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Incêndios na Europa e impacto nos animais: aves e grandes mamíferos conseguem fugir com mais facilidade, enquanto répteis, anfíbios e espécies endêmicas enfrentam riscos maiores durante e depois das chamas
Repórter de ESG
Publicado em 9 de agosto de 2026 às 07h48.
Os grandes incêndios que atingem países europeus neste verão não deixam apenas cidades evacuadas, casas destruídas e áreas inteiras cobertas por cinzas. Para a fauna, o fogo abre uma crise paralela, que começa com a tentativa de escapar das chamas e pode continuar por meses ou anos, mesmo depois que a vegetação volta a crescer.
E o impacto não é igual para todas as espécies. Animais com maior capacidade de deslocamento, como aves e grandes herbívoros, tendem a conseguir escapar com mais facilidade da trajetória de um incêndio. Répteis, anfíbios e outros animais de menor mobilidade, por outro lado, podem depender de tocas, buracos, pedras ou pequenas áreas de refúgio para sobreviver.
“Costumamos dizer que todo fogo é local”, afirma Marek Smith, diretor do programa de incêndios da América do Norte da organização ambiental The Nature Conservancy e codiretor da The Fire Networks, em entrevista à EXAME.
A expressão resume um dos principais desafios para medir os efeitos ecológicos de grandes queimadas: mesmo dentro de um único incêndio, a intensidade do fogo pode variar significativamente de uma área para outra.
Segundo Smith, uma região pode sofrer danos severos enquanto outra, a poucos quilômetros de distância, permanece relativamente preservada. Esses contrastes podem criar refúgios dentro da própria área atingida e definir quais populações conseguem sobreviver.
Ao mesmo tempo, incêndios de grande escala podem eliminar habitats inteiros, reduzir fontes de alimento, destruir áreas de reprodução e romper corredores usados pelos animais para se deslocar.
“Talvez os maiores riscos sejam para espécies endêmicas e altamente localizadas que já são vulneráveis”, diz Smith. Se uma população rara de um animal ou planta depende de um único local e essa área sofre danos severos, o incêndio pode provocar consequências de longo prazo.
A diferença de mobilidade entre as espécies aparece como um dos fatores centrais na sobrevivência durante um incêndio. De acordo com a National Geographic, pesquisadores que acompanham os efeitos dos incêndios na França demonstraram preocupação especialmente com pequenos mamíferos, répteis e anfíbios.
Veados conseguem correr e aves adultas podem voar para longe das chamas. O mesmo não ocorre com animais de deslocamento mais lento. Entre as espécies citadas pela publicação está o sapo-de-esporão-ocidental, encontrado em áreas da França, Espanha e Portugal.
Classificado como vulnerável na Lista Vermelha da União Internacional para a Conservação da Natureza, o anfíbio já enfrentava perda de habitat, expansão urbana, atividades agrícolas, espécies invasoras e atropelamentos antes dos incêndios.
Sua população teria diminuído em mais de um terço nas últimas duas décadas.. Por ser um animal terrestre e de movimentação lenta, o sapo enfrenta dificuldade para escapar do calor, da fumaça e das chamas. Ao mesmo tempo, seu comportamento de escavar o solo pode oferecer alguma proteção.
As tocas utilizadas pela espécie podem chegar a quase um metro de profundidade e funcionam como abrigo contra temperaturas extremas na superfície. Em áreas onde havia menos vegetação seca e o fogo passou mais rapidamente, alguns indivíduos podem ter conseguido sobreviver.
O caso mostra por que uma mesma característica ecológica pode determinar tanto a vulnerabilidade quanto a capacidade de resistência de uma espécie.
Sobreviver ao incêndio não significa necessariamente sobreviver às suas consequências. Quando o fogo destrói a vegetação, pequenos animais perdem áreas de camuflagem e ficam mais expostos a predadores. A redução de insetos e outros organismos também pode eliminar parte das fontes de alimento disponíveis.
