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Mapa indica a formação e o avanço do ciclone-bomba, com previsão de ventos fortes e tempestades no Sul e Sudeste (Divulgação/Windy)
Repórter de ESG
Publicado em 7 de agosto de 2026 às 12h59.
Última atualização em 7 de agosto de 2026 às 18h29.
Na tarde de quinta-feira, 6, os moradores de Matarazzo, interior de Pedro Osório (RS), viram o céu escurecer e os fortes ventos arrancar telhados em minutos.
Um tornado, associado a uma supercélula formada pelo avanço de um ciclone extratropical em rápida intensificação sobre o Atlântico Sul, cruzou a região deixando um rastro de destruição.
Foi o segundo tornado confirmado no estado em apenas nove dias: o primeiro havia atingido Giruá, Sete de Setembro e Senador Salgado Filho, no Noroeste gaúcho, em 28 de julho, deixando quatro feridos.
O episódio não é isolado. Nas últimas semanas, municípios gaúchos foram impactados pelas chuvas que fizeram rios bater cotas de inundação e dúvida persiste: será esse o 'novo normal' climático do estado?
O tornado é apenas um dos efeitos do mesmo sistema que, batizado de ciclone-bomba, provoca eventos climáticos extremos como tempestades e fortes ventos, resultando em granizo, alagamentos e queda de energia em diversas cidades do Sul.
A previsão de correntes de ar que podem superar os 90 km/h também levou à suspensão de aulas no litoral de São Paulo e no Rio de Janeiro.
Segundo o meteorologista Willians Bini, head de projetos na Metos Brasil, o fenômeno raro é mais complexo do que parece. O Sul do Brasil concentra cerca de 70% dos ciclones que atingem o país, mas o especialista explicou à EXAME o que torna este caso diferente dos que a região já enfrenta. Só em 2024, foram registrados 28 tornados no país e a região concentrou 23 deles.
"Geralmente eles são comuns. O que muda e traz um impacto muito grande é o posicionamento (onde ele se forma e se desloca) e a sua intensidade", explica Bini.
Ciclones são centros de baixa pressão, normalmente associados a frentes frias que avançam de altas latitudes em direção ao Atlântico Sul. Quando se formam distantes da costa, tendem a causar pouco impacto no continente.
Não é o caso do sistema que atinge o Sul e o Sudeste do país nesta semana, que é catagorizado como "bomba" pois é bastante intenso, devido a um centro de pressão muito baixa. "É isso que leva aos ventos fortes", destaca o meteorologista. O termo técnico e científico é "ciclogênese explosiva".
A longo prazo, há uma relação das mudanças climáticas na intensidade de fenômenos como ciclones-bomba. "O que temos visto é eventos extremos cada vez mais frequentes e intensos, mas não dá para simplesmente dizer que é a única causa", explicou Willians.
A leitura do meteorologista é a de uma combinação de fatores atuando ao mesmo tempo.
No caso específico dos tornados — dois confirmados em menos de duas semanas —, ele soma à conta o El Niño. "Ele deixa a atmosfera mais instável, e as projeções para os próximos meses são de mais chuva no Sul. Então a expectativa é de sistemas atuantes na região", afirmou.
Em resumo: mudança climática, El Niño e a instabilidade atmosférica já característica do Sul do Brasil se somam e é essa união que ajuda a explicar por que o estado tem registrado cada vez mais eventos como o de Pedro Osório.
Enquanto a origem do fenômeno segue em observação e cautela, seus efeitos já são sentidos em tempo real. Nesta sexta-feira, 7, o Inmet (Instituto Nacional de Meteorologia) colocou o Rio Grande do Sul em alerta vermelho ("grande perigo") para tempestades, com risco de mais de 100 milímetros de chuva por dia e ventos de até 100 km/h em cidades entre Porto Alegre e a fronteira.
"Há grande risco de danos em edificações, corte de energia elétrica, estragos em plantações, queda de árvores, alagamentos e transtornos no transporte rodoviário", diz o comunicado.
Partes de Santa Catarina, Paraná e São Paulo estão em alerta laranja ("perigo") e amarelo ("perigo potencial"). A Defesa Civil gaúcha já reportou alagamentos e danos em residências e escolas de Uruguaiana, Erechim, Caçapava do Sul e Chuí, além de granizo em Fazenda Vila Nova e Bom Retiro.
O Inmet mantém o RS em alerta de perigo até sábado, 8, quando o ciclone deve atingir o ápice, com ventos que podem superar os 90 km/h.
O impacto também já chegou ao Sudeste. No Rio de Janeiro, prefeitura e governo estadual suspenderam as aulas da rede pública nesta sexta-feira, 7, diante da previsão de rajadas acima de 90 km/h.
No litoral paulista, Ubatuba, Caraguatatuba, São Sebastião, Bertioga e Itanhaém também suspenderam aulas na rede municipal, e a Defesa Civil de São Paulo enviou alertas severos para celulares em 24 regiões do estado.
Para o metereologista, a certeza possível neste momento é uma só: o sistema segue em intensificação, e novos episódios não devem ser descartados enquanto o ciclone não perder força, algo previsto para o fim de semana.