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Futebol: nem sempre jogar bem quando criança indica um bom jogador na vida adulta (Lucas Ninno/Getty Images)
Repórter
Publicado em 3 de maio de 2026 às 10h51.
Toda semana, famílias brasileiras reorganizam a rotina para levar os filhos ao treino. Aos 9 anos, as crianças participam de peneiras. Aos 10, entram na categoria sub-11 aos 10, e treinam quase diariamente antes mesmo dos 12 anos. A lógica parece simples: quanto mais cedo o talento aparece, maior a chance de chegar ao topo.
Mas, segundo um estudo publicado na Science, em dezembro passado, essa afirmação nem sempre é verdade. Um estudo feito com 34.839 atletas de elite mostrou que crianças que brilham cedo nas categorias de base raramente se tornam os melhores adultos. E muitos atletas de elite não eram os melhores aos 10 ou 12 anos.
Para chegar a essa conclusão, a equipe analisou trajetórias de medalhistas olímpicos, vencedores do Nobel, grandes enxadristas e compositores clássicos.
A pergunta era a mesma em todos os campos: o que há em comum no caminho de quem chega ao nível mais alto?
Segundo o estudo, os melhores adultos, em geral, praticaram várias modalidades ou disciplinas na infância, especializaram-se mais tarde e tiveram progressão inicial mais gradual. Já quem dominava cedo as categorias juvenis aparecia com mais frequência entre atletas que chegavam ao nível nacional, mas não ao topo mundial.
Os autores resumem o fenômeno em uma ideia central: a elite juvenil e a elite adulta são, em grande parte, grupos diferentes, já que ser bom cedo não garante ser bom depois e, ser mediano cedo não impede chegar ao topo.
O estudo foi liderado por Arne Güllich, professor de ciências do esporte na Universidade de Kaiserslautern-Landau, na Alemanha. Também assinam o trabalho pesquisadores da Universidade de Innsbruck, da Michigan State University e da Purdue University.
A NBA já investigava esse padrão antes do estudo divulgado na Science.
Em janeiro de 2025, pesquisadores da Universidade da Califórnia em San Francisco publicaram um estudo no Journal of Orthopaedic Research sobre escolhas de primeira rodada do draft da NBA entre 2013 e 2023.
A análise incluiu 318 atletas que jogaram pelo menos uma partida nos três primeiros anos de liga.
Desses, 87 eram multiesportistas no ensino médio, o equivalente a 27,4%. Outros 231, ou 72,6%, haviam se especializado apenas no basquete.
Nos três primeiros anos de NBA, os multiesportistas disputaram 148,9 partidas em média, contra 125,8 dos especializados precocemente, e também perderam menos jogos por lesão: 13,5%, contra 16,9%.
O desempenho foi superior, com eficiência média de 12,8 entre multiesportistas, contra 10,5 entre especializados.
A diferença apareceu também em prêmios individuais: 40,2% dos multiesportistas receberam algum reconhecimento, ante 19% dos demais.
A explicação mais usada na ciência esportiva passa pela transferência motora.
Uma criança que joga futebol, basquete e pratica natação desenvolve repertório físico mais amplo do que uma criança limitada a uma única modalidade. Quando chega a hora da especialização, esse repertório pode virar vantagem.
Há também o risco de lesão, já que a repetição intensa dos mesmos movimentos em corpos ainda em desenvolvimento aumenta o risco de danos por uso excessivo.
A Academia Americana de Pediatria recomenda evitar a especialização em um único esporte antes dos 15 ou 16 anos. Na prática, porém, o sistema esportivo costuma empurrar crianças para escolhas cada vez mais cedo.
O estudo da Science recebeu uma resposta de pesquisadores brasileiros, publicada como eLetter na própria revista.
O texto chama atenção para uma nuance importante: em algumas modalidades no Brasil, começar cedo não garante chegar ao topo, mas pode ser quase obrigatório para entrar no sistema.
No judô brasileiro, apenas cerca de 7% dos medalhistas juvenis sustentaram esse desempenho até o nível adulto, dado que reforça a tese de Güllich.
Ao mesmo tempo, medalhistas olímpicos brasileiros do judô começaram, em média, aos 6,9 anos. Na vela, cerca de 75% dos medalhistas olímpicos brasileiros começaram antes dos 10 anos.
O início precoce, nesses casos, funciona menos como garantia de sucesso e mais como porta de entrada.
No futebol brasileiro, a tensão é ainda maior, já que peneiras aos 9 anos, categorias sub-7 e registros a partir dos 12 criam incentivos para que os times escolham seus jogadores cedo.
Pelo mecanismo de solidariedade da Fifa, clubes podem receber uma fração de transferências futuras de atletas que formaram entre os 12 e os 23 anos e, quanto antes o jogador entra no sistema, maior a janela financeira.
Assim, o incentivo econômico e a evidência científica apontam para direções diferentes.
O futebol de rua e o futsal ajudam a explicar parte do paradoxo: Neymar foi descoberto cedo, mas passou anos decisivos no futsal antes de chegar ao sistema formal do Santos, enquanto Vinicius Junior entrou na escolinha do Flamengo aos 6 anos, em um ambiente já estruturado.
O futsal aparece com frequência como atividade complementar relevante para jogadores de futebol. Campo menor, mais toques na bola e exigência técnica diferente ampliam o repertório motor.
O futebol de rua cumpre papel parecido, já que tem regras informais, superfícies irregulares e improviso criam problemas que o treino padronizado nem sempre reproduz.
A mensagem do estudo não é que crianças devam treinar menos, mas sim que a pressa por especialização pode selecionar os atletas errados.
Para treinadores, a recomendação é ampliar experiências antes de fechar o foco em uma única modalidade, enquanto, para clubes, o alerta é que desempenho precoce não deve ser tratado como previsão definitiva.
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