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Porto Alegre é palco de debate sobre resposta a desastres climáticos: onde avançamos?

Sob alerta de ciclone no RS, especialistas reunidos no Codex Experience nesta quinta-feira, 20, destacam avanços em dados e tecnologia e falta de integração e cultura de prevenção

Especialistas apresentaram tecnologias na gestão de crises climáticas e a americana Juvare anunciou sua primeira operação no Brasil, em parceria com a Codex, no Espírito Santo (Divulgação)

Especialistas apresentaram tecnologias na gestão de crises climáticas e a americana Juvare anunciou sua primeira operação no Brasil, em parceria com a Codex, no Espírito Santo (Divulgação)

Sofia Schuck
Sofia Schuck

Repórter de ESG

Publicado em 20 de agosto de 2026 às 16h40.

Última atualização em 20 de agosto de 2026 às 19h35.

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Sob alerta de ciclone no Rio Grande do Sul nesta quinta-feira, 20, Porto Alegre é palco de discussões sobre a capacidade do Brasil de enfrentar eventos extremos cada vez mais frequentes e intensos, como os que, há pouco mais de dois anos, levaram o estado a uma enchente histórica.

O Codex Experience 2026 traz tecnologias e caminhos para a adaptação climática e tenta responder à pergunta que ecoa a cada nova tragédia: onde de fato avançamos?

A resiliência é colocada cada vez mais em teste: o número de desastres climáticos no país saltou de 1.635 registros entre 2015 e 2019 para cerca de 6.100 entre 2020 e 2024, em um crescimento de 273% em menos de uma década, segundo análise da Codex, empresa brasileira especializada em governança de dados e mudanças climáticas.

É nesse cenário que  especialistas do setor presentes no evento são unânimes: o país já não sofre por falta de dados. Muito pelo contrário, está ‘munido deles’.

O gargalo é transformar essa informação em ação efetiva nos territórios: dados que deveriam ajudar na tomada de decisão seguem fragmentados e dispersos entre órgãos que muitas vezes não conversam ou se articulam entre si.

"Não temos cultura de prevenção no Brasil", resumiu o coronel Benício Ferrari Jr., coordenador estadual de Proteção e Defesa Civil do Espírito Santo.

++ Leia mais: Dois anos após enchentes históricas, RS volta ao alerta máximo e expõe lacuna da adaptação climática

Segundo o especialista, a resposta começa no município, mas também esbarra nele: a maior parte das prefeituras depende do repasse de verba federal e nem sequer arrecada o suficiente para o próprio funcionamento de serviços básicos, o que torna difícil que consigam evoluir e se preparar para emergências ligadas ao clima extremo. 

Para Venicios Santos, diretor de Negócios da Codex, o maior avanço dos últimos anos é tecnológico, e o que falta agora é ‘integrar’. 

"Não é só a parte de TI, não é só software: é sobre criar uma cultura de dados, é sobre ter uma gestão da informação", destacou, em entrevista à EXAME.

Nesse ponto, os especialistas convergem: tecnologia sozinha não resolve o problema, é preciso sobretudo, vontade política. Para Santos, mesmo com financiamento climático em expansão, projetos muitas vezes não saem do papel.

"O investimento em prevenção não dá voto [nas eleições]. Não é sobre falta de recurso financeiro, ele existe", citou.

Ferrari reforça o mesmo diagnóstico do lado do poder público: sem estrutura mínima nos municípios, nenhuma solução consegue, sozinha, compensar a fragilidade da ponta.

Tecnologia americana chega ao Brasil

É nesse contexto que a americana Juvare acaba de anunciar sua primeira operação no Brasil, em parceria com a Codex, no Espírito Santo. A tecnologia, porém, não substitui investimentos em adaptação climática nem resolve gargalos estruturais.

A empresa opera uma plataforma de gestão digital que usa inteligência artificial, já adotada nos 50 estados americanos e em mais de 25 países, para coordenar respostas a eventos climáticos extremos em tempo real.

Segundo a companhia, a tecnologia é capaz de dar uma resposta até 95% mais rápida e eficiente diante de emergências: uma crise que antes exigia o trabalho de cerca de oito profissionais durante horas passa a ter uma primeira ação em cerca de 30 segundos.

Para Jeffrey Urkevich, diretor de parcerias da Juvare, a experiência em solo capixaba mostra que é possível replicar a solução.

"Foi uma organização bem administrada, desenvolvida sob uma ótima infraestrutura. Esse pioneirismo é como uma estrela-guia para expandir pelo país", disse à EXAME.

Na prática, a plataforma funciona como um centro de comando virtual. Durante uma crise, reúne em uma única tela dados sobre ocorrências em andamento, recursos disponíveis, equipes mobilizadas e áreas afetadas, com atualizações em tempo real enviadas diretamente por equipes em campo.

Além disso, integra mapas, rotas logísticas, inventários e registros operacionais numa visão compartilhada entre Defesa Civil, forças de segurança, hospitais e autoridades locais.

Antes dos desastres, o sistema organiza planos de contingência e protocolos de resposta; quando eles acontecem, facilita a documentação de danos e a geração de relatórios para solicitação de recursos.

"Nosso sistema coordena tudo. Isso torna a resposta a um desastre muito mais simples: sabemos exatamente o que estamos fazendo", explicou Jeffrey.

A escolha pelo Espírito Santo foi baseada numa avaliação técnica conduzida pelo Banco Mundial, que comparou diferentes soluções disponíveis no mercado. E a origem do investimento remonta a 2013, quando fortes chuvas atingiram dezenas de municípios da região.

A partir daí, o estado estruturou um plano de longo prazo com recursos do próprio banco, que incluiu a construção de um centro de defesa civil (o CEPED) e, mais recentemente, a aquisição de modelos digitais de elevação e da própria plataforma americana.

"É sobre planejamento resiliente das instituições públicas", reforçou Santos, da Codex.

O desafio de adaptar o modelo ao Brasil

Nos Estados Unidos, quem centraliza diretrizes e viabiliza a aquisição da plataforma para estados e municípios é a FEMA, agência federal de emergências.

No Brasil, não existe um equivalente: cada ente federativo precisa fazer sua própria contratação, o que expõe uma desigualdade de capacidade técnica e orçamentária entre estados e municípios.

"Em uma emergência, a informação precisa circular rapidamente entre diferentes órgãos, e muitas vezes isso ainda acontece de forma fragmentada", explicou Venicios.

Para o executivo da Codex, organizar os dados e deixá-los disponíveis em tempo real permite que gestores tomem decisões mais rápidas e coordenem melhor as equipes, o que "pode fazer diferença direta no atendimento às populações afetadas" em situações de risco. 

A implementação no país fica a cargo da Codex, responsável por adaptar a plataforma ao contexto institucional e jurídico brasileiro, incluindo tradução do sistema, ajustes nos termos de uso e adequação às estruturas administrativas.

A estratégia inicial da parceria mira governos estaduais, que exercem papel central na coordenação regional de respostas a emergências climáticas.

A expectativa é que os primeiros projetos sirvam de modelo para outras regiões nos próximos anos, em um país que ainda busca transformar dados sobre riscos em capacidade efetiva de prevenção e resposta.

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