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Sete dos nove limites planetários já ultrapassados chegam ao pior nível registrado

Assinado por mais de 60 cientistas e apresentado na Semana do Clima de Nova York, o relatório anual Planetary Health Check aponta pressões sobre a Terra além dos níveis seguros

Johan Rockström, cientista sueco e criador do conceito de limites planetários: “Não temos o luxo de esperar, mas temos o conhecimento, a capacidade e [grifar]as soluções para mudar de rumo” (Leandro Fonseca /Exame)

Johan Rockström, cientista sueco e criador do conceito de limites planetários: “Não temos o luxo de esperar, mas temos o conhecimento, a capacidade e [grifar]as soluções para mudar de rumo” (Leandro Fonseca /Exame)

Sofia Schuck
Sofia Schuck

Repórter de ESG

Publicado em 22 de setembro de 2026 às 10h01.

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Em 2025, o mundo chegou à marca perigosa de sete dos nove limites planetários ultrapassados, com a inclusão da acidificação dos oceanos.

Essas fronteiras invisíveis funcionam como margens de segurança para os processos naturais que mantêm a estabilidade do planeta e as condições que sustentam a vida.

Agora, um novo diagnóstico mostra que o desequilíbrio se aprofundou: todos os sete atingiram os maiores níveis de transgressão já registrados.

A conclusão está no Planetary Health Check 2026, relatório anual divulgado nesta segunda-feira, 21, durante a Semana do Clima de Nova York.

Produzido por mais de 60 cientistas do Laboratório de Ciência dos Limites Planetários do Instituto Potsdam de Pesquisa sobre Impactos Climáticos (PIK), a atualização alerta para o risco crescente de mudanças de "grande escala, persistentes e potencialmente irreversíveis".

Entre os autores está o renomado cientista sueco Johan Rockström, diretor do Potsdam, que criou o conceito de limites planetários ainda em 2009.

A teoria ampliou a avaliação dos riscos ambientais para além do aquecimento global, considerando também processos como a integridade da biosfera, os ciclos da água e as condições dos oceanos.

“Não temos o luxo de esperar, mas temos o conhecimento, a capacidade e as soluções para mudar de rumo”, afirma Rockström.

Segundo ele, retornar à faixa segura desses processos é essencial para proteger vidas, meios de subsistência e a possibilidade de prosperidade futura.

Em entrevista à EXAME no ano passado, o pesquisador já defendia uma transformação acelerada na forma como o mundo produz e utiliza os recursos naturais. Apesar da gravidade do diagnóstico, ressaltava que ainda "havia espaço para mudar a trajetória".

“Da perspectiva científica, a janela ainda está aberta. Temos as soluções e sabemos como produzir dentro de sistemas que voltem ao espaço seguro. Portanto, falhar não é inevitável, falhar será escolha”, destaocu.

O que mudou no diagnóstico de 2026

A novidade desta edição está na intensidade do desequilíbrio. O número de limites ultrapassados permanece em sete, mas todos se afastaram ainda mais da faixa considerada segura.

São eles: as mudanças climáticas, as alterações na integridade da biosfera, as mudanças no uso da terra, as alterações na água doce, a modificação dos fluxos biogeoquímicos, a introdução de novas entidades e a acidificação dos oceanos.

“O diagnóstico é inequívoco. A pressão está aumentando em todos os limites planetários que já se encontram fora do espaço operacional seguro”, reforçou Boris Sakschewski, autor principal do relatório.

Segundo o pesquisador, os limites descrevem processos interconectados. Ultrapassá-los significa aumentar os riscos à estabilidade e à capacidade de recuperação do planeta, além de que a deterioração de um sistema pode ampliar a pressão sobre outros.

Como o alerta se conecta às negociações climáticas

O alerta acontece a menos de dois meses da COP31 na Turquia, em Antália, em meio a um desafio de aproximar a ciência às negociações climáticas da ONU.

Essa resposta esteve no centro da atuação de Rockström na COP30, em Belém, quando liderou o pavilhão científico ao lado de pesquisadores como o brasileiro Carlos Nobre.

