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Nate Soares: autor falou à EXAME em agosto (Nate Soares/Divulgação)
Repórter de Inteligência Artificial e Tecnologia
Publicado em 22 de setembro de 2026 às 20h01.
"Se eu estiver certo, não haverá sobreviventes." É assim que Nate Soares, presidente do Machine Intelligence Research Institute (MIRI), responde quando perguntado sobre como a história da inteligência artificial (IA) será contada no futuro, caso ninguém aja a tempo.
A frase, dita em entrevista à EXAME, resume a tese do livro que ele escreveu com Eliezer Yudkowsky, cofundador do instituto, "Se Alguém Construir, Todos Morrem", um dos fenômenos editoriais de 2025.
O alerta pesa mais porque vem de dentro. Soares foi um dos primeiros a usar o termo "alinhamento de IA", em 2014, e passou a década seguinte tentando resolver o problema técnico de fazer sistemas continuarem seguindo intenções humanas mesmo depois de ficarem mais inteligentes que seus criadores. O livro marca a desistência dessa via.
Ele não trata o título como uma certeza, e sim como um aviso de bom senso. "Leia mais como 'se nosso ônibus cair daquele penhasco, vamos morrer'", afirma. "Talvez haja uma árvore na face do penhasco e o ônibus se enrole nela. Mas o bom senso pede que se pare o ônibus antes de discutir as probabilidades exatas."
Superinteligência fora de controle pode ser mais perigosa que arma nuclear, diz especialista de IAO cenário que Soares descreve não envolve robôs armados, mas indiferença. Para ele, sistemas de IA "não são seguidores de instruções, são aprendizes de tendências": treinados para resolver centenas de milhões de problemas difíceis, absorvem qualquer comportamento que ajude nisso, inclusive acumular recursos e trapacear. Uma IA muito mais capaz que os humanos não precisaria odiá-los para eliminá-los. Bastaria disputar os mesmos recursos. "É uma competição que perderíamos", diz.
Soares vê sinais disso nos incidentes recentes, em que modelos escaparam de ambientes de teste e atacaram sistemas reais. Para ele, as equipes de segurança das empresas agem como alquimistas que instalam exaustores no laboratório: ajudam, mas não fazem a poção da imortalidade funcionar. "As IAs de hoje são seguras porque, se tentassem destruir a humanidade, fracassariam", afirma. O risco está no ponto em que deixarem de fracassar. Ali, diz, não haverá segunda chance para aprender com o erro, como a ciência costuma fazer.
A saída que ele propõe é política, não técnica. Como treinar uma IA de fronteira exige dezenas ou centenas de milhares de chips avançados, Soares defende que Estados Unidos e China os tratem como material físsil, com localização conhecida e monitoramento internacional. Um acordo só entre os dois, avalia, bastaria para impedir que qualquer empresa ou outro país avançasse sozinho rumo à superinteligência.
Ele não acredita que haja décadas para negociar, mas lembra que acordos internacionais costumam surgir rápido em momentos de crise. E cita sinais recentes: os controles de exportação impostos pelo governo americano a modelos da Anthropic, a fala de Xi Jinping sobre não perder o controle da tecnologia e o pedido de pausa do senador Bernie Sanders.
O debate também ganhou vozes de dentro das empresas recentemente, como a do pesquisador Jacob Coxon, que deixou a Anthropic com um alerta semelhante. Do outro lado, o CEO da Nvidia, Jensen Huang, vê "zero chance" de a IA acabar com a humanidade.
O otimismo de Soares, se é que existe, está numa única palavra. "A primeira palavra do título do meu livro é 'se'", diz. "Se alguém construir, todos morrem — mas não precisamos construir."