Parceiro institucional:
Rio Taquari, que corta o Vale do Taquari, voltou a atingir níveis de alerta após chuvas intensas nas cabeceiras dos afluentes
Repórter de ESG
Publicado em 22 de julho de 2026 às 12h35.
Última atualização em 22 de julho de 2026 às 15h25.
Mais de dois anos após a pior tragédia climática da sua história, o Rio Grande do Sul está mais preparado porque tem tecnologia e está munido de dados para tomar decisões mais assertivas e criar políticas públicas orientadas pela ciência.
A análise é de Venicios Santos, diretor de negócios da Codex, empresa gaúcha de tecnologia que presta serviços de governança e inteligência climática para o governo do Estado.
"Hoje estamos muito mais preparados para monitorar, prever e responder, mas isso não significa que uma chuva extrema não vá causar danos", afirmou o executivo, em entrevista à EXAME.
Os avanços e esforços começaram a ser testados mais uma vez. Nesta quarta-feira, 22, o Rio Taquari ultrapassou a cota de inundação e Defesa Civil do RS emitiu alerta máximo para municípios como Encantado, Lajeado, Estrela, Muçum, Santa Tereza, Roca Sales, Cruzeiro do Sul, Taquari, Harmonia, Montenegro e Arroio do Meio.
Em apenas uma hora, o nível avançou 85 centímetros. O Serviço Geológico do Brasil (SGB) projeta que o rio ainda possa atingir cerca de 24 metros entre Estrela e Lajeado nas próximas horas.
Em Encantado, o aviso classificou o risco de inundação como muito alto, com possibilidade da água atingir 15 metros e bem acima da cota de inundação local, de 12 metros.
A origem da cheia está nas nascentes dos rios Guaporé, Carreiro e da Prata, entre Marau e Nova Prata. Em menos de 12 horas, os acumulados de chuva ultrapassaram 170 milímetros em alguns municípios: foram 174 mm em Paraí, 157 mm em Marau e 154 mm em Passo Fundo. Toda essa água deságua no Taquari, fazendo o rio subir rapidamente ao longo da bacia.
++ Leia mais: 7 em cada 10 brasileiros já sofreram impactos de eventos climáticos extremos
Desde sexta-feira, 17, ao menos 73 municípios gaúchos registraram ocorrências relacionadas aos temporais e cidades foram afetadas por destelhamentos, queda de árvores, interrupção no fornecimento de energia, bloqueios de rodovias e danos em escolas e prédios públicos.
O Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet) também manteve alerta vermelho para acumulados superiores a 100 milímetros por dia em uma faixa que vai da Fronteira Oeste até a Região Metropolitana de Porto Alegre.
Na capital gaúcha, o Guaíba não escapou do radar das autoridades. A previsão indica elevação do nível entre as próximas 24 e 72 horas, aproximando-se da cota de alerta nas estações do Cais Mauá e do Gasômetro, embora, até o momento, não haja previsão de atingir a inundação.
O episódio reforça uma realidade que se consolidou desde as enchentes históricas de maio de 2024: eventos climáticos extremos deixaram de ser exceção no Rio Grande do Sul e passaram a exigir uma agenda constante de adaptação para tornar cidades e comunidades mais resilientes.
Depois da tragédia que matou 185 pessoas e impactou 5,5 milhões, deixou centenas de milhares de desalojados e provocou prejuízos superiores a R$ 19 bilhões aos cofres públicos, o Estado voltou a enfrentar chuvas extremas novamente neste ano.
Um estudo recente revelou que lá os desastres climáticos serão cinco vezes mais frequentes.
Apenas nesta semana, sete municípios tiveram situação de emergência reconhecida pelo governo federal em razão dos danos provocados pelas chuvas de maio e do início de julho.
A preocupação também aumenta diante da possibilidade da maior influência do El Niño, fenômeno associado historicamente ao aumento das chuvas no Sul do Brasil.
Especialistas alertam, porém, que a intensidade e a distribuição desses eventos dependem de outros fatores atmosféricos e oceânicos.
Na avaliação do diretor da Codex, a principal diferença entre 2024 e hoje é a capacidade de antecipação.
"O maior desafio agora está menos na tecnologia e mais na adaptação do território", destaca.