“Embora um incêndio possa eliminar algumas fontes de alimento, novas fontes podem se tornar disponíveis rapidamente à medida que a paisagem se regenera", diz Smith.
Segundo a National Geographic, animais deslocados pelo fogo podem ainda se aproximar de áreas urbanas em busca de abrigo e alimento, aumentando o risco de atropelamentos.
Cinzas e produtos utilizados no combate às chamas também podem atingir água e solo. A publicação cita ainda o risco de efeitos prolongados sobre a saúde dos animais, inclusive problemas reprodutivos, caso contaminantes permaneçam no ambiente. Smith afirma que incêndios podem afetar áreas de reprodução, fontes de alimento e corredores ecológicos usados para deslocamento.
Mas o resultado varia de acordo com a intensidade do fogo e com as características de cada ecossistema. Em alguns locais, a regeneração da vegetação pode começar a ficar visível em poucas semanas. Novas fontes de alimento também podem surgir à medida que a paisagem se recompõe. A recuperação, porém, está longe de seguir o mesmo ritmo em todos os territórios.
Nem todo incêndio produz o mesmo tipo de impacto ecológico. Em algumas paisagens, o fogo faz parte do funcionamento histórico do ecossistema e pode atuar como um processo natural de renovação.
Nesses locais, segundo Smith, incêndios podem estimular regeneração e crescimento da vegetação. O problema muda quando um ambiente adaptado ao fogo passa longos períodos sem queima. A supressão prolongada pode provocar acúmulo de material vegetal combustível e aumentar a vulnerabilidade a incêndios extremos.
Quando o fogo finalmente ocorre nessas condições, o resultado pode ser muito mais severo. Há ainda paisagens que não são naturalmente adaptadas ao fogo, como determinadas plantações florestais. Nesses casos, não há necessariamente expectativa de regeneração natural em escala relevante.
O tempo necessário para que um ecossistema volte a sustentar as populações de animais existentes antes do incêndio depende, portanto, de uma combinação de fatores: histórico do fogo, intensidade das chamas, espécies presentes, condições climáticas e capacidade de regeneração da vegetação.
Enquanto a recuperação dos ecossistemas pode levar anos, a resposta imediata aos incêndios tem exigido operações emergenciais para retirar animais das áreas ameaçadas. Na Espanha, a CNN relatou uma série de resgates durante os incêndios que atingiram a região de Madri.
No Safari Madrid, funcionários permaneceram no parque enquanto o fogo avançava e conduziram animais para recintos internos de concreto com ar-condicionado. As equipes também molharam áreas ao redor das instalações na tentativa de impedir que as chamas chegassem aos recintos.
O parque abriga aproximadamente mil animais e ainda recebeu indivíduos retirados de outro centro de fauna ameaçado pelo fogo. Entre os animais transferidos estavam um lince-euroasiático, um lobo-ibérico e quatro abutres. O lince e o lobo precisaram ser anestesiados durante o transporte.
As chamas chegaram a cerca de 500 metros do Safari Madrid antes de mudar de direção. Em San Martín de Valdeiglesias, a cerca de 70 quilômetros da capital espanhola, uma praça de touros foi transformada em abrigo temporário para cavalos, pôneis, burros, cabras, gatos e cachorros.
A Guarda Civil espanhola também participou de operações em propriedades rurais, retirando cavalos e cabras e verificando as condições de vacas, galinhas, avestruzes, camelos e crocodilos. Segundo a CNN, agentes também resgataram cães e gatos domésticos.
“Não existe uma solução única para os desafios de conviver com os incêndios florestais. O conhecimento local é fundamental", conta Smith.
Para animais mantidos em centros de recuperação ou abrigo, a fuga nem sempre é uma opção. Muitos desses indivíduos não podem ser devolvidos à natureza, seja por nunca terem frequentado esse ambiente ou pelo risco à saúde, e dependem permanentemente de cuidados humanos.
