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Incêndios em Bordeaux: avanço das chamas amplia incertezas sobre a safra e expõe dificuldades de pequenos e grandes produtores da região (AFP/Getty Images)
Repórter de ESG
Publicado em 29 de julho de 2026 às 14h36.
Um dos maiores incêndios da história recente da França se aproximou dos vinhedos de Bordeaux e acrescentou um novo fator de pressão sobre uma indústria já afetada pelas seca, ondas de calor, queda nas vendas e tarifas sobre o vinho francês.
No Château Smith Haut Lafitte, propriedade fundada em 1365, o fogo avançou até uma distância de cerca de 16 quilômetros dos vinhedos. A proximidade levou a administração da vinícola a preparar um plano de evacuação para os animais da propriedade, entre eles cavalos, galinhas, cabras e lhamas.
“Para a indústria do vinho, é uma coisa em cima da outra. Isso não torna nossa vida muito fácil”, afirmou Ludovic Fradin, diretor-geral do château, ao The New York Times. “Diante desse risco, precisamos estar preparados para tudo.”
Até o momento, não havia registro de vinhedos atingidos diretamente pelas chamas, segundo o Conselho de Vinhos de Bordeaux. A principal dúvida, porém, estava nos efeitos da fumaça sobre as uvas e, consequentemente, sobre a safra.
Fradin avaliou que a geografia plana de Bordeaux e a mudança dos ventos ajudam a dispersar a fumaça em um ou dois dias. A situação seria diferente da observada em Napa Valley, na Califórnia, onde cadeias de montanhas podem reter a fumaça sobre os vinhedos por mais tempo.
Especialistas ouvidos pelo jornal, no entanto, afirmaram que ainda era cedo para descartar impactos sobre a produção.
O risco varia de acordo com o estágio de maturação das uvas. Estudos sobre exposição à fumaça indicam maior vulnerabilidade no intervalo entre a mudança de cor dos frutos e a colheita.
No Château Smith Haut Lafitte, as uvas já haviam entrado nessa fase. As destinadas aos vinhos brancos seriam colhidas em meados de agosto, enquanto as tintas, no início de setembro.
Mesmo antes dos incêndios, a expectativa já era de uma safra menor. Um inverno muito chuvoso foi seguido por calor recorde e pouca precipitação, condição que acelerou o amadurecimento das uvas.
A combinação de extremos climáticos e dificuldades econômicas tem afetado a rotina dos produtores. “Há um elemento humano de ter mais uma coisa contra a qual lutar”, disse Jane Anson, autora e colunista de vinhos que vive em Bordeaux. “Como se eles precisassem disso além de todo o resto.”
A emergência também ultrapassou os limites das propriedades rurais. Mais de 220 mil pessoas foram retiradas de suas casas na região da Gironda, em uma das maiores operações de evacuação em tempos de paz na França. Em Le Porge, vila a oeste de Bordeaux, 152 casas foram destruídas.
O presidente francês Emmanuel Macron visitou a região e afirmou que o incêndio poderia levar semanas para ser controlado. Segundo ele, a situação era a mais difícil registrada no país desde a Segunda Guerra Mundial.
Além do risco imediato das chamas, os produtores já observam mudanças na composição das uvas. Temperaturas mais altas elevam o teor de açúcar dos frutos, o que dificulta a produção de vinhos com o equilíbrio tradicionalmente associado a Bordeaux.
“Os vinhos de Bordeaux são conhecidos pelo equilíbrio”, afirmou Gabriel Barre, pequeno produtor que administra com a mulher, Edith, o Château La Grave, às margens do rio Dordogne. “Mas, nos últimos anos, produzimos vinhos marcados pelo sol, que explodem no paladar e ficam doces, às vezes doces demais.”
Barre produz cerca de 25 mil garrafas por ano de merlot, cabernet franc e malbec. Para ele, o incêndio é parte de uma transformação mais ampla que envolve não apenas o clima, mas também a economia e o comportamento dos consumidores.
Segundo o produtor, Bordeaux ainda carrega uma imagem associada ao luxo e ao esnobismo, ao mesmo tempo que enfrenta dificuldade para atrair consumidores mais jovens. As denominações de origem, classificações que vinculam o vinho a uma área e a regras específicas de produção, teriam perdido apelo entre uma geração que também bebe menos do que seus pais.
Endividado e diante da sucessão de problemas climáticos, Barre decidiu que esta seria sua última colheita. Ele afirmou não querer deixar ao filho a responsabilidade de assumir um negócio em dificuldades.
“Houve uma mudança radical no mundo do vinho”, disse. “Neste ano, parece que estamos em outro planeta.”