Depois da tragédia, o governo criou um comitê científico formado por universidades e especialistas para embasar decisões técnicas e estruturou o Plano Rio Grande, programa que já investiu R$ 14,89 bilhões destinados à reconstrução, adaptação e resiliência climática.
Os recursos financiam ações de curto, médio e longo prazo e são executados por meio do Funrigs, fundo abastecido, entre outras fontes, pelos recursos decorrentes da suspensão temporária do pagamento da dívida do Estado com a União.
Segundo Santos, o comitê representa uma mudança importante na forma como o governo toma decisões.
"O Estado passou a estruturar políticas públicas orientadas por evidências científicas e não apenas reagir quando o desastre já aconteceu", frisa.
Parte desse investimento foi destinada ao fortalecimento da infraestrutura de monitoramento. Cerca de R$ 19 milhões foram aplicados na ampliação da rede hidrometeorológica, com sensores e estações capazes de acompanhar níveis dos rios, volume de chuva e movimentação de massa em regiões como a Serra Gaúcha.
Em Porto Alegre, por exemplo, o monitoramento deixou de depender praticamente apenas da régua do Guaíba. Hoje, diferentes modelos hidrológicos ajudam a estimar "manchas de inundação" utilizadas pela Defesa Civil para orientar evacuações e emitir alertas.
O aviso que chegou aos celulares de milhares de gaúchos nesta quarta-feira é um reflexo dessa mudança. Em 2024, o sistema de ainda era pouco utilizado.
Hoje, as mensagens são disparadas automaticamente para municípios inteiros com base em modelos e previsões meteorológicas, permitindo que moradores sejam avisados antes da chegada da água.
A relação entre Estado e municípios também mudou. Pelo programa de transferências conhecido como fundo a fundo, cidades só conseguem acessar recursos estaduais para ações de resposta e adaptação se mantiverem seus planos de contingência atualizados.
Segundo Santos, a exigência acelerou a elaboração de planos municipais de ação climática e o mapeamento das áreas de maior vulnerabilidade.
Apesar dos avanços tecnológicos, Santos afirma que o principal obstáculo à resiliência climática deixou de ser a produção de dados.
"Hoje o problema muito está ligado ao crescimento desordenado e à questão da ocupação irregular. É uma questão de planejamento urbano", afirma.
Segundo ele, muitas áreas ribeirinhas continuam sendo ocupadas mesmo após serem classificadas como de risco, o que aumenta a exposição da população aos eventos extremos.
Mesmo que a tecnologia seja capaz de prever a cheia, ela não resolve sozinha, um gargalo histórico de ocupação do território.
"A tragédia pode voltar a acontecer se as pessoas continuarem expostas ao risco", resume.
Na avaliação do diretor da Codex, adaptação climática passa cada vez mais por políticas urbanas.
Ele cita como exemplo a revisão do Plano Diretor de Porto Alegre, que passou a incorporar critérios de mudança climática e resiliência, além de programas de incentivo a edificações sustentáveis.
Um dos projetos desenvolvidos pela empresa propõe uma certificação para empreendimentos que adotem soluções como captação de água da chuva, telhados verdes, jardins verticais e maior arborização.
Em troca, os empreendimentos recebem incentivos urbanísticos, como potencial construtivo adicional. Agora, segundo ele, o próximo passo é medir se essas intervenções já estão conseguindo reduzir as ilhas de calor e alterar o microclima da cidade.
E essa é a nova etapa da agenda climática no Rio Grande do Sul.
O Taquari é a prova que as mudanças climáticas continuam impondo testes severos ao Estado. A diferença é que, desta vez, havia modelos hidrológicos, sensores, alertas enviados aos celulares e planos de contingência acionados antes que a água chegasse.
Ainda assim, rios voltaram a subir e moradores precisaram deixar suas casas, convivendo com uma série de transtornos e incertezas.
A resposta sobre o quanto o Rio Grande do Sul está preparado talvez esteja justamente aí. Hoje é possível prever melhor o desastre, mas o desafio que permanece é transformar essa capacidade de antecipação em cidades menos vulneráveis quando a próxima chuva forte chegar.
Passa por mitigação das emissões para conter a crise climática, mas também pela urgência de adaptação.