Mariano Navone eliminou Novak Djokovic no US Open após anos lutando contra a barreira financeira do tênis profissional. (CHARLY TRIBALLEAU / AFP)
Redator na Exame
Publicado em 3 de setembro de 2026 às 16h48.
O tênis profissional é, estruturalmente, um dos esportes com a maior barreira financeira de entrada do planeta. Para um atleta sul-americano sem o respaldo de uma federação bilionária ou fortuna familiar, o circuito da ATP (Associação de Tenistas Profissionais) costuma ser uma máquina de moer talentos antes mesmo que eles cheguem às grandes chaves. No entanto, o argentino Mariano Navone, de 25 anos, provou que um modelo de gestão de carreira pouco convencional pode render os maiores dividendos possíveis no esporte.
As casas de Novak Djokovic pelo mundo
Na madrugada da última segunda-feira, Navone assinou uma das maiores "zebras" da história recente do US Open ao eliminar o sérvio Novak Djokovic logo na primeira rodada. A vitória épica, construída em cinco sets com parciais de 7/6 (7/5), 5/7, 4/6, 6/2 e 6/1 após duras 4 horas e 36 minutos de confronto, expôs um contraste de infraestrutura. De um lado da quadra, o maior campeão de Grand Slams de todos os tempos. Do outro, um tenista que precisou atuar como seu próprio departamento de captação de recursos comerciais para sobreviver no esporte.
A trajetória de Navone foge ao padrão dos grandes fenômenos que são lapidados desde a infância em academias de ponta. Embora tenha tido contato com as raquetes aos três anos em sua província natal, em Buenos Aires, ele só passou a se dedicar integralmente ao esporte em 2019, já aos 18 anos — uma idade em que a maioria das promessas já tem patrocínios milionários de marcas esportivas.
Sem dinheiro para bancar a logística de voos, hotéis, treinadores e encordoamentos exigida para viajar o mundo no circuito Challenger (a segunda divisão do tênis mundial), Mariano recorreu a uma tática de prospecção fria comum no universo das startups: o envio de cold emails. Ao lado do jornalista Marcos Zugasti, o argentino passou a disparar e-mails institucionais apresentando seu projeto esportivo na tentativa de encontrar empresários, marcas e contatos que topassem investir financeiramente em sua carreira. O modelo de negócios era claro: buscar capital semente (seed money) para sustentar suas operações até que as premiações das vitórias pudessem tornar seu balanço financeiro positivo.
O capital levantado com muito esforço permitiu que Navone se mantivesse ativo e evoluísse tecnicamente, gerando um retorno sobre o investimento notável nos últimos anos. A ascensão do argentino no ecossistema da ATP tem sido vertiginosa. Atualmente ocupando a 49ª posição do ranking mundial, ele chegou a atingir o 29º lugar em julho de 2024, provando que sua presença na elite não é um acaso.
Em 2026, consolidou seu status de jogador de primeira linha ao conquistar seu primeiro título de nível ATP. A taça foi levantada no ATP 250 de Bucareste, na Romênia, após superar o espanhol Daniel Mérida na decisão. A consistência de resultados também lhe rendeu uma das maiores honrarias esportivas de seu país: a convocação pelo capitão Javier Frana para defender a equipe principal da Argentina na Copa Davis pelo Grupo Mundial I, jogando ao lado de nomes como Francisco Cerúndolo e Thiago Tirante.
O confronto no Arthur Ashe Stadium foi o ápice dessa jornada. Durante a partida, o sérvio Novak Djokovic — que, segundo o próprio Navone relatou à ATP, é seu grande ídolo e referência ao lado de David Nalbandian — sofreu um colapso físico severo. O desgaste foi tamanho que o veterano chegou a vomitar à beira da quadra no terceiro set, abrindo espaço para a dominância física e mental do argentino nas duas últimas parciais.
Mais do que o choque esportivo, a vitória na estreia de um Grand Slam carrega um peso para o modelo de negócios de Navone. Ao avançar de fase no US Open, o torneio que distribui a maior premiação financeira da temporada, o argentino garante cheques de seis dígitos que blindam seu caixa pelos próximos anos. Para o garoto que disparava e-mails pedindo ajuda para comprar passagens aéreas, derrubar Novak Djokovic em Nova York é a prova definitiva de que seu projeto era, de fato, o melhor investimento possível.
O grande foco de preocupação da imprensa esportiva está na forma como o corpo de Novak Djokovic vem reagindo sob pressão. Durante as últimas partidas, o sérvio demonstrou uma instabilidade física extrema, lidando com episódios de suor excessivo, vômitos e cãibras severas. Para um atleta cuja preparação biológica, flexibilidade e dieta rigorosa sempre foram os pilares de seu patrimônio esportivo, o cenário levanta questionamentos sobre o peso da idade. Aos 39 anos, o esgotamento pode ser, sob uma ótica racional, a fatura natural cobrada pelo tempo e pelo desgaste acumulado no circuito da ATP.
Na internet, no entanto, as explicações ganharam contornos de especulação. Fóruns e redes sociais começaram a formular diagnósticos paralelos, apontando que o tenista estaria sofrendo de "Covid longa" (ou síndrome pós-Covid). A tese ganha força no ambiente digital exclusivamente devido ao histórico de Djokovic e ao seu posicionamento público sobre a imunização. O tenista optou por não se vacinar contra o coronavírus — uma decisão que gerou impactos diretos em seu calendário e negócios no passado — e contraiu a Covid-19 pelo menos uma vez, em dezembro de 2021.
É crucial ressaltar, sob o rigor dos fatos, que nenhum profissional de saúde ou membro de sua equipe referendou essa discussão. A teoria carece de qualquer laudo. Embora suor excessivo e fadiga crônica estejam entre os sintomas relatados por pacientes com sequelas de Covid-19, eles também compõem o quadro clínico de diversos outros distúrbios ou simplesmente caracterizam a exaustão aguda em um atleta perto dos 40 anos.