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Startup americana quer usar espelhos em órbita para gerar energia limpa à noite

Reflect Orbital, sediada na Califórnia, planeja rede de 50 mil satélites até 2035, enquanto comunidade científica teme perda da observação astronômica; entenda

Planeta Terra (Imagem gerada por IA/Freepik)

Planeta Terra (Imagem gerada por IA/Freepik)

Sofia Schuck
Sofia Schuck

Repórter de ESG

Publicado em 18 de julho de 2026 às 18h30.

Última atualização em 18 de julho de 2026 às 18h42.

Um plano arriscado para iluminar alguns pontos da Terra à noite está um passo mais perto de se tornar realidade.

Na semana passada, autoridades americanas aprovaram uma missão para lançar um espelho gigante ao espaço, onde o dispositivo refletirá a luz solar em áreas sombreadas do globo.

A responsável é a Reflect Orbital, startup sediada na Califórnia, que promete disponibilizar "energia limpa e abundante sob demanda", que funcionaria como uma luz diurna artificial para aumentar a produtividade agrícola, auxiliar em esforços de socorro a desastres climáticos e permitir que painéis solares gerem eletricidade mesmo à noite.

O plano de longo prazo prevê 50 mil espelhos em órbita até 2035, número suficiente para produzir luminosidade equivalente ao meio-dia em pontos específicos do planeta.

A promessa central da empresa está justamente no grande dilema da energia solar: painéis fotovoltaicos param de gerar eletricidade quando o sol se põe.

Se um espelho em órbita conseguir redirecionar luz solar para uma usina solar durante o período noturno, a ideia é que essa geração não precise parar. É esse o argumento de "energia limpa sob demanda" que a Reflect Orbital usa para se posicionar como solução climática.

Mas a aprovação, concedida pela Comissão Federal de Comunicações dos EUA em 9 de julho, não resolve a controvérsia em torno da tecnologia.

Astrônomos temem que os feixes de luz dos espelhos interfiram nos equipamentos sensíveis dos telescópios terrestres e aumentem a poluição luminosa.

"Com 50.000 satélites, isso provavelmente significaria o fim da astronomia terrestre, ou pelo menos da astronomia óptica", afirma Roohi Dalal, vice-diretora de políticas públicas da Sociedade Astronômica Americana, em entrevista à Nature. 

A startup rebateu a preocupação, dizendo que ela "demonstra uma falta de compreensão da solução" e afirmou que estão trabalhando em mecanismos de segurança para não interferir no trabalho de astrônomos.

Segundo um porta-voz, conversas com cientistas já influenciaram o projeto da espaçonave e os planos operacionais do negócio, e devem continuar a acontecer.

O que vem primeiro: o teste

Antes da rede de 50 mil satélites, a Reflect Orbital planeja lançar ainda este ano seu primeiro satélite, batizado de Eärendil-1, em uma órbita a 625 quilômetros de altitude.

A espaçonave, do tamanho de uma mini-geladeira, vai implantar um espelho do tamanho de uma quadra de tênis, mas 28 vezes mais fino que um fio de cabelo humano.

O objetivo é testar os mecanismos de implantação e apontamento, direcionando luz solar para múltiplos locais de teste.

O primeiro espelho deve iluminar uma área de aproximadamente 24 quilômetros quadrados na superfície terrestre, e a luz poderá ser desligada quando necessário, informou a startup.

"Este primeiro satélite será um campo de provas, e teremos a oportunidade de demonstrar como podemos gerar impacto positivo no mundo sem direcionar a luz para onde as pessoas não querem", diz Ben Nowack, cofundador da Reflect Orbital.

Segundo ele, a equipe já produziu centenas de protótipos de espelhos, e a empresa pretende lançar mais missões de teste, convidando pesquisadores independentes para estudar os efeitos dos dispositivos.

Missão arriscada, segundo cientistas

O próprio Nowack reconhece que a missão é "incrivelmente arriscada" e diz que a empresa está disposta a assumir esse risco.

Como qualquer satélite, um pequeno erro em hardware ou software pode levar a uma implantação incorreta do espelho, segundo Darren McKnight, pesquisador técnico sênior da LeoLabs, empresa de rastreamento de detritos espaciais sediada em Menlo Park, Califórnia.

Depois de implantado, o espelho também estará exposto a detritos espaciais, fragmentos de milímetros e centímetros comuns na altitude em que o satélite vai orbitar, que podem reduzir sua eficácia em impactos repetidos.

A promessa de resolver a intermitência solar não é nova. No Brasil, o mercado de armazenamento em baterias (BESS) já avança como resposta ao gargalo do setor elétrico e traz a expectativa de um leilão pioneiro em dezembro.

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