Parceiro institucional:
Biocombustíveis e novas rotas energéticas podem reduzir as emissões de setores de difícil eletrificação, como aviação, transporte pesado e indústria (Angel Garcia/Bloomberg/Getty Images)
Repórter de ESG
Publicado em 21 de julho de 2026 às 13h00.
Última atualização em 21 de julho de 2026 às 16h39.
"Combustível do futuro" virou um dos termos repetidos quando o assunto é transição energética. No Brasil, porém, quem é do setor concorda que a expressão já ficou bem para trás. "É jeito de falar, já é o presente", destaca à EXAME, Felipe Alvarez, diretor da União Brasileira do Biodiesel e Bioquerosene (Ubrabio), entidade que representa nacionalmente a cadeia produtiva dos biocombustíveis.
O especialista tem argumento de sobra. Enquanto Estados Unidos e Europa ainda debatem tecnologias caras e distantes de sair do papel, o que ele chama de "engenharia de foguete", o país domina a produção de biocombustível desde a década de 1970, com o Proálcool.
"Quando o mundo está discutindo coisas "hypadas", nós já estamos bem na frente", diz Alvarez.
Hoje, a gasolina brasileira tem uma mistura de quase 30% de etanol, e o diesel, 15% de biodiesel.
Por trás desses números está uma rede de pesquisa que poucos países conseguiram construir: Embrapa, USP, Unicamp, UFRJ e UnB, entre outras instituições acadêmicas, com anos de expertise sobre os mais diversos aspectos da cadeia.
Boa parte do mundo ainda discute como descarbonizar carros, aviões e caminhões, mas nacionalmente a solução já roda há décadas com um combustível que, dependendo da forma de produção, emite mais de 60% menos gases de efeito estufa que o petróleo.
Etanol e Biodisel já são uma página virada. A pergunta que fica é o que vem depois e é aí que entram três frentes que começam a ganhar forma: o biometano, o combustível sustentável de aviação (SAF) e o hidrogênio verde, peça comum entre todos.
"Temos o potencial de ser um motor de descabonização do mundo, mas não há escala sem investimento", garante o diretor.
Movimentos de gigantes do setor mostram que o momento é decisivo: a expansão da Orizon, empresa especializada em transformar lixo em energia, e a ofensiva da Petrobras para se tornar, ao mesmo tempo, uma grande produtora de biocombustíveis.
Se etanol e biodiesel são um capítulo resolvido, o biometano é o que está em plena obra — literalmente. Produzido a partir da captura e purificação do biogás liberado pela decomposição de resíduos orgânicos, ele tem no Brasil um insumo que não falta: o lixo.
"Já temos escala nacional em biometano, mas não ainda em um mercado compatível com o seu potencial", diz Marília Garcez, diretora de Economia Circular, Comunicação e Sustentabilidade da Orizon, em entrevista à EXAME.
Os números ajudam a entender o tamanho da oportunidade: segundo o Panorama do Biogás, do CIBiogás, a produção nacional de biometano quase triplicou entre 2020 e 2025 e deve crescer mais de 50% entre 2026 e 2028.
A ABiogás projeta que o país pode alcançar 7 milhões de m³ por dia até 2030, em um mercado com potencial para atrair R$ 348 bilhões em investimentos e gerar cerca de 798 mil empregos.
A Orizon é hoje a maior referência do país nesse mercado: responde por cerca de 30% da capacidade autorizada de produção de biometano a partir de resíduos sólidos urbanos no Brasil, segundo a Agência Nacional do Petróleo, Gás Natural e Biocombustíveis (ANP).
A companhia opera três plantas: a Onebio, em Paulínia (SP), maior do país em capacidade instalada, a de Jaboatão dos Guararapes (PE), e a Ecourbis (capital paulista) , que juntas têm capacidade de produção de 365 mil m³ de biometano por dia.
Outras oito unidades estão em construção, com previsão de operação até dezembro de 2027, nos estados de São Paulo, Minas Gerais e Paraná.
No Ecoparque Paulínia, um dos maiores ativos da Orizon, chegam cerca de 4,5 mil toneladas de resíduos por dia, vindos de prefeituras, indústrias e estabelecimentos comerciais da região de Campinas.
Ali, o que antes era simplesmente descartado é transformado em biogás, energia elétrica, biometano e créditos de carbono.
"Quando o lixo deixa de ser visto como passivo e passa a ser ativo energético, criamos um ciclo virtuoso que combina destinação adequada, geração de energia renovável, redução das emissões e desenvolvimento econômico", diz Garcez.
Alvarez enxerga na mesma lógica a maior oportunidade de expansão do biometano no país: não nas cidades, mas no campo.
"Temos muita biomassa no agro", diz, citando resíduos de soja, milho e manejo florestal. O especialista descreve um exemplo simples: o galho que sobra da colheita de eucalipto, hoje deixado no campo, pode virar biometano suficiente para abastecer a própria frota de uma fazenda, num reator instalado na sede da propriedade.
A Embrapa já desenvolve mini-reatores voltados a produtores de menor porte, em parceria com o Instituto Mauá de Tecnologia. Na prática, é uma tentativa de reproduzir, em escala menor, o que grandes empresas como a Suzano já fazem: usar o próprio resíduo agrícola para reduzir a dependência do diesel no setor que hoje é o que mais emite no Brasil.
