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Pesquisa indica que avanços no combate ao fogo podem conter parte do avanço das chamas, mas não compensam os efeitos de uma trajetória de altas emissões (Getty Images)
Repórter de ESG
Publicado em 20 de agosto de 2026 às 16h47.
Mesmo que o aquecimento global seja limitado a 1,8°C acima dos níveis pré-industriais, os incêndios florestais podem queimar 39% mais áreas da Europa até o fim deste século. Em uma trajetória de emissões que leve a temperatura média do planeta a subir 3,6°C, a extensão atingida pelo fogo pode quase triplicar.
As projeções fazem parte de um estudo que avaliou como mudanças no clima e na capacidade de combate aos incêndios podem alterar a área queimada no continente entre 2070 e 2100. Os pesquisadores compararam os resultados com o período de 2000 a 2030 e identificaram a intensificação do chamado fire weather, conjunto de condições de calor, baixa umidade e vento que favorecem a propagação das chamas, como o principal fator de aumento do risco.
O trabalho aponta também que melhorias na gestão do fogo poderiam reduzir em mais de 70% o crescimento projetado da área queimada. O efeito, no entanto, não seria suficiente para neutralizar completamente o impacto de temperaturas mais altas.
“Investimentos em gestão do fogo poderiam ajudar até certo limite, mas, se seguirmos em uma trajetória de altas emissões, ainda veremos fortes aumentos na área queimada”, afirmou Maik Billing, pesquisador de ecossistemas do Instituto Potsdam para Pesquisa de Impacto Climático, o PIK, e principal autor do estudo, aos The Guardian. “A gestão do fogo não pode substituir a mitigação climática.”
A conclusão coloca duas frentes de resposta ao problema no mesmo horizonte: reduzir as condições climáticas que favorecem incêndios extremos e adaptar a forma como paisagens e focos de fogo são administrados.
No cenário mais otimista analisado pelos pesquisadores, com aquecimento limitado a 1,8°C — pouco acima do nível atual de cerca de 1,4°C citado no estudo — algumas regiões europeias registrariam aumento moderado das condições propícias aos incêndios, enquanto outras teriam pouca mudança.
Com 3,6°C de aquecimento até o fim do século, porém, a deterioração dessas condições apareceria em “praticamente toda a Europa”. As políticas atualmente adotadas colocariam o mundo em uma trajetória próxima de 2,6°C de aquecimento até 2100, segundo os dados apresentados pelos autores.
Em uma segunda modelagem, os pesquisadores estimaram o efeito de avanços contínuos na capacidade de combater incêndios. No cenário climático mais ameno, essas melhorias poderiam reduzir a área queimada em 92% quando comparadas a uma situação em que a capacidade de resposta permanecesse no nível atual.
Para representar essa capacidade, o estudo utilizou o Índice de Desenvolvimento Humano, o IDH, como uma aproximação da estrutura disponível para prevenção e combate ao fogo. Os próprios pesquisadores reconhecem, porém, que o crescimento dos chamados megaincêndios — eventos de grande extensão e intensidade, capazes de ultrapassar a capacidade convencional de supressão — dificulta projetar o futuro apenas a partir da experiência passada.
Esse limite já aparece na trajetória recente do continente. Desde os anos 1980, avanços na supressão reduziram tanto o número de incêndios quanto a área queimada no sul da Europa, de acordo com outro estudo citado no material.
O resultado trouxe um efeito colateral: apagar inclusive incêndios menores pode deixar mais vegetação disponível para queimar posteriormente. Quando calor, seca e vento se combinam, esse material acumulado funciona como combustível e pode favorecer episódios menos frequentes, mas mais violentos.
Foi o que ocorreu em grandes incêndios que atingiram França e Espanha no fim de julho deste ano. Cerca de um terço de milhão de pessoas precisou deixar suas casas diante de chamas que alcançaram intensidade superior à capacidade de extinção dos bombeiros.
As projeções de longo prazo são divulgadas em meio a mais uma temporada severa de incêndios na Europa.
Mais de 600 mil hectares já queimaram na União Europeia neste ano. Mantido o quadro atual, 2026 deve se tornar a terceira pior temporada da série histórica, atrás apenas de 2025 e 2022, segundo dados do Sistema Europeu de Informação sobre Incêndios Florestais.
Bélgica, França e Eslováquia registraram recordes para esta altura do ano. Grandes incêndios também atingiram Reino Unido e Alemanha, depois de semanas de ocorrências em França, Espanha, Itália, Croácia e Grécia.
O estudo, assim, acrescenta uma camada ao debate recorrente sobre prevenção: melhorar a capacidade de resposta pode conter parte das perdas, mas seu efeito diminui à medida que as condições meteorológicas se tornam mais favoráveis a incêndios de grande escala.