John Textor: investidor responsável pela SAF do Botafogo foi criticado pelo clube pela crise financeira ( (Foto: Christian Alvarenga/Getty Images))
Estagiária de jornalismo
Publicado em 15 de maio de 2026 às 11h42.
Última atualização em 15 de maio de 2026 às 11h46.
O Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ) aprovou o pedido de recuperação judicial da SAF do Botafogo nesta sexta-feira, 15.
A decisão foi homologada pelo juiz Marcelo Mondego de Carvalho Lima, da 2ª Vara Empresarial do Rio de Janeiro logo após o clube ser eliminado da Copa do Brasil.
O clube carioca entrou com o pedido ainda na quinta-feira, 14, para uma dívida de cerca de R$ 1,2 bilhão sujeita à recuperação. O Botafogo já havia informado, por meio de laudo econômico, uma dívida de cerca de R$ 1,6 bilhão com vencimento em até 12 meses.
O documento também indica um passivo de longo prazo de R$ 1,1 bilhão, elevando o total para R$ 2,7 bilhões. Segundo o relatório, o cenário representa risco à continuidade operacional do clube.
Agora, a SAF tem 60 dias para apresentar o plano de recuperação. "A medida é necessária para proteger o clube, preservar suas atividades, garantir o cumprimento de suas obrigações e assegurar a continuidade do projeto esportivo", afirmou o Botafogo.
Durante o período de recuperação, estão suspensas as execuções e cobranças contra o clube, a penhora de bens e o vencimento antecipado de dívidas. Possibilidades de novos financiamentos e a obrigatoriedade de pagamentos serão definidas conforme o plano a ser apresentado.
Devido à crise financeira, o Botafogo está proibido pela Fifa de registrar novos jogadores por prazo indeterminado.
Em nota, o Botafogo criticou a gestão de John Textor, responsável pelo controle da SAF: " a condução adotada por John Textor revelou absoluto descompromisso com a estabilidade financeira e institucional da SAF Botafogo, contribuindo diretamente para o agravamento da crise enfrentada."
O clube alvinegro passou a enfrentar um quadro de pressão financeira combinado a uma disputa de governança entre o modelo associativo e o investidor John Textor.
Textor assumiu a posição de acionista majoritário em 2022, quando incorporou o passivo acumulado e anunciou investimentos próximos de R$ 400 milhões no futebol.
Sob essa estrutura, houve intervenções na infraestrutura do centro de treinamento e do Estádio Nilton Santos, além da ampliação do uso de análise de mercado, com foco em atletas em fim de contrato ou com menor visibilidade.
A estratégia de crescimento ganhou ritmo antes do previsto. No segundo ano da SAF, o clube assegurou vaga na Libertadores, o que levou à ampliação dos investimentos e à chegada de reforços como Luiz Henrique e Thiago Almada. Em 2024, o volume aplicado em contratações alcançou R$ 534,6 milhões, temporada que terminou com títulos da Libertadores e do Campeonato Brasileiro.
O desempenho esportivo impactou as finanças. A receita atingiu R$ 700 milhões no período, enquanto o valor do elenco chegou a R$ 950 milhões, conforme balanço divulgado com atraso de quatro meses.
Enquanto o Botafogo acumulava resultados, outros ativos ligados à holding, empresa controladora, Eagle Football Holdings registraram instabilidade. Lyon, na França, e RWDM Brussels, na Bélgica, passaram a enfrentar críticas e restrições financeiras. Ao fim da temporada 2023/24, a Eagle apresentou déficit de 25,7 milhões de euros, equivalente a R$ 157 milhões.
Em junho de 2025, Textor vendeu 43% de sua participação no Crystal Palace por US$ 260 milhões, cerca de R$ 1,4 bilhão, com o objetivo de recompor caixa. Mesmo assim, manteve a política de investimento no Brasil e projetou aportes de R$ 629,4 milhões no Botafogo em 2025. Parte relevante das contratações, com exceção de Danilo, teve retorno esportivo abaixo do esperado.
O desempenho em campo oscilou ao longo da temporada. O clube registrou vitória sobre o PSG no Mundial de Clubes, mas enfrentou trocas de comando técnico e saídas de jogadores como Luiz Henrique, Almada e Igor Jesus. O time encerrou o período com classificação apenas para a fase preliminar da Libertadores.
