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'Guerra do Irã expõe como petróleo é sensível', diz presidência da COP30

Para o embaixador André Corrêa do Lago, presidente da COP30, o conflito acelerou discussões sobre dependência de combustíveis fósseis e tornou o argumento da independência energética mais urgente

Presidente da COP30 avalia que guerra mostrou necessidade da transição para renováveis (Leandro Fonseca/Exame)

Presidente da COP30 avalia que guerra mostrou necessidade da transição para renováveis (Leandro Fonseca/Exame)

Letícia Ozório
Letícia Ozório

Repórter de ESG

Publicado em 14 de abril de 2026 às 16h52.

A guerra no Irã está ampliando muito além da dimensão geopolítica o debate global sobre energia — e pode se tornar um catalisador para a transição energética.

Para o embaixador André Aranha Corrêa do Lago, presidente da COP30, o conflito escancara uma fragilidade estrutural do sistema energético global.

“Essa guerra é uma demonstração de como o tema de petróleo e gás é geopoliticamente sensível”, afirmou durante coletiva em Washington, nas reuniões de primavera do Fundo Monetário Internacional e do Banco Mundial.

O ponto central, segundo ele, é que a dependência global de combustíveis fósseis concentrados em regiões instáveis não é apenas uma questão climática — mas também econômica e estratégica. O choque provocado pelo conflito afeta preços, abastecimento, inflação e cadeias produtivas.

Esse risco sistêmico tem um símbolo claro: o Estreito de Ormuz. Por ali passa cerca de 20% do petróleo consumido no mundo e uma parcela relevante do gás natural liquefeito (GNL). Qualquer ameaça de bloqueio na região se espalha rapidamente por preços de energia, custos de transporte, estoques e produção industrial.

Na prática, isso mostra que combustíveis fósseis não são apenas grandes emissores de carbono — mas também um sistema altamente vulnerável a conflitos.

Transição energética ganha novo argumento

Nesse cenário, a transição para fontes limpas passa a ser vista não só como uma agenda climática, mas como uma resposta à instabilidade causada aos fósseis durante crises geopolíticas.

“O conflito traz elementos adicionais ao debate e reforça, de acordo com os interesses de cada país, suas direções futuras em energia”, disse o embaixador.

Fontes renováveis, como solar e eólica, além de eletrificação e eficiência energética, reduzem a dependência de rotas críticas e de regiões geopoliticamente sensíveis. Diferentemente do petróleo e do gás, essas tecnologias podem ser instaladas localmente e em prazos mais curtos.

A China é citada como exemplo desse movimento. Segundo Corrêa do Lago, a busca por independência foi um dos motores da rápida expansão das renováveis no país.

“A China mostra que a independência energética foi um grande incentivo para avançar em eólica e solar”, afirmou. “Os resultados estão aparecendo mais rapidamente do que o esperado.”

Além disso, o avanço chinês ajudou a reduzir custos globais dessas tecnologias, tornando a transição mais acessível — especialmente para países em desenvolvimento.

Segurança energética entra no centro da discussão

A guerra no Irã reforça um ponto cada vez mais presente no debate internacional: a transição energética não é apenas sobre redução de emissões, mas também sobre segurança energética.

Analistas apontam que crises como essa tendem a acelerar a adoção de renováveis justamente por sua capacidade de reduzir a exposição a choques de oferta e volatilidade de preços — fatores diretamente ligados à inflação e à estabilidade econômica.

Ao mesmo tempo, há um efeito paradoxal no curto prazo: conflitos podem estimular a expansão da produção de petróleo e gás em outras regiões, como forma de compensar riscos de oferta. Isso, porém, não resolve a dependência estrutural e pode atrasar a descarbonização.

“O debate sobre petróleo e gás se tornou ainda mais complexo”, disse o embaixador, citando o aumento de preços, emissões e tensões geopolíticas como fatores simultâneos.

Brasil no centro do dilema

O Brasil aparece como um caso emblemático dessa tensão. O país tem quase de 90% da eletricidade proveniente de fontes renováveis, mas também vem ampliando a produção de petróleo. Projetos que exploram a fronteira do petróleo, como a Foz do Amazonas e Pará-Maranhão, tem sido incentivados pelo próprio governo.

“Há um grande debate interno sobre os caminhos a seguir”, afirmou Corrêa do Lago.

Mapas do caminho: promessa ou atraso?

A presidência brasileira da COP30 está desenvolvendo três roadmaps prioritários — sobre financiamento climático, combustíveis fósseis e desmatamento — como parte de uma estratégia para acelerar a implementação das decisões já aprovadas nas negociações internacionais.

Segundo o embaixador André Corrêa do Lago, os documentos não serão negociados entre países, mas servirão como instrumentos práticos de implementação. “Não estamos preparando um texto para ser aprovado por consenso. O consenso já foi alcançado”, afirmou.

O roadmap sobre combustíveis fósseis seguirá