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Em ano de El Niño forte, Brasil terá ao menos seis ondas de calor até dezembro

Cemaden aponta que fenômeno, somado a um planeta superaquecido, pode elevar frequência e intensidade de eventos extremos e alerta para risco de incêndio em 35% do território

Em 2025, o Brasil teve sete ondas de calor e o número pode ser ainda maior em 2026 (Rovena Rosa/Agência Brasil)

Em 2025, o Brasil teve sete ondas de calor e o número pode ser ainda maior em 2026 (Rovena Rosa/Agência Brasil)

Sofia Schuck
Sofia Schuck

Repórter de ESG

Publicado em 29 de agosto de 2026 às 16h30.

Última atualização em 29 de agosto de 2026 às 17h04.

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São Paulo vive neste fim de semana mais um episódio do que deve se tornar rotina nos próximos meses: a Defesa Civil do estado emitiu alerta de onda de calor até segunda-feira, 31, com termômetros podendo bater os 42°C no interior do norte e noroeste, enquanto a capital deve registrar máximas entre 33°C e 36°C.

Em 2026, o cenário agravado pelas mudanças climáticas vem com uma preocupação extra: a tendência de um Super El Niño que poderia aumentar ainda mais as temperaturas e levar a eventos extremos como secas e incêndios. 

É nesse contexto que o Brasil deve enfrentar ao menos seis ondas de calor entre agora e dezembro, segundo nova análise do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).

O levantamento, baseado em 47 anos de registros de temperatura, identificou o padrão observado em anos de El Niño e alerta que o número pode ser ainda maior: no último evento da mesma intensidade, foram nove ondas registradas.

Uma onda de calor não se resume a um dia quente isolado e se caracteriza por um período de pelo menos três dias consecutivos em que as temperaturas máximas e mínimas permanecem excepcionalmente acima do normal, sem dar trégua entre o dia e a noite.

Segundo o Cemaden, o padrão que antes se concentrava em regiões específicas hoje tende a atingir todo o território nacional.

++ Leia mais: OMM confirma El Niño forte a partir de agosto: o risco de desastres climáticos vai aumentar?

Um fenômeno natural sobre um planeta já alterado

O El Niño é um processo natural: ocorre quando as águas do Pacífico equatorial central e leste se aquecem de forma anômala, alterando a circulação atmosférica e os padrões de chuva, vento e temperatura em diferentes partes do mundo.

Historicamente, ele já esteve associado a secas na Ásia, Austrália e Amazônia, e a chuvas mais intensas em partes da América do Sul.

O que preocupa cientistas desta vez não é o fenômeno em si, mas o cenário em que ele se desenvolve: um planeta superaquecido e oceanos quentes pela mudança climática em curso.

Um estudo publicado nesta semana na revista científica Science dá ainda mais peso a essa hipótese e mostra que a via também funciona no sentido contrário: além de o aquecimento global se somar ao calor do El Niño, ele estaria tornando o próprio fenômeno mais intenso.

Pesquisadores analisaram esqueletos de corais das Ilhas Galápagos e concluíram que o aquecimento causado pela queima de combustíveis fósseis vem intensificando eventos deste tipo ao longo das últimas décadas. Todos os episódios classificados como "Super El Niño" registrados até hoje ocorreram a partir da década de 1980, e os cientistas o apelidaram informalmente de "Godzilla". 

Nesse contexto, o calor liberado pelo El Niño passa a se somar a uma base que já estava elevada e amplia o potencial de extremos, em vez de ser, isoladamente, a causa deles.

A agência americana NOAA atribui 63% de probabilidade de o evento atingir intensidade de "Super El Niño" até o pico previsto, entre novembro de 2026 e janeiro de 2027.

Risco de incêndios e secas

O Cemaden reforça que o calor prolongado tende a agravar a seca em regiões já vulneráveis como Amazônia, Nordeste e Centro-Oeste e pode criar condições mais favoráveis à propagação de incêndios florestais. Já há alerta de foco de fogo ativo em 35% do território nacional.

O último grande evento de El Niño, entre 2023 e 2024, coincidiu com a estiagem histórica na Amazônia, enchentes no Rio Grande do Sul e incêndios severos no Pantanal e reacenderam a importância de adaptação das cidades frente ao clima extremo.

Outra projeção da i4Sea, empresa de inteligência climática, mostra que a tendência é ainda mais preocupante: o número de dias de calor extremo no país deve saltar de 6 para 127 por ano até 2075 — o equivalente a um terço do calendário anual sob essa condição.

Para empresas e investidores, o aumento na frequência de eventos extremos também é sinônimo de risco climático. Cadeias agrícolas, geração de energia (sobretudo hidrelétrica), logística e operações urbanas tendem a ser as mais expostas a picos de calor prolongado, estiagem e incêndios simultâneos.

A comunidade científica ainda considera cedo para afirmar se o El Niño de 2026 vai repetir a magnitude dos impactos observados em 2023-2024 ou se aproximará do episódio histórico de 1998.

Mas o alerta já é unânime: o El Niño atua agora sobre um sistema climático que carrega, de pano de fundo, o aquecimento acumulado pela ação humana.

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