A situação no Lyon ampliou a crise. Após a aquisição em 2022, o clube francês enfrentou sanções administrativas e risco de rebaixamento, revertido após atuação de Michele Kang na gestão. O cenário levou credores, como Ares Management e Iconic Sports, a questionar o cumprimento de obrigações financeiras.
Em janeiro, Textor foi afastado do controle operacional da Eagle Football Holdings Bidco, estrutura responsável pelas participações diretas nos clubes. A holding principal permaneceu sob sua posição acionária, mas sem comando direto sobre os ativos.
"A SAF Botafogo informa que, em continuidade ao processo de reorganização financeira já iniciado com o ajuizamento de medida cautelar, protocolou, na noite desta quinta-feira (14), pedido de Recuperação Judicial como medida necessária para proteger o clube, preservar suas atividades, garantir o cumprimento de suas obrigações e assegurar a continuidade do projeto esportivo do Botafogo.
A decisão foi tomada diante do grave cenário financeiro enfrentado pela companhia, agravado por sucessivos bloqueios, riscos decorrentes de transfer bans impostos no âmbito da FIFA, vencimentos antecipados de obrigações financeiras e severas restrições de caixa que passaram a comprometer a própria operação cotidiana do clube.
Com o ajuizamento da Recuperação Judicial, a SAF Botafogo ingressa em uma nova etapa de reorganização estruturada, com maior estabilidade jurídica e financeira para condução de negociações com credores, investidores e parceiros estratégicos.
A medida também permite o início formal da elaboração e discussão de um plano de Recuperação Judicial, que será submetido aos credores na forma da lei, criando um ambiente de previsibilidade, supervisão judicial e proteção institucional necessário para o reequilíbrio financeiro da companhia.
Além disso, o efetivo pedido de Recuperação Judicial era medida indispensável diante das recentes sanções desportivas sofridas pelo clube, incluindo transfer bans impostos no âmbito da FIFA. A própria FIFA esclareceu que a tutela cautelar anteriormente deferida não produzia os efeitos jurídicos equivalentes ao processamento da Recuperação Judicial, razão pela qual a SAF Botafogo precisou avançar imediatamente para esta nova fase, como forma de proteger suas atividades esportivas, preservar sua competitividade e evitar prejuízos ainda mais severos ao clube.
Nos últimos meses, a SAF Botafogo sofreu forte processo de descapitalização dentro da estrutura do Grupo Eagle. Mais de R$ 900 milhões deixaram de retornar ao Botafogo, ao mesmo tempo em que o clube deixou de receber os aportes e o suporte financeiro necessários para manutenção de suas atividades e competitividade esportiva.
Enquanto outros ativos do grupo receberam investimentos substanciais — incluindo aportes recentes de aproximadamente US$ 90 milhões no Lyon — o Botafogo permaneceu, por mais de um ano, sem qualquer injeção relevante de recursos, mesmo diante de reiterados alertas sobre a deterioração do caixa e os riscos concretos à continuidade operacional da SAF
A Eagle Football, sua administração e seus representantes diretos tinham pleno conhecimento da gravidade da situação financeira enfrentada pela SAF Botafogo.
Ainda assim, além de não promoverem os aportes e medidas necessários à preservação da companhia, permaneceram como os principais beneficiários da estrutura financeira que retirou recursos relevantes do clube sem a correspondente recomposição de capital ou suporte operacional adequado.
Desde então, a condução adotada pela Eagle Football e por John Textor revelou absoluto descompromisso com a estabilidade financeira e institucional da SAF Botafogo, contribuindo diretamente para o agravamento da crise enfrentada pelo clube e para o cenário de extrema fragilidade que tornou inevitável o ajuizamento da Recuperação Judicial.
A Recuperação Judicial é o instrumento legal utilizado para proteger o clube, reorganizar suas finanças, preservar empregos, honrar compromissos, manter a competitividade esportiva e garantir que o Botafogo continue existindo forte para as próximas gerações
O objetivo da medida é assegurar estabilidade, transparência e supervisão judicial para que o Botafogo possa reestruturar seu passivo de forma organizada e responsável, protegendo seus atletas, funcionários, credores, parceiros comerciais e, principalmente, sua torcida."
*Com informações do GLOBO.