bissau), e Mamady Cissé, do Atlético-MG (Guiné Bissau).

Comparado com a França, os números são bem discrepantes. Na Ligue 1, a liga nacional do país, 128 atletas inscritos são de origem africana. Todos os 18 clubes têm algum jogador oriundo da África, sendo que a maioria vem de Senegal, que não por acaso, venceu a Copa Africana de Nações em 2025, mas teve o título revogado esta semana, que passou para Marrocos -este, com 17 atletas atuando na França.

No Brasil, ganhou os holofotes recentemente a chegada do zagueiro Koné ao Palmeiras. Natural da Costa do Marfim e apenas 18 anos, ele foi contratado inicialmente para o time de base, mas chamou tanto a atenção que vem fazendo parte dos treinos com elenco principal neste início de temporada.

Na Série A do Campeonato Brasileiro, apenas quatro equipes possuem atletas vindos da África: Bastos, no Botafogo (Angola), Yannick Bolasie, na Chapecoense (RD Congo); Bilal Brahimi, no Santos (Argélia), e João Pedro, Remo (Guiné Bissau).

Somadas as séries B, C e D, esse número sobe para 19 (ver lista abaixo), sendo que a maior parte deles veio da Nigéria, com um total de 5 profissionais, seguido por Camarões, Gana e Senegal, com 2 cada. O Juventude, por exemplo, trouxe por empréstimo junto ao São Paulo o volante Iba Ly, de 22 anos, de Senegal.

Ao longo da história, apesar de raro, alguns atletas africanos passaram por aqui. O primeiro a atuar por aqui foi o atacante nigeriano Ricky, pelo América-RJ, em 1984. No ano seguinte, indicado por Pelé, o Santos trouxe o meia-atacante Kennedy Nagoli, do Zimbábue, e também o atacante sul-africano Arthur Zwane, que ficou na Vila por duas temporadas.

Em 1996, o Corinthians apostou no sul-africano Mark Williams. Mas o atacante jogou apenas três partidas até seguir caminho na Europa e Ásia, passando por Wolverhampton Wanderers (Inglaterra), Chongqing Lifan (China), Qingdao Zhongneng (China) e RWDM (Bélgica). Em 1998, o Fluminense apostou no liberiano Josephus Yenay, mas ele ficou pouco tempo e logo se transferiu para o futebol português.

Também neste período, entre 1994 e 1998, o goleiro camaronês William Andem defendeu Cruzeiro e Bahia. No time mineiro, foi reserva de Dida, mas chamou mesmo a atenção ao se envolver em uma briga com o atacante Euller e o zagueiro Gutemberg em um clássico contra o rival Atlético.

Nos anos 2000, Johnson Macaba veio da Angola e fez um tour por clubes daqui: Juventus (2005), Portuguesa (2006), Goiás (2006 e 2007) e Santa Cruz (2007 e 2008). O último foi o Atlético Sorocaba, em 2012.

Também nos anos 2000, o atacante camaronês Joel se destacou por aqui e teve passagens por Iraty, Botafogo, Santos, Cruzeiro e Coritiba, Botafogo e Avaí, seu último clube no país em 2017, até se transferir para o Marítimo, de Portugal. Levantou os Estaduais de 2014, com o Coxa, e 2016, com o Peixe.

Entre 2006 e 2010, o atacante Abubakar Bello-Osagie passou por Internacional, Vasco da Gama e Caxias, fez poucas partidas pelos times profissionais dessas agremiações. Já em 2014, foi a vez do Grêmio dar uma chance ao meia-atacante sul-africano Tyrone Sandows, conhecido como “Ty”. Em 2016, por exemplo, ele disputou os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro pela África do Sul.

 

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