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Amsterdã tem mais 1 milhão de bicicletas circulando (Esra Hacioglu Karakaya/Getty Images)
Repórter de ESG
Publicado em 22 de setembro de 2026 às 14h57.
Última atualização em 23 de setembro de 2026 às 14h31.
Uma cidade que tem mais bicicletas do que pessoas. Amsterdã, na Holanda, faz juz ao título de capital mundial da bike.
Basta caminhar alguns minutos por qualquer rua do centro para entender: bicicletas em fileiras intermináveis presas a postes, pontes e grades, famílias inteiras equilibradas numa única bike, idosos pedalando tranquilos ao lado de executivos de terno.
Aqui, quem anda de carro é que precisa se adaptar ao ritmo de quem pedala e os pedestres precisam ficar atentos ao fluxo, ou correm o risco de serem atropelados até nas calçadas.
Não é só impressão: existem mais de 1 milhão de bicicletas circulando por Amsterdã, mais do que os cerca de 930 mil habitantes.
Na prática, isso significa mais de uma bike por morador. E não é só um patrimônio parado nas garagens: 58% dos locais usam a bicicleta como principal meio de transporte diário, para ir ao trabalho, à escola ou simplesmente para resolver a vida.
A frota também está se modernizando: as bikes elétricas já representam de 20% a 30% de todo o tráfego nas ciclovias da cidade.
Dados de mobilidade recentes também mostram um salto de 57% nas viagens de bicicleta para o trabalho na Holanda em apenas um ano, um reflexo, entre outros fatores, da adoção do trabalho híbrido após a pandemia, visto que muita gente trocou o transporte público por pedaladas nos dias de escritório.
Há até uma curiosidade que virou quase lenda: todos os anos, entre 12 mil e 15 mil bicicletas são retiradas do fundo dos famosos canais de Amsterdã, uma prova de que a bike está em todo lugar.
O hábito de pedalar tem efeitos que vão muito além da mobilidade, com benefícios para o clima e saúde. Ao substituir o veículo movido a combustão em parte dos deslocamentos diários, a bicicleta ajuda a reduzir o consumo de combustíveis fósseis e as emissões de gases de efeito estufa.
Segundo dados da prefeitura, o uso do meio de transporte na cidade evita a emissão de 40 mil toneladas de CO2 por ano . O resultado mostra como investimentos em infraestrutura para ciclistas, feitos ao longo de décadas, também podem trazer ganhos ambientais para a descabonização do transporte.
Alguns pesquisadores vão além e especulam que, se o mundo inteiro adotasse o "padrão holandês" de mobilidade, a economia de carbono poderia chegar a 686 milhões de toneladas anuais.
Além de contribuir para a transição climática, o estilo de vida sobre duas rodas traz efeitos positivos para o sistema de saúde e longevidade da população.
Pedalar diariamente combate o sedentarismo e reduz drasticamente os riscos de doenças cardiovasculares. A rotina de atividades físicas reflete diretamente na expectativa de vida: os holandeses vivem mais, ostentando uma das maiores taxas do continente europeu, que hoje chega à média de 83,2 anos.
Ao ver esse mar de bicicletas, o que poucos visitantes imaginam é que essa relação quase não sobreviveu ao século XX.
No início do século passado, a bicicleta já era o meio de transporte mais comum nas cidades holandesas ou "algo tão natural" quanto respirar. Mas o boom econômico do pós-guerra mudou tudo: com mais dinheiro no bolso, os holandeses começaram a comprar carros, e o planejamento urbano passou a considerar o automóvel como o transporte do futuro.
Bairros inteiros de Amsterdã foram demolidos para abrir espaço a avenidas e ao tráfego motorizado. O uso da bicicleta caía cerca de 6% ao ano, e havia quem apostasse que ela simplesmente desapareceria das cidades holandesas, como um "capítulo encerrado" da história.
No entanto, o preço desse modelo foi trágico. Em 1971, o número de mortes no trânsito no país chegou a 3.300, sendo mais de 400 crianças.
Foi esse retrato que despertou um dos movimentos sociais mais decisivos da história urbana holandesa: o Stop de Kindermoord ("parem de matar as crianças"), liderado por mães e ativistas como Maartje van Putten, que viu de perto acidentes no próprio bairro e testemunhou ruas sendo destruídas para dar lugar ao carro.
Como ela resumiria décadas depois, as ruas "não pertenciam mais às pessoas que moravam ali".
O movimento pressionou o governo, recebeu subsídios e ajudou a criar um novo conceito de planejamento urbano batizado de woonerf: ruas pensadas para pedestres, com lombadas e curvas que forçavam os carros a andar devagar.
Pouco depois, outro grupo de ativistas fundou uma união de ciclistas para reivindicar mais espaço nas vias e mapear os perigos enfrentados por quem pedalava.
Outro impulso veio de fora: a crise do petróleo de 1973, quando o embargo árabe quadruplicou o preço do combustível. Na época, o primeiro-ministro holandês foi à televisão pedir que a população repensasse seu estilo de vida, e o governo decretou os domingos sem carros.
Foi o ponto de virada que uniu ativismo, política pública e necessidade econômica em uma única direção: menos carros, mais espaço para bicicletas.
Neste Dia Mundial Sem Carro, a trajetória de Amsterdã serve como lembrete de que nenhuma cidade nasce ciclística por acaso. Foi preciso enterrar a ideia de que o carro era sinônimo de progresso, pagar um preço alto em vidas perdidas e sustentar décadas de ativismo para transformar o espaço público e enfim se tornar, um modelo de mobilidade sustentável.
O resultado, hoje, pedala nas ruas, e qualquer um que visite consegue perceber.