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Setor solar quer leilões anuais de baterias e mais 18 GW em usinas até 2030

Propostas para próximo governo tentam responder aos cortes de geração, que representaram perdas estimadas em R$ 6,5 bilhões em energias renováveis em 2025

Energia solar: plano também prevê levar sistemas fotovoltaicos a 3 milhões de unidades consumidoras e substituir 100 mil geradores a diesel

Energia solar: plano também prevê levar sistemas fotovoltaicos a 3 milhões de unidades consumidoras e substituir 100 mil geradores a diesel

Letícia Ozório
Letícia Ozório

Repórter de ESG

Publicado em 31 de agosto de 2026 às 13h16.

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O avanço acelerado da energia solar no Brasil colocou um novo problema no centro das discussões do setor elétrico: o país ampliou a capacidade de geração renovável, mas nem sempre consegue aproveitar toda a eletricidade disponível.

É nesse cenário que a Associação Brasileira de Energia Solar Fotovoltaica (Absolar) apresenta uma agenda com recomendações para o governo federal que assumirá em 2027. Entre as principais propostas estão leilões anuais para sistemas de armazenamento de energia, a contratação de pelo menos 8 gigawatts (GW) em baterias e a instalação de mais 18 GW em grandes usinas solares até 2030.

O documento também tenta conectar a expansão da oferta de eletricidade à atração de novas cargas, como data centers, projetos de hidrogênio verde e indústrias eletrointensivas, aquelas que demandam grandes volumes de energia em seus processos produtivos.

A agenda está dividida em três frentes, chamadas de Bateria Brasil, Energia que Emprega e Sol para Todos. Além das propostas para armazenamento e grandes usinas, a entidade defende ampliar o acesso à energia solar para 3 milhões de unidades consumidoras até o fim da década.

Expansão da energia solar

O movimento ocorre em um momento de crescimento da fonte fotovoltaica e, ao mesmo tempo, de aumento dos cortes de geração renovável.

A energia solar chegou a cerca de 68 GW de capacidade instalada operacional em 2026 e se tornou a segunda maior fonte da matriz elétrica brasileira, atrás apenas da hidrelétrica. A fonte representa entre 23% e 25% da capacidade instalada do país.

A maior parcela está fora das grandes usinas. Cerca de 46 GW correspondem à geração distribuída (GD), eletricidade produzida principalmente em telhados e pequenos sistemas próximos ao local de consumo. Outros 21,5 GW a 22 GW estão em empreendimentos centralizados.

Capacidade instalada, porém, não equivale à eletricidade efetivamente entregue ao sistema. Além da própria característica da fonte solar, cuja produção varia conforme a disponibilidade de radiação, parte da energia potencialmente disponível tem sido cortada por limitações do sistema elétrico.

Em 2025, aproximadamente 20% da energia solar e eólica que poderia ter sido produzida no Brasil foi descartada por meio de curtailment, corte ou limitação da geração determinado pelo Operador Nacional do Sistema Elétrico (ONS). Os cortes somaram cerca de 4,02 GW médios e representaram prejuízo estimado em R$ 6,5 bilhões.

O problema continuou em 2026. Até abril e maio, os cortes correspondiam a algo entre 17,2% e 18,8% da geração potencial das duas fontes, com índices superiores a 30% em alguns dias.

As restrições podem ocorrer pela falta de capacidade de transmissão para transportar a eletricidade produzida, por congestionamentos e limites técnicos da rede ou por momentos em que a oferta supera a demanda. Para a solar, o último ponto é especialmente relevante nas horas de maior incidência do sol.

É justamente sobre essa diferença entre a capacidade de produzir e a capacidade de aproveitar a eletricidade que a primeira parte da agenda da Absolar se concentra.

Baterias entram na disputa pelo excedente renovável

Na frente batizada de Bateria Brasil, a associação defende leilões anuais de capacidade com neutralidade tecnológica, modelo no qual diferentes tecnologias podem disputar a contratação necessária para garantir disponibilidade ao sistema.

A entidade quer pelo menos 8 GW em sistemas de armazenamento contratados e também propõe ampliar o uso de baterias associadas à energia solar, tanto em grandes usinas quanto em sistemas de geração própria novos e já existentes.