Foi o caso do centro Kuna Iberica, próximo a Madri. Com o avanço do incêndio, parte dos animais foi transferida para outras instalações. Para alguns dos que permaneceram no local, funcionários chegaram a abrir os recintos temporariamente para que pudessem escapar caso as chamas alcançassem a área.
Como eram animais dependentes dos cuidadores, eles permaneceram próximos e voltaram depois que a situação ficou mais segura. As chamas chegaram a cerca de dez metros da instalação, segundo informações relatadas pela CNN. Nenhum dos animais morreu.
A mobilização também ocorreu na Grécia. Segundo a Associated Press, mais de 280 animais foram resgatados por voluntários durante um incêndio que atingiu áreas montanhosas e costeiras próximas a Atenas. A maior parte eram cães.
O incêndio queimou mais de 100 quilômetros quadrados e chegou a avançar simultaneamente por cinco frentes. Na cidade de Megara, a cerca de 40 quilômetros de Atenas, animais retirados das áreas atingidas foram levados para uma quadra esportiva coberta. O resgate resolveu apenas parte do problema.
Depois que o fogo passou, voluntários e autoridades passaram a enfrentar a dificuldade de identificar os tutores e definir para onde devolver os animais deslocados. A AP relatou que autoridades locais começaram a cruzar registros de animais desaparecidos com aqueles encontrados pelas equipes e a procurar lares temporários.
Os episódios da Espanha e da Grécia também mostram uma diferença entre a escala dos incêndios e a estrutura disponível para salvar animais. Segundo a Associated Press, organizações de proteção animal vêm argumentando que grande parte dos resgates ainda depende de indivíduos, voluntários e pequenas instituições.
Richard Parr, diretor do Center for Wild Animal Welfare, afirmou à AP que existe um descompasso entre a dimensão dos incêndios e os recursos disponíveis para responder ao impacto sobre os animais. A organização defende a criação de um serviço específico de resgate animal na União Europeia e recursos destinados a esse tipo de emergência.
Entre as medidas propostas estão também refúgios contra incêndios para a fauna, como lagoas e estruturas formadas por pedras que possam funcionar como áreas de proteção durante a passagem das chamas.
Para Marek Smith, não existe uma solução única que possa ser aplicada da mesma maneira em todos os territórios. As medidas precisam considerar a história ecológica de cada área e sua relação com o fogo.
Em paisagens historicamente dependentes de incêndios para manter seu funcionamento ecológico, uma das estratégias é restabelecer o papel do fogo de maneira controlada. Nos Estados Unidos, a The Nature Conservancy utiliza e apoia queimadas prescritas, também conhecidas como queimadas controladas, em determinados ecossistemas.
A prática consiste no uso planejado do fogo sob condições específicas para reduzir o excesso de material combustível e recuperar processos ecológicos. Segundo Smith, esse tipo de intervenção pode tornar a paisagem mais resiliente e também diminuir o comportamento extremo de futuros incêndios, reduzindo riscos para comunidades humanas.
O especialista ressalta, no entanto, que o conhecimento local é determinante para decidir quais medidas fazem sentido em cada região. Ele também aponta para o papel das condições climáticas na intensificação do problema. “Sabemos que fatores como a seca associada às mudanças climáticas agravam a frequência e a intensidade dos incêndios florestais”, afirma.
A National Geographic também relaciona os incêndios registrados na França e na Espanha às condições agravadas pelas mudanças climáticas. Temperaturas mais altas aumentam a capacidade da atmosfera de absorver umidade, contribuindo para secar solo e vegetação e criando condições mais favoráveis para o fogo.
Em áreas onde animais já enfrentam perda de habitat, urbanização, fragmentação de ecossistemas e populações reduzidas, esse aumento da intensidade dos incêndios acrescenta uma nova camada de pressão. E, mesmo quando a vegetação volta a aparecer rapidamente, isso não significa que as populações de animais retornem no mesmo ritmo.
Para algumas espécies, sobretudo aquelas endêmicas, raras ou restritas a pequenas áreas, perder uma única população local pode significar uma alteração ecológica que não se resolve com a próxima chuva.