(Magnific/Reprodução)
Redatora
Publicado em 3 de setembro de 2026 às 17h11.
Dois terços dos profissionais de escritório já usaram ferramentas de inteligência artificial no trabalho mesmo achando que a empresa não autorizava. O dado é de uma pesquisa da Wakefield Research encomendada pela PagerDuty, feita com 1.250 profissionais de empresas com faturamento acima de US$ 500 milhões e publicada em junho.
No Brasil, o retrato se repete com outra camada. Um levantamento da SAP em parceria com a Oxford Economics, que ouviu 1,6 mil executivos em oito países, entre eles 200 líderes brasileiros, mostra que oito em cada dez empresas do país já estão preocupadas com o uso de ferramentas de IA não autorizadas. O problema é que a preocupação chegou antes da política.
A distância entre o que a empresa permite e o que o time realmente faz no dia a dia deu nome a um fenômeno que a área de segurança da informação já trata como prioridade: shadow AI, o uso de inteligência artificial sem aprovação, sem monitoramento e sem registro formal.
O Gartner ouviu 302 líderes de segurança cibernética entre março e maio e chegou a um número que resume o tamanho do ponto cego: 69% das organizações suspeitam ou têm evidência de que funcionários usam ferramentas de IA proibidas.
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O relatório mais recente de violações de dados da Verizon aponta na mesma direção, com detecções de shadow AI em ambiente corporativo crescendo quatro vezes em um ano.
Na prática, o padrão é sempre parecido. Alguém cola uma proposta comercial em um chatbot para deixar o texto mais rápido. Outro sobe uma planilha com dados de clientes para gerar um relatório. Nenhuma das duas ações passa por aprovação de TI, e as duas já aconteceram, segundo a pesquisa da PagerDuty, com informação de clientes, código-fonte e documentos financeiros.
O custo de deixar essa lacuna aberta também tem número. O relatório Cost of a Data Breach 2025, da IBM, mostra que oito em cada dez empresas brasileiras ainda não têm política formal para uso de Inteligência Artificial. No mesmo estudo, o custo médio de uma violação de dados no país chegou a R$ 7,19 milhões, recorde histórico, e organizações com uso intenso de shadow AI pagaram, em média, US$ 670 mil a mais por incidente do que as que têm controle sobre o tema.
O assunto já subiu de andar dentro das empresas. Passou a figurar entre as preocupações centrais dos conselhos corporativos, ao lado de desempenho financeiro e estratégia. Mesmo assim, apenas 22% dos boards de companhias abertas afirmam ter uma política formal de governança de IA em vigor, ainda que a maioria reconheça o tema como prioridade para os próximos meses.
Fechar essa brecha não é uma tarefa que se resolve com um bloqueio de firewall. A IA já entrou nas empresas antes de qualquer estratégia formal para ela, e o desafio de quem lidera deixou de ser decidir se a tecnologia deve ser usada. É decidir onde ela cria valor real, onde aumenta risco e como transformar um uso espontâneo e disperso em um processo com dado, governança e resultado.
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O programa não ensina ferramenta. Desenvolve o repertório para identificar onde a IA gera valor, avaliar dado e risco antes de implementar e liderar a transição de um uso experimental para uma aplicação com critério dentro da própria área.
Toda tentativa de resolver shadow AI só com proibição esbarra no mesmo obstáculo: a demanda por produtividade não desaparece, só migra para fora do radar da empresa.
O caminho que vem se mostrando mais eficaz nas organizações que já avançaram no tema combina duas frentes, formação de quem decide e infraestrutura de controle, e nenhuma das duas funciona sozinha.
A folga entre o que os funcionários já fazem e o que a liderança sabe que está sendo feito não vai se fechar por decreto. Vai se fechar quando decidir sobre IA deixar de ser reação a um incidente e virar competência de quem está na cadeira de comando.