São Paulo vive neste fim de semana mais um episódio do que deve se tornar rotina nos próximos meses: a Defesa Civil do estado emitiu alerta de onda de calor até segunda-feira, 31, com termômetros podendo bater os 42°C no interior do norte e noroeste, enquanto a capital deve registrar máximas entre 33°C e 36°C.
Em 2026, o cenário agravado pelas mudanças climáticas vem com uma preocupação extra: a tendência de um Super El Niño que poderia aumentar ainda mais as temperaturas e levar a eventos extremos como secas e incêndios.
É nesse contexto que o Brasil deve enfrentar ao menos seis ondas de calor entre agora e dezembro, segundo nova análise do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).
O levantamento, baseado em 47 anos de registros de temperatura, identificou o padrão observado em anos de El Niño e alerta que o número pode ser ainda maior: no último evento da mesma intensidade, foram nove ondas registradas.
Uma onda de calor não se resume a um dia quente isolado e se caracteriza por um período de pelo menos três dias consecutivos em que as temperaturas máximas e mínimas permanecem excepcionalmente acima do normal, sem dar trégua entre o dia e a noite.
Segundo o Cemaden, o padrão que antes se concentrava em regiões específicas hoje tende a atingir todo o território nacional.
++ Leia mais: OMM confirma El Niño forte a partir de agosto: o risco de desastres climáticos vai aumentar?
Um fenômeno natural sobre um planeta já alterado
O El Niño é um processo natural: ocorre quando as águas do Pacífico equatorial central e leste se aquecem de forma anômala, alterando a circulação atmosférica e os padrões de chuva, vento e temperatura em diferentes partes do mundo.
Historicamente, ele já esteve associado a secas na Ásia, Austrália e Amazônia, e a chuvas mais intensas em partes da América do Sul.
O que preocupa cientistas desta vez não é o fenômeno em si, mas o cenário em que ele se desenvolve: um planeta superaquecido e oceanos quentes pela mudança climática em curso.
Um estudo publicado nesta semana na revista científica Science dá ainda mais peso a essa hipótese e mostra que a via também funciona no sentido contrário: além de o aquecimento global se somar ao calor do El Niño, ele estaria tornando o próprio fenômeno mais intenso.
Pesquisadores analisaram esqueletos de corais das Ilhas Galápagos e concluíram que o aquecimento causado pela queima de combustíveis fósseis vem intensificando eventos deste tipo ao longo das últimas décadas. Todos os episódios classificados como "Super El Niño" registrados até hoje ocorreram a partir da década de 1980, e os cientistas o apelidaram informalmente de "Godzilla".
Nesse contexto, o calor liberado pelo El Niño passa a se somar a uma base que já estava elevada e amplia o potencial de extremos, em vez de ser, isoladamente, a causa deles.
A agência americana NOAA atribui 63% de probabilidade de o evento atingir intensidade de "Super El Niño" até o pico previsto, entre novembro de 2026 e janeiro de 2027.
Risco de incêndios e secas
O Cemaden reforça que o calor prolongado tende a agravar a seca em regiões já vulneráveis como Amazônia, Nordeste e Centro-Oeste e pode criar condições mais favoráveis à propagação de incêndios florestais. Já há alerta de foco de fogo ativo em 35% do território nacional.
O último grande evento de El Niño, entre 2023 e 2024, coincidiu com a estiagem histórica na Amazônia, enchentes no Rio Grande do Sul e incêndios severos no Pantanal e reacenderam a importância de adaptação das cidades frente ao clima extremo.
Outra projeção da i4Sea, empresa de inteligência climática, mostra que a tendência é ainda mais preocupante: o número de dias de calor extremo no país deve saltar de 6 para 127 por ano até 2075 — o equivalente a um terço do calendário anual sob essa condição.
Para empresas e investidores, o aumento na frequência de eventos extremos também é sinônimo de risco climático. Cadeias agrícolas, geração de energia (sobretudo hidrelétrica), logística e operações urbanas tendem a ser as mais expostas a picos de calor prolongado, estiagem e incêndios simultâneos.
A comunidade científica ainda considera cedo para afirmar se o El Niño de 2026 vai repetir a magnitude dos impactos observados em 2023-2024 ou se aproximará do episódio histórico de 1998.
Mas o alerta já é unânime: o El Niño atua agora sobre um sistema climático que carrega, de pano de fundo, o aquecimento acumulado pela ação humana.
