ESG

Parceiro institucional:

logo_pacto-global_100x50

Dois anos após enchentes históricas, RS volta ao alerta máximo e expõe lacuna da adaptação climática

Relatório do Greenpeace mostra que comunidades criam soluções locais para a crise climática, mas seguem sem acesso a recursos; No RS, nenhuma iniciativa foi mapeada

Águas do Rio Taquari inundam via em Roca Sales (RS), município que já foi fortamente atingido pela enchente histórica de 2024 (AFP)

Águas do Rio Taquari inundam via em Roca Sales (RS), município que já foi fortamente atingido pela enchente histórica de 2024 (AFP)

Sofia Schuck
Sofia Schuck

Repórter de ESG

Publicado em 29 de julho de 2026 às 13h00.

Última atualização em 29 de julho de 2026 às 13h02.

Pelo menos 549 municípios do Sul do Brasil estão hoje sob alerta vermelho de tempestade, o nível máximo da escala do Inmet, e o mesmo tipo de aviso que antecedeu a maior tragédia climática da história do Rio Grande do Sul em abril de 2024.

Na tarde de terça-feira, um tornado atingiu municípios do noroeste e deixou um rastro de destruição. E nas últimas horas, as chuvas fortes causaram a elevação do nível dos rios Caí, dos Sinos, Paranhana, Gravataí, Jacuí, Taquari e Uruguai e mais de 300 pessoas estão fora de casa em todo estado. 

Dois anos depois das enchentes, o Rio Grande do Sul ainda tenta transformar a reconstrução em uma agenda permanente de adaptação. Mas, segundo o Greenpeace Brasil, o gargalo continua sendo o mesmo: falta escuta às comunidades que mais sentem os impactos da crise do clima. 

É o que revela um novo relatório da organização divulgado na terça-feira, 28, e feito em parceria com o Laboratório de Estudos do Clima e do Ambiente (UERJ) e a Brisa Soluções Ambientais, ao mapear 17 soluções criadas nos territórios por aqueles que estão mais expostos a eventos climáticos extremos em diferentes regiões do país.

Em Recife, comunidades como Ilha de Deus, Coque e Mustardinha desenvolveram respostas próprias a alagamentos severos recorrentes. Em Belém e na Ilha do Marajó, populações indígenas, ribeirinhas e quilombolas criaram formas de lidar com a combinação de enchentes, marés altas e falta de saneamento.

No Complexo da Maré, no Rio de Janeiro, onde as temperaturas internas das moradias chegam a 8°C acima da média urbana, moradores organizaram estratégias próprias contra o calor extremo. No Vale do Jequitinhonha, em Minas Gerais, e no semiárido nordestino, comunidades quilombolas e agricultores familiares adaptaram cultivos e acesso à água diante de estiagens mais longas e intensas.

Do Rio Grande do Sul, porém, nenhuma iniciativa robusta ou que pudesse ser replicável entrou no mapeamento.

A lacuna chama atenção porque o Rio Grande do Sul concentra um dos dados mais contundentes do sobre desigualdade na exposição a eventos climáticos extremos.

Nas enchentes de 2024, 52% da população preta dos municípios atingidos relatou ter sofrido perdas materiais ou de renda, contra 40% da população parda e 26% da branca.

O recorte de renda segue o mesmo padrão: 47% das famílias que ganham até dois salários mínimos relataram perdas significativas, contra 13% entre as que ganham de cinco a dez salários mínimos.

"Os dados reforçam a necessidade de incorporar a justiça climática e o combate ao racismo ambiental às políticas de adaptação", destacou Leilane Reis, coordenadora da frente de Justiça Climática do Greenpeace Brasil.

Em entrevista à EXAME, a especialista que esteve presente na Semana do Clima de Porto Alegre relatou uma população local cada vez mais consciente dos riscos climáticos, com uma tensão perceptível diante da possibilidade de novos desastres e vivendo em constante "ansiedade climática".

O cenário tende a se agravar: segundo o Centro de Previsão Climática (CPC) da NOAA, o Brasil enfrenta a formação de um Super El Niño, com pico previsto entre outubro e dezembro deste ano e chance de 81% de atingir a classificação 'muito forte'. E a região Sul está entre as que mais devem sentir os efeitos com força, segundo as previsões metereológicas.

Bilhões investidos, mas para onde?

