Esporte

Como é a proposta de R$ 1 bilhão da SAF de um clube do interior que foi campeão brasileiro

Proposta de R$ 1,07 bilhão do empresário Roberto Graziano por 90% do clube paulista passará por revisões contratuais.

Processo para o Guarani virar SAF será adiado até o final de setembro. (Foto: Guarani FC) (Wikimedia Commons)

Processo para o Guarani virar SAF será adiado até o final de setembro. (Foto: Guarani FC) (Wikimedia Commons)

Fernando Olivieri
Fernando Olivieri

Redator na Exame

Publicado em 3 de setembro de 2026 às 17h24.

Priorizar nos meus resultados Google

O processo de transformação do Guarani Futebol Clube em Sociedade Anônima do Futebol (SAF) está caminhando, mas o mercado precisará aguardar um pouco mais para a concretização de um dos maiores acordos do interior paulista.

A votação final que chancelará a venda do controle acionário do clube para o empresário Roberto Graziano foi oficialmente adiada para o final de setembro. O recuo no cronograma não representa um rompimento nas negociações comerciais, mas sim um movimento de cautela corporativa para ajustes na intrincada redação jurídica do contrato de fusões e aquisições (M&A).

Time do interior de SP campeão em cima do Palmeiras aprova SAF com Ronaldo e Roberto Carlos

As quatro Assembleias Gerais Extraordinárias, que originalmente ocorreriam entre os dias 1º e 4 de setembro, precisaram ser remarcadas. Na noite da última terça-feira, Graziano reuniu-se com os associados para apresentar a versão atualizada da proposta, que já havia recebido um parecer favorável do Conselho Deliberativo na semana anterior. No entanto, o conselho exigiu maior diligência e clareza em cláusulas que representam o calcanhar de Aquiles das SAFs no Brasil: a segurança jurídica perante credores e a divisão de ativos imobiliários.

A engenharia financeira do negócio de R$ 1 bilhão

No que diz respeito ao valuation e à injeção de capital, não há mais espaço para debates: os valores estão pacificados entre as partes. A proposta de Roberto Graziano avalia o pacote de investimentos no Guarani em vultosos R$ 1,075 bilhão, segundo informações do GE. A modelagem societária define que o grupo do empresário assumirá 90% das ações da nova empresa, enquanto a associação civil do Guarani reterá 10% de participação (equity), garantindo poder de veto em questões fundamentais, como mudança de cores, escudo e sede, conforme estipulado pela Lei da SAF (Lei 14.193/2021).

O plano de negócios desenhado pelo investidor prevê uma alocação de recursos dividida em frentes cruciais para a reestruturação da franquia. O maior montante, R$ 400 milhões, será destinado diretamente à operação (OpEx) do departamento de futebol da SAF e à manutenção do clube social, segundo o GE.

A infraestrutura e a formação de capital fixo (CapEx) também receberam atenção agressiva: estão previstos R$ 300 milhões para a construção de um novo e moderno estádio — um passo vital para o desenvolvimento de novas fontes de receita de matchday (dia de jogo) e bilheteria — e R$ 25 milhões dedicados à construção de um Centro de Treinamento de alto rendimento.

Os gargalos jurídicos: Recuperação Judicial e o Clube Social

O Guarani encontra-se em Regime de Recuperação Judicial (RJ), um mecanismo legal para evitar a falência enquanto o clube tenta renegociar suas dívidas. A proposta de Graziano reserva até R$ 350 milhões exclusivamente para a liquidação desse passivo.

O grande entrave atual é a adequação do texto contratual para garantir que a transição obedeça tanto às regras da Recuperação Judicial quanto às diretrizes da Lei da SAF. É necessário blindar a nova empresa para que dívidas antigas não executadas recaiam sobre o novo CNPJ de forma irregular, ao mesmo tempo em que os credores da RJ exigem garantias reais de que o cronograma de pagamentos será honrado.

Outro ponto que exigiu a revisão da minuta envolve a divisão patrimonial, especificamente sobre quem deterá a propriedade e a gestão administrativa do clube social. Esse é um desafio clássico em transações envolvendo clubes tradicionais no Brasil, onde a separação física e jurídica entre a operação do futebol profissional (a empresa) e as áreas de lazer dos sócios (a associação) frequentemente gera conflitos de governança. As próximas semanas serão dedicadas ao trabalho dos escritórios de advocacia para refinar essas cláusulas, garantindo que o Guarani entre na era do capital privado com a segurança jurídica necessária para sustentar seu projeto bilionário, de acordo com o GE.

Cinco anos da Lei das SAF no Brasil

Promulgada em agosto de 2021, a Lei nº 14.193/2021 — popularmente conhecida como a Lei da SAF (Sociedade Anônima do Futebol) — alcança a marca de cinco anos. O dispositivo legal nasceu com a promessa de resgatar gigantes atolados em dívidas bilionárias e profissionalizar a gestão esportiva no Brasil.

Acompanhe tudo sobre:EsportesFutebolSAF

Mais de Esporte

O custo do sonho: tenista que derrubou Djokovic pedia patrocínio por e-mail para jogar

Schumacher será homenageado pela Ferrari no GP de Fórmula 1 da Itália

Abel Ferreira se manifesta após denúncia por chute em microfone: 'Eu não matei ninguém'

Esquema de pirâmide: lenda da NFL é alvo de processo por desvio de R$ 14 milhões