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Imagem aérea de sobrevoo do presidente Lula em Canoas (RS)
(Imagem aérea de sobrevoo do presidente Lula em Canoas (RS))
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Homens movem pacotes em um barco através de uma rua inundada no centro histórico de Porto Alegre, no estado do Rio Grande do Sul, Brasil, em 14 de maio de 2024. Crédito: Anselmo Cunha / AFP)
(Homens movem pacotes em um barco através de uma rua inundada no centro histórico de Porto Alegre)
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Vista das áreas inundadas ao redor do estádio Arena do Grêmio em Porto Alegre, no estado do Rio Grande do Sul, Brasil, tirada em 29 de maio de 2024. A água e a lama tornaram os estádios e sedes do Grêmio e Internacional inoperáveis. Sem locais para treinar ou jogar futebol, os clubes brasileiros tornaram-se equipes itinerantes para evitar as enchentes que devastaram o sul do Brasil. (Foto de SILVIO AVILA / AFP)
(Vista das áreas inundadas ao redor do estádio Arena do Grêmio em Porto Alegre)
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Vista aérea do centro de treinamento do Internacional ao lado do estádio Beira Rio em Porto Alegre, no estado do Rio Grande do Sul, Brasil, tirada em 29 de maio de 2024. Foto de SILVIO AVILA / AFP
(Vista aérea do centro de treinamento do Internacional ao lado do estádio Beira Rio em Porto Alegre)
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Pessoas atravessam uma ponte flutuante para pedestres sobre o rio Forqueta, entre os municípios de Lajeado e Arroio do Meio, no Rio Grande do Sul, Brasil, em 21 de maio de 2024. O Rio Grande do Sul experimentou um desastre climático severo, destruindo pelo menos seis pontes e causando interrupções generalizadas no transporte. O exército respondeu construindo pontes flutuantes para pedestres, uma solução temporária e precária para permitir que a infantaria atravesse rios durante conflitos. (Foto de Nelson ALMEIDA / AFP)
(Pessoas atravessam uma ponte flutuante para pedestres sobre o rio Forqueta)
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Ana Emilia Faleiro usa um barco para transportar suprimentos em uma rua inundada em Porto Alegre, Rio Grande do Sul, Brasil, em 26 de maio de 2024. O estado sulista do Rio Grande do Sul está se recuperando de semanas de inundações sem precedentes que deixaram mais de 160 pessoas mortas, cerca de 100 desaparecidas e 90% de suas cidades inundadas, incluindo a capital do estado, Porto Alegre. (Foto de Anselmo Cunha / AFP)
(Ana Emilia Faleiro usa um barco para transportar suprimentos em uma rua inundada em Porto Alegre)
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Um homem limpa sua casa atingida pela enchente no bairro Sarandi, um dos mais atingidos pelas fortes chuvas em Porto Alegre, no estado do Rio Grande do Sul, Brasil, em 27 de maio de 2024. Cidades e áreas rurais no Rio Grande do Sul foram atingidas por semanas por um desastre climático sem precedentes de chuvas torrenciais e enchentes mortais. Mais de meio milhão de pessoas fugiram de suas casas, e as autoridades não conseguiram avaliar completamente a extensão dos danos. (Foto de Anselmo Cunha / AFP)
(Um homem limpa sua casa atingida pela enchente no bairro Sarandi)
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Alcino Marks limpa corrimãos sujos de lama após a enchente no bairro Sarandi, um dos mais atingidos pelas fortes chuvas em Porto Alegre, no estado do Rio Grande do Sul, Brasil, em 27 de maio de 2024. Esta é a segunda enchente histórica que Marks enfrenta aos 94 anos de idade. A primeira foi em 1941, quando ele morava no centro de Porto Alegre. Cidades e áreas rurais no Rio Grande do Sul foram atingidas por semanas por um desastre climático sem precedentes de chuvas torrenciais e enchentes mortais. Mais de meio milhão de pessoas fugiram de suas casas, e as autoridades não conseguiram avaliar completamente a extensão dos danos. (Foto de Anselmo Cunha / AFP)
(Alcino Marks limpa corrimãos sujos de lama após a enchente no bairro Sarandi)
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(Um trabalhador usa uma mangueira de alta pressão para remover a lama acumulada pela enchente)
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(Destruição no RS após chuvas e enchentes)
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Vista da estátua de José e Anita Garibaldi na inundada Praça Garibaldi, no bairro Cidade Baixa, em Porto Alegre, no estado do Rio Grande do Sul, Brasil, tirada em 14 de maio de 2024. Foto de Anselmo Cunha / AFP
(Vista da estátua de José e Anita Garibaldi na inundada Praça Garibaldi)
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Resgate de pessoas afetadas pelas chuvas no Rio Grande do Sul, na Base Aérea de Santa Maria (RS).
(Resgate de pessoas afetadas pelas chuvas no Rio Grande do Sul, na Base Aérea de Santa Maria)
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Eduardo Leite: “Faremos de tudo para garantir que a reconstrução preserve nossas vocações”
(Eduardo Leite: “Faremos de tudo para garantir que a reconstrução preserve nossas vocações”)
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Imagem aérea de sobrevoo do presidente Lula em Canoas (RS)
(Imagem aérea de sobrevoo do presidente Lula em Canoas (RS))
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(Imagem aérea da destruição no Rio Grande do Sul - Força Aérea Brasileira/Reprodução)
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Setor elétrico: Aneel propõe medidas para melhorar resposta a desastres causados pelas mudanças climáticas para melhorar resposta a desastres causados pelas mudanças climáticas.
(Vista aérea mostrando a estrada ERS-448 inundada em Canoas)
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(Vista aérea mostrando a estrada ERS-448 inundada em Canoas, no estado do Rio Grande do Sul)