Em um manifesto divulgado durante a conferência, os cientistas defenderam uma redução das emissões globais de pelo menos 5% ao ano. Os compromissos apresentados pelos países, porém, equivaliam a uma queda total de 5% ao longo de dez anos, segundo o documento.

Naquele momento, a estimativa era que, mantido o ritmo de emissões, restavam apenas quatro anos até o esgotamento do orçamento de carbono para limitar o aquecimento a 1,5°C  como estabelecido pelo Acordo de Paris. Na prática, seria a quantidade de CO2 que ainda poderia ser emitida para preservar a possibilidade de cumprir essa meta.

O novo diagnóstico planetário também se soma a outro alerta da Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente (PNUMA), divulgado em 2 de setembro: o mundo caminha para uma fase de aquecimento acima de 1,5°C, provavelmente nos próximos anos, com impactos para ecossistemas, economias e populações vulneráveis.

Na ocasião, o secretário-geral da ONU, António Guterres, descreveu o calor extremo, os incêndios florestais e as enchentes mortais como "um retrato do pior que está por vir".

Eventos climáticos extremos são retratos dessa pressão

O relatório reúne episódios recentes que mostram um sistema terrestre sob pressão. Segundo os autores, o aquecimento causado pela atividade humana intensificou diversos eventos climáticos extremos, enquanto a degradação dos ecossistemas, o estresse hídrico e a vulnerabilidade social ampliaram os impactos.

No Paquistão, as enchentes das monções de 2025 afetaram mais de 6,9 milhões de pessoas. No mesmo ano, o conteúdo de calor dos oceanos atingiu um novo recorde global. O furacão Melissa ganhou força rapidamente até alcançar a categoria 5 e atingir a Jamaica, depois de passar por águas excepcionalmente quentes.

Entre janeiro de 2023 e setembro de 2025, aproximadamente 84,4% da área de recifes de coral do mundo foi exposta a estresse térmico em níveis capazes de provocar branqueamento. Segundo o relatório, foi o maior evento global desse tipo já observado.

Em 2026, a Europa registrou seu período de junho a julho mais quente, acompanhado de seca na França, na Espanha, na Alemanha e no Reino Unido. Grandes incêndios atingiram a Europa e o Canadá, enquanto recordes de calor foram registrados no Japão, na Coreia do Sul e em partes do Oriente Médio.

“É um único planeta nos dizendo, em todas as regiões ao mesmo tempo, que está em desequilíbrio”, afirma Hindou Oumarou Ibrahim, presidente da organização Planetary Guardians.

Para ela, o diagnóstico confirma o que comunidades expostas à escassez de chuvas e à elevação do nível do mar já vivenciam.

Por que a absorção de carbono preocupa

Outro destaque da atualização envolve a capacidade da vegetação e dos solos de absorver parte do dióxido de carbono emitido pelas atividades humanas.

Esses sumidouros naturais ajudam a conter o acúmulo de CO2 na atmosfera. Mas episódios recorrentes de calor, seca, incêndios e degradação podem reduzir essa absorção e, em algumas regiões, transformar ecossistemas que retiravam carbono da atmosfera em fontes de emissões.

O relatório discute se os modelos usados para calcular a absorção terrestre de carbono estão superestimando a resistência desses sistemas às pressões ambientais.

“Nosso caminho para alcançar emissões líquidas zero depende de sumidouros de carbono em funcionamento”, explicou Sakschewski.

E complementou: “As observações atuais soam o alarme de que nosso planeta pode estar perdendo sua capacidade de amortecer as pressões crescentes que exercemos sobre ele.”

Onde há sinais de melhora: dois limites seguros

Dois limites apresentaram melhora na última década: a destruição do ozônio estratosférico e a carga de aerossóis atmosféricos. São também os dois que permanecem dentro da faixa segura na avaliação global.

Por outro lado, os autores ressaltam que a melhora dos indicadores globais de aerossóis pode esconder níveis inseguros em determinadas regiões.

Para Rockström, a possibilidade de recuperação exige acelerar a resposta. “Precisamos de uma mudança transformativa, acelerada e escalável, o que significa dobrar resultados positivos ao longo de uma geração.”

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