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Equipes de resgate trabalham nas áreas atingidas pelo desastre no Nepal, que deixou centenas de mortos e milhares de desaparecidos (AFP)
Repórter de ESG
Publicado em 29 de agosto de 2026 às 19h50.
Última atualização em 29 de agosto de 2026 às 19h54.
O Nepal responde por menos de 0,01% das emissões globais de gases de efeito estufa, mas está entre os países mais expostos aos efeitos da crise climática.
A injustiça climática ficou ainda mais dramática nesta semana, depois que o colapso de uma geleira no Himalaia desencadeou uma avalanche de gelo, rochas, lama e detritos que atingiu comunidades inteiras e deixou centenas de mortos.
Neste sábado, 29, o número de mortos no país chegou a 675, enquanto quase 3 mil pessoas permaneciam desaparecidas no país e na região do Tibete, na China. Sete mortes também foram confirmadas em território chinês.
Além da dimensão humana, a catástrofe impôs uma conta bilionária a uma das economias mais vulneráveis da Ásia. O ministro das Finanças do Nepal, Swarnim Wagle, estima que serão necessários entre US$ 4 bilhões e US$ 5 bilhões para reconstruir as áreas atingidas, em um valor equivalente a quase 10% da economia nepalesa.
“Esta é apenas uma estimativa”, afirmou Wagle à Reuters. Segundo ele, as perdas e os danos ainda estão sendo avaliados.
Diante do desastre, a reflexão que fica é: quem paga pela adaptação de países que pouco contribuíram para o aquecimento global, mas estão entre os mais expostos aos seus efeitos?
Em um apelo neste sábado, o ministro das Relações Exteriores, Shisir Khanal, pediu ajuda da comunidade internacional para que "se una na proteção do ecossistema do Himalaia".
A tragédia começou na manhã de quarta-feira, 26, em uma área de alta montanha no Parque Nacional de Langtang, perto da fronteira entre Nepal e China.
Segundo análise preliminar do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS), uma parte de uma geleira se desprendeu e desceu rapidamente pela encosta. A massa de gelo e água incorporou rochas e outros materiais ao longo do caminho, formando um fluxo de detritos e uma inundação que percorreu aproximadamente 100 quilômetros pelos vales dos rios Trishuli e Bhote Koshi.
A força do colapso produziu energia sísmica equivalente à de um terremoto de magnitude 5,2. O evento chegou a ser inicialmente registrado como um terremoto, mas análises posteriores concluíram que o sinal havia sido produzido pelo próprio colapso glacial.
A causa específica do desprendimento ainda está sendo investigada, mas tudo indica que há uma ligação direta com a mudança climática. A tragédia ocorre em uma região onde o aquecimento global já aumenta a preocupação com a estabilidade de geleiras e lagos glaciais.
O próprio Fundo Verde para o Clima (GCF, na sigla em inglês) reconhece que o Nepal enfrenta um recuo acelerado de geleiras em razão da mudança climática, processo que intensifica o risco de inundações provocadas pelo rompimento de lagos glaciais e ameaça comunidades e infraestruturas localizadas rio abaixo.
É justamente nesse cenário que a tragédia abriu uma nova frente de críticas ao sistema internacional de financiamento climático.
A Friends of the Earth Asia Pacific criticou na sexta-feira, 28, o Fundo Verde para o Clima pela demora na aprovação de um projeto destinado a reduzir os riscos de inundações relacionadas a lagos glaciais no Nepal.
O projeto entrou no pipeline do GCF em fevereiro de 2018, mas recebeu aprovação do conselho apenas em julho de 2025: mais de sete anos depois.
A iniciativa prevê sistemas de monitoramento e alerta precoce, redução do nível da água em quatro lagos glaciais considerados de alto risco e obras de proteção em áreas vulneráveis.
Liderado pelo Departamento de Hidrologia e Meteorologia do Nepal em parceria com o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), recebeu US$ 36,1 milhões do GCF e deve beneficiar mais de 2,2 milhões de pessoas.
Para a Friends of the Earth Asia Pacific, a demora evidencia uma incompatibilidade entre a velocidade do financiamento internacional e a urgência dos riscos enfrentados por nações mais vulneráveis.
“Para comunidades que vivem abaixo de geleiras e lagos glaciais instáveis, sete anos não são um atraso administrativo. Podem ser a diferença entre ter um sistema de alerta precoce e enfrentar um desastre sem proteção adequada”, afirmou Meena Raman, porta-voz de Justiça Climática da organização.
O grupo também pediu que o Fundo para Resposta a Perdas e Danos (FRLD, na sigla em inglês) libere recursos para apoiar o resgate, a recuperação e a reconstrução após a catástrofe.
A urgência da adaptação também aparece no tamanho da conta deixada pela catástrofe.
Os US$ 4 bilhões a US$ 5 bilhões estimados pelo governo para a reconstrução representam quase um décimo da economia do Nepal. O valor ainda é preliminar e deve mudar conforme as autoridades avancem na avaliação dos danos.
As enchentes destruíram estradas, pontes, edifícios e instalações de geração de energia. Projetos hidrelétricos atingidos representam mais de 12% da capacidade nacional de geração, aumentando o impacto sobre uma economia dependente da hidreletricidade, do turismo e das remessas enviadas por nepaleses que trabalham no exterior.
A comparação mais próxima é o terremoto de magnitude 7,8 que atingiu o país em 2015. Na ocasião, quase 9 mil pessoas morreram, mais de 500 mil casas foram destruídas e cerca de US$ 9 bilhões foram necessários para a reconstrução.
Agora, além de reconstruir o que foi destruído, o Nepal enfrenta o desafio de preparar sua infraestrutura para riscos que devem se intensificar nas próximas décadas.
O custo da inação também entra no centro do debate. Enquanto o governo estima em até US$ 5 bilhões a reconstrução, o projeto aprovado pelo Fundo Verde para o Clima recebeu US$ 36,1 milhões — menos de 1% do valor que o país agora calcula que poderá precisar para se reerguer da tragédia.
O GCF reconhece que limitações financeiras e técnicas dificultam uma estratégia de prevenção em larga escala no país.
Para a Friends of the Earth Asia Pacific, o caso mostra que o financiamento climático não pode ocorrer apenas depois das catástrofes.
A organização defende a criação de uma estrutura permanente de monitoramento de geleiras e lagos glaciais no Nepal, com acompanhamento por satélite, sensores, mapas de risco, sistemas automáticos de medição dos níveis dos rios e alertas antecipados para comunidades vulneráveis.
Um inventário elaborado pelo Centro Internacional para o Desenvolvimento Integrado das Montanhas (ICIMOD) e pelo PNUD identificou 2.070 lagos glaciais no Nepal, incluindo áreas consideradas potencialmente perigosas.
Para um país que contribuiu com uma parcela mínima das emissões que aqueceram o planeta, mas que agora calcula uma conta equivalente a quase 10% de sua economia depois de uma única catástrofe, a adaptação passou a ser também risco econômico.