O maior obstáculo, segundo os especialistas, não é tecnológico: é gestão. O Brasil ainda convive com cerca de 3 mil lixões ativos, locais onde o metano, um gás com potencial de aquecimento global cerca de 28 vezes maior que o do CO₂, é simplesmente liberado na atmosfera, sem qualquer aproveitamento.
"Esses locais representam perdas ambientais, econômicas e sociais, pois desperdiçam o biogás em vez de purificá-lo e produzir biometano", afirma Garcez.
Se soma a isso um gargalo estrutural: a malha de gasodutos do país ainda é limitada e concentrada em algumas regiões, "o que dificulta o escoamento da produção e amplia custos logísticos", diz a diretora da Orizon.
Enquanto o biometano avança no seu ritmo, quem também está ampliando sua aposta na transição energética é a maior petroleira do país. A Petrobras planeja uma nova ofensiva no mercado de biodiesel por meio da sua subsidiária PBio, que passa pela aproximação com novos parceiros de negócio e pela integração à própria Ubrabio.
A estatal opera hoje duas usinas de biodiesel, em Montes Claros (MG) e Candeias (BA), com produção anual de 250 mil e 300 mil toneladas, respectivamente, e estuda reativar uma terceira unidade, hibernada em Quixadá (CE) desde 2016.
A companhia tem hoje R$ 4,8 bilhões destinados ao biorrefino, valor que pode ser reavaliado caso a usina cearense volte a operar.
No SAF, a Petrobras já colocou o primeiro lote no mercado: em junho de 2026, concluiu a produção e comercialização de 3,8 mil m³ de combustível sustentável de aviação a partir de óleo de soja, obtido por coprocessamento na Refinaria Duque de Caxias (Reduc).
O lote foi comercializado com a Vibra e traz relevância ao mercado internacional: é o primeiro SAF de soja do mundo com certificação ambiental que atesta a matéria-prima — comprada da Bunge — que não vem de desmatamento nem o incentiva indiretamente.
"É uma demonstração do compromisso da Petrobras com a sustentabilidade, a transição energética e com o desenvolvimento de produtos alinhados às demandas do mercado e da sociedade", afirmou a diretora de Logística, Comercialização e Mercados da Petrobras, Angélica Laureano, em nota.
A companhia também avalia uma entrada no etanol de milho, biocombustível em expansão acelerada no Centro-Oeste, o que marcaria a volta da estatal a um segmento do qual recuou há anos, durante um período de reestruturação com foco no petróleo.
E, em outra frente, o Conselho de Administração da empresa aprovou US$ 1,2 bilhão (cerca de R$ 6 bilhões) para o projeto RPBC Biorrefino, sua primeira fábrica dedicada aos combustíveis renováveis : BioQAV e diesel renovável. A produção seria na Refinaria Presidente Bernardes, em Cubatão (SP) e teria capacidade de até 15 mil barris por dia com operação prevista para 2030.
Se há um fio que conecta biometano avançado, SAF e a próxima geração de combustíveis renováveis, esse fio é o hidrogênio verde.
"Todo combustível é feito de carbono", explica Alvarez. "A diferença entre metano, etanol e gasolina é o número de carbonos na molécula e os hidrogênios que ficam ligados a eles. Sem hidrogênio, você não forma a molécula."
Se esse hidrogênio não vier de fontes renováveis, o combustível final pode até ficar pior, em intensidade de carbono, do que um derivado de petróleo.
É também aqui que a Petrobras está apostando fichas, embora ainda em estágio inicial: a companhia lançou, em parceria com a Financiadora de Estudos e Projetos (Finep), um edital de R$ 150 milhões para apoiar o desenvolvimento de uma tecnologia que usa eletricidade para converter água em hidrogênio de baixa emissão de carbono.
Hoje, poucas empresas no país produzem eletrolisadores, e nenhuma fabrica o Stack, componente central da reação. A gigante petrolífera prevê destinar US$ 4 bilhões a Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação entre 2026 e 2030 para impulsionar a transição energética.
O problema, mais uma vez, é a escala e o preço.
O SAF pode custar até sete vezes mais que o querosene fóssil, porque o nível de exigência técnica e de auditoria em combustível de aviação é o mais rigoroso que existe.
Para uma usina de SAF se sustentar financeiramente no Brasil, calcula Alvarez, entre 40% e 50% da produção precisaria ser consumida pelas próprias companhias aéreas dentro das metas legais e o excedente precisaria ser exportado, o que esbarra em barreiras comerciais de Europa e EUA.
Para um investidor colocar US$ 1,5 bilhão de dólares numa planta desse porte, ele precisa de previsibilidade de demanda para os próximos 20 anos. "Fica o dilema do ovo e da galinha", resume o executivo da Ubrabio.
É por isso que, cada vez mais, a agenda de sustentabilidade não é mais apenas ambiental e sim econômica. "O que hoje poderia ser só uma questão de reputação passa a ser a senha de acesso ao mercado", diz Alvarez.
O etanol e o biodiesel já provaram que o Brasil sabe produzir combustível limpo em escala. A pergunta que biometano, SAF e hidrogênio verde ainda precisam responder é se o país vai conseguir repetir essa história e driblar os desafios econômicos.