Em um país marcado por desigualdades históricas de acesso à moradia, saneamento, saúde, mobilidade e infraestrutura, os impactos tendem a se concentrar justamente nos territórios que já enfrentam maior vulnerabilidade. 

O padrão de desigualdade não se limita a quem sofreu em 2024: ele repete em como o recurso para a prevenção e adaptação tem sido distribuído.

Entre 2021 e 2022, o Brasil recebeu R$ 26,6 bilhões em financiamento climático internacional, mas apenas 5% foi destinado exclusivamente a ações de adaptação, e só 3% chegou na forma de doações.

A maior parte vem por meio de instrumentos de crédito, o que dificulta o acesso de organizações comunitárias, que normalmente não têm estrutura para lidar com esse tipo de recurso.

Em escala global, menos de 10% do financiamento de adaptação chega ao nível local. Na COP30, a decisão mutirão fechou um acordo para triplicar os recursos financeiros voltados para a agenda e foram adotados 59 indicadores comuns para medir o progresso real dos países na construção de resiliência.

Segundo o relatório, ainda há uma distância significativa entre as diretrizes nacionais e sua implementação local. Para o Greenpeace, o desafio é transformar compromissos climáticos em políticas permanentes, integradas e capazes de responder às especificidades de cada território.

No caso do governo gaúcho, a tragédia acelerou a estruturação do Plano Rio Grande, que já destinou R$ 14,89 bilhões à reconstrução, com apoio de um comitê científico formado por universidades e especialistas.

Desse total, cerca de R$ 19 milhões (0,13% do investimento) foram destinados à tecnologia: ampliação da rede hidrometeorológica, com sensores e estações capazes de monitorar níveis de rios, volume de chuva e movimentação de massa em regiões como a Serra Gaúcha.

Em Porto Alegre, o monitoramento deixou de depender quase exclusivamente da régua do Guaíba: hoje, modelos hidrológicos estimam "manchas de inundação" usadas pela Defesa Civil para orientar evacuações e emitir alertas.

O problema, segundo Leilane, não é a ausência de recursos — o Plano Rio Grande já destinou bilhões  —, mas o caminho que esse financiamento tomou: a maior parte foi para a chamada "infraestrutura cinza", como obras de contenção e tecnologias de alerta, e pouco chegou a soluções baseadas na natureza e comunidades locais.

Para Cláudio Angelo, do Observatório do Clima, o desastre é anunciado: não havia nenhuma possibilidade de qualquer plano desenhado após 2024 começar a funcionar antes da próxima chuva.

"O estado está pagando por décadas de negligência. Desde 2014 todo mundo sabia qual era o cenário para o RS num planeta aquecido", destaca Angelo, à EXAME.

RS ganha novas iniciativas

Outra frente de resposta ao desastre ganhou forma nos últimos dias, durante a Semana do Clima de Porto Alegre, que por coincidência (ou não) aconteceu justamente quando a chuva começou a dar sinais de que ia apertar mais uma vez.

A Coalizão RS, articulação que reúne governo, academia e sociedade civil em torno da agenda climática do estado, anunciou uma parceria de cooperação técnica com a Universidade da Pensilvânia (UPenn), voltada a estruturar mecanismos de financiamento (blended finance) para projetos de adaptação e apoiar tecnicamente municípios contemplados pelo Banco Asiático de Investimento em Infraestrutura (AIIB).

Outro lançamento foi o Observatório da Resiliência Climática do RS, desenvolvido com a Cátedra Fulbright-PUCRS e o Ministério Público do Estado, que vai reunir indicadores, mapas de vulnerabilidade e dados socioambientais para orientar decisões de governos, empresas e investidores.

São iniciativas que podem qualificar a resposta institucional do estado à crise, mas que ainda não resolvem o gargalo da adaptação climática.

O tempo para testar a resiliência do RS é curto. Com o Super El Niño previsto para atingir seu pico nos próximos meses, o estado pode enfrentar o próximo grande evento climático antes de decidir, finalmente, se a reconstrução vai incorporar quem vive nos territórios. 

Acompanhe tudo sobre:ESGSustentabilidadeClimaMudanças climáticasChuvasEnchentesEnchentes no RS

Mais de ESG

Casas Bahia evita perdas de R$ 255 milhões com economia circular

Super El Niño se aproxima e ameaça segurança energética no Brasil

Fundação Clinton lança instituto para políticas públicas nos EUA

Ministério Público mira norma da CVM que torna reporte de sustentabilidade voluntário