A lógica é deslocar no tempo parte da eletricidade: armazenar energia quando há produção disponível e utilizá-la posteriormente, em períodos de maior necessidade do sistema.

O armazenamento não resolve sozinho as restrições que levam aos cortes — que também envolvem transmissão, congestionamentos e a relação entre oferta e demanda —, mas é apresentado pela associação como uma das ferramentas para dar maior flexibilidade à operação.

“Precisamos avançar de um modelo em que parte da energia renovável disponível é desperdiçada para um sistema capaz de armazená-la e utilizá-la quando ela for mais necessária”, afirma Bárbara Rubim, presidente do Conselho de Administração da Absolar.

A agenda também coloca a tributação na discussão. Segundo a associação, a carga tributária incidente sobre sistemas de armazenamento pode chegar a 84,8%, mais que o dobro daquela aplicada às fontes renováveis. A entidade propõe equalizar os dois tratamentos tributários.

Mais geração, mas também mais demanda

A segunda parte da estratégia tenta atacar outra ponta do problema. Em vez de discutir apenas como armazenar a eletricidade disponível, a Absolar defende estimular atividades capazes de ampliar o consumo de energia no país.

A proposta, chamada Energia que Emprega, prevê uma política de Estado para atrair indústrias eletrointensivas de baixo carbono, data centers, projetos de hidrogênio verde e outras atividades com demanda elevada por eletricidade. A associação inclui ainda nesse grupo a eletrificação de setores produtivos, a eletromobilidade e a possibilidade de exportar energia para países vizinhos.

A expansão da demanda viria acompanhada de mais geração. |A entidade propõe adicionar 18 GW em grandes usinas solares até 2030, volume que, segundo seus cálculos, poderia mobilizar R$ 59,4 bilhões em investimentos.

A defesa da expansão ocorre justamente quando empreendimentos renováveis já enfrentam limitações para escoar a produção. Por isso, a própria proposta inclui planejamento da transmissão para levar infraestrutura às regiões com maior disponibilidade de energia e potencial de receber novos investimentos.

O desafio é fazer com que geração, rede e demanda avancem de maneira coordenada. A saturação da infraestrutura já criou situações em que novos projetos solares podem enfrentar cortes integrais da produção em determinados horários de pico diurno.

“O próximo passo é transformar essa abundância em uma vantagem econômica, atraindo indústrias, data centers, hidrogênio verde e novos negócios intensivos em eletricidade limpa”, afirma Rodrigo Sauaia, CEO da Absolar.

Solar e baterias para substituir diesel

A terceira frente desloca a discussão das grandes cargas para o acesso à eletricidade. No chamado Sol para Todos, a Absolar propõe levar sistemas solares combinados com baterias a 3 milhões de unidades consumidoras até 2030.

Desse total, 500 mil estariam em sistemas isolados, localidades que não estão conectadas ao Sistema Interligado Nacional e que podem depender de outras formas de geração para receber eletricidade.

A associação defende leilões anuais para essas regiões, com participação mínima de 50% de fontes renováveis. Também propõe substituir 100 mil geradores movidos a diesel por sistemas fotovoltaicos associados a armazenamento.

A mudança reduziria, segundo a entidade, tanto o consumo de combustíveis fósseis quanto os custos relacionados ao atendimento dessas localidades. A associação argumenta ainda que a expansão solar poderia diminuir despesas ligadas à Conta de Consumo de Combustíveis (CCC) e à Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), encargos do setor elétrico.

As três frentes convergem para uma tentativa do setor solar de reposicionar o debate sobre expansão das renováveis. Depois de anos concentrado no aumento da capacidade instalada, o desafio colocado para o próximo ciclo passa também por definir o que fazer com a eletricidade nos momentos em que a produção supera a capacidade de consumo ou de transporte da rede.

A resposta defendida pela Absolar combina três movimentos simultâneos: armazenar parte dessa energia, criar novas fontes de demanda e ampliar a infraestrutura necessária para fazer a eletricidade chegar até elas. A associação sustenta que as medidas podem ser implementadas sem criar novos encargos tarifários para os consumidores.

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