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PepsiCo lança programa para alfabetizar e profissionalizar catadores em São Paulo

Com bolsas de estudo, cursos de gestão e meta de recuperar 1.700 toneladas de resíduos, programa quer provar que sustentabilidade começa por quem coleta

Programa está sendo implementado em São Paulo e deve impactar até 3 mil pessoas direta e indiretamente nesta primeira fase (Pepsico/Divulgação)

Programa está sendo implementado em São Paulo e deve impactar até 3 mil pessoas direta e indiretamente nesta primeira fase (Pepsico/Divulgação)

Letícia Ozório
Letícia Ozório

Repórter de ESG

Publicado em 20 de maio de 2026 às 16h14.

Última atualização em 20 de maio de 2026 às 16h42.

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"Quando contei para o meu filho de 12 anos que eu ia começar as aulas de alfabetização, ele me entregou o caderno e lápis dele. Hoje, é ele quem me ajuda nas lições de casa para aprender a ler e escrever".

O relato é da catadora de materiais recicláveis Tamires Souza, de 36 anos. Há poucos meses, ela participa de uma iniciativa apoiada pela PepsiCo que oferece alfabetização e cursos focados em gestão e inclusão digital para esses trabalhadores.

Trata-se da Universidade PepsiCo do Catador, criada em abril em parceria com a rede de cooperativas de reciclagem Rede Sul, cujo principal objetivo é transformar a base da economia circular no país, capacitando quem realiza ela no dia a dia, oferecendo profissionalização e a possibilidade de remunerações mais justas.

O programa está estruturado em três pilares: social, com foco em educação e profissionalização; econômico, com a meta de aumentar entre 50% e 60% a renda do catador autônomo por meio de maior acesso à comercialização de materiais a preços justos; e ambiental, com a meta de recuperar cerca de 1.700 toneladas de resíduos no período de um ano.

Por conta da informalidade do ofício, não existem estatísticas oficiais sobre o número de catadores que atuam em São Paulo, onde a universidade atenderá inicialmente. Contudo, a expectativa da PepsiCo é impactar até 3 mil pessoas direta e indiretamente nesta primeira fase, que será concluída em junho de 2027.

De acordo com Daniel Silber, diretor-geral de bebidas da companhia, o trabalho também é um convite ao setor. "Assinamos esse projeto, mas precisamos garantir a continuidade, e isso passa por outras empresas também. Não existe sustentabilidade sem circularidade, e não existe circularidade sem inclusão", explica.

O lançamento oficial do programa aconteceu nesta terça-feira, 19, na sede da Coopercaps, cooperativa de catadores em Jurubatuba, na zona sul de São Paulo. A organização reúne mais de 350 cooperados e trabalha pela circularidade há 22 anos na cidade.

Circularidade e a cadeia de valor

Hoje, o Brasil conta com cerca de um milhão de catadores de material reciclável, segundo o Atlas Brasileiro da Reciclagem. Oficialmente, o país conta com cerca de 3 mil cooperativas, que contam com 80 mil cooperados. Mas há ainda um grande número de autônomos, que estão em situação de maior vulnerabilidade que os ligados a cooperativas.

Marcos Nascimento, diretor-presidente da Rede Sul, conta que a realidade do catador hoje foi o que motivou a criação da Universidade. "Poder investir nesse sonho é parte de mostrar o poder das cooperativas e colocar o catador como ponto central dessa estratégia", explica.

Ainda nas primeiras aulas, a Rede Sul percebeu que o número de catadores frequentadores ia caindo aula após aula. Quando perguntaram os motivos, a resposta dada foi que os catadores precisavam escolher se usariam as horas de trabalho para estudar ou "botar comida na mesa". Essa escolha foi o que motivou a organização a implementar bolsas de estudo, que permitem que os catadores permaneçam estudando enquanto buscam o sustento de suas famílias.

O pilar social do programa vai além dos próprios catadores. Por meio do programa Heróis do Futuro, desenvolvido em parceria com a Universidade Estácio, filhos e filhas de catadores têm acesso a formação em administração, informática, finanças e inclusão digital — uma iniciativa pensada para quebrar ciclos de vulnerabilidade.

Equipes da PepsiCo, Rede Sul e Coopercaps durante assinatura da criação da Universidade PepsiCo do Catador (Divulgação/PepsiCo)

Rhariane Ornelas, diretora de projetos da Rede Sul, conta que o projeto vai muito além das oportunidades para a vida profissional dos catadores. "As formações pensam em mudanças para a vida, a identidade, a autoestima", explica. "Sempre digo que quem sonha sozinho tem um sonho, mas quem sonha junto conquista realidade."

O projeto ainda conta com a parceria da Universidade Estácio, que oferece a parte técnica, enquanto a PepsiCo cuida dos recursos e financiamento. Regiane de Oliveira, diretora da unidade de Interlagos da Estácio, afirmou que o projeto permitiu que os catadores encontrassem novas fontes de informação além do dia a dia do trabalho, mesmo o que antes parecia impossível para eles. "Estamos levando educação para muitas pessoas que não sabiam que poderiam ter acesso a isso. Vimos as primeiras formaturas com adultos voltando aos estudos depois de anos longe das salas de aula", conta.

Estratégia de circularidade na PepsiCo

O novo presidente da divisão de Alimentos da PepsiCo Brasil, Martin Ribichich, contou à EXAME que o incentivo a ações de circularidade e reciclagem na companhia já acontece há 15 anos, e que parte da responsabilidade vem de estar presente em 90% das casas brasileiras. "A responsabilidade desse impacto não está só no consumidor e nas organizações, mas também nas empresas. Juntos podemos criar iniciativas como essas, que cuidem do planeta e das pessoas", explica.

"No caso das bebidas, o setor ainda depende muito do plástico. Garantir a reciclagem desse resíduo também é sobre manter a categoria viva. Estamos trabalhando cada vez mais para que possamos desenvolver projetos focados na redução de plástico, olhando melhor a composição desse recurso e garantindo que ele retorne para a cadeia", conta o diretor da divisão de bebidas, Daniel Silber.

Hoje, 90% das embalagens que a PepsiCo usa são recicláveis, biodegradáveis ou compostáveis, mas na área de bebidas, o total chega a 99,9%. Marcas como H20 e Lipton, de bebidas, já chegam a 100% de embalagens recicladas, segundo a companhia.

Damiana Macedo, catadora da Coopercaps, atua há 19 anos na área e viu na coleta a oportunidade para conseguir a sua renda. Ela conta que voltar a estudar foi como realizar um sonho de criança. "Eu já tinha perdido a minha identidade quando entrei nos cursos. Foi a primeira vez que entrei em uma sala e me trataram como gente", explica. Depois das aulas, os aprendizados e a melhora na autoestima, ela se tornou palestrante, agente ambiental e agricultora. "Meu sonho é que todo catador saiba que pode se tornar também um empreendedor, que possa ter suas certificações e novas oportunidades. Hoje posso descansar porque finalmente me sinto acolhida e protegida", explica.

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