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Chamas avançam sobre vegetação da Floresta de Fontainebleau, na França, na maior queimada já registrada na região da Île-de-France (AFP)
Repórter de ESG
Publicado em 13 de julho de 2026 às 13h00.
Última atualização em 13 de julho de 2026 às 13h09.
Há mais de 160 anos, a Floresta de Fontainebleau se consolidou como a primeira reserva natural criada por decreto governamental no mundo e a maior aos arredores de Paris.
Patrimônio mundial da UNESCO, resistiu a reis franceses que a usavam como reduto de caça no século passado e a mais de 15 milhões de visitantes e turistas por ano, que caminham entre suas formações rochosas e uma faixa de areia branca e fina.
Apesar de estar localizada a mais de 250 quilômetros de qualquer oceano, a floresta também sobreviveu ao próprio tempo geológico: o solo que hoje sustenta suas árvores guarda fósseis e formações que remontam a quando aquele território ainda era fundo de mar.
Mas, infelizmente, nem 165 anos de proteção blindam uma floresta do fogo. No fim da tarde de domingo, 12, um incêndio de escala recorde consumiu cerca de 800 hectares de vegetação e uma área equivalente a 5% dos 23 mil hectares totais da reserva foi perdida.
O episódio é o maior incêndio já registrado na região da Île-de-France. Mais de 400 bombeiros seguem no combate às chamas, com apoio de aviões Canadair deslocados do sul do país, um reforço raro para os arredores da capital francesa. O prefeito da cidade de Fontainebleau afirmou nunca ter visto "nada dessa magnitude na região".
As autoridades francesas investigam a suspeita de que o fogo tenha sido provocado de forma criminosa. O ministro do Interior, Laurent Nuñez, afirmou que investigadores encontraram cerca de dez pontos distintos de ignição concentrados em uma área de aproximadamente um quilômetro, o que reforça essa hipótese. No entanto, a causa ainda não foi oficialmente confirmada.
Independente de quem ou o que tenha acendido a primeira fagulha, o cenário que permitiu que ela se transformasse em um incêndio de "escala excepcional", nas palavras do próprio governo francês, é agravado pelas mudanças climáticas.
A França atravessa sua terceira onda de calor desde o fim de maio. Nesta segunda-feira, 13, 37 departamentos do país seguem em alerta vermelho para temperaturas extremas, incluindo Paris e sua região.
Em Fontainebleau, a organização metereológica francesa prevê máximas de 35°C nesta segunda e 36°C na terça-feira. A alta nos termômetros e a seca prolongada têm um efeito direto sobre a vegetação florestal: samambaias e coníferas, típicas da região, ficam mais inflamáveis, tornando qualquer fogo mais fácil de espalhar e mais difícil de conter.
A situação é crítica em toda Europa e o fogo já avançou em outros países como Espanha, Europa e Portugal. Desde janeiro, os incêndios na França já queimaram 32 mil hectares, mais do que em toda a temporada de 2025 completa, segundo o ministro do interior.
O calor que hoje alimenta as chamas em Fontainebleau não é um episódio isolado. É o terceiro capítulo de um verão que a Organização Mundial da Saúde já classificou como excepcionalmente letal para o continente.
A onda de calor de 20 a 28 de junho, a segunda da temporada, foi considerada pelos especialistas a mais severa já registrada na Europa e teria sido "praticamente impossível" sem a crise climática em curso.
Dados preliminares já indicam mais de 9 mil mortes associadas ao calor extremo, sendo 5 mil só na Alemanha. Na França, foram 2.025 mortes adicionais, um aumento de quase 30% na semana de pico da onda.
Uma estimativa publicada hoje por pesquisadores do Imperial College London, do Met Office do Reino Unido e da Escola de Higiene e Medicina Tropical de Londres, revelou que as temperaturas aumentaram entre 3°C e 4°C acima dos níveis normais, um efeito que, isoladamente, seria responsável por mais de 40% das mortes estimadas na Inglaterra e no País de Gales onde cerca de 2700 pessoas já perderam a vida.
A França mantém, agora, o terceiro episódio consecutivo de calor extremo em menos de dois meses, e a OMS já alertou que a Europa pode enfrentar semanas ainda mais mortais à frente.
Fontainebleau é patrimônio natural da França desde 1861 e carrega o título simbólico de primeira reserva natural do mundo criada por decisão de governo, décadas antes de qualquer parque nacional existir nos moldes atuais.
Um incêndio que ainda não está sob controle, e que as próprias autoridades francesas admitem que pode levar dias ou semanas para ser extinto por completo, ameaça não apenas hectares de vegetação, mas um ecossistema que carrega registros geológicos de milhões de anos e um capítulo inteiro da história de proteção ambiental europeia.
Além do impacto ambiental, a evacuação de cerca de 900 residências, o fechamento de um trecho da rodovia A6, que liga Paris a Lyon, e atrasos de até oito horas em viagens ferroviárias mostram como um incêndio florestal, hoje, é capaz de paralisar infraestrutura crítica inteira diante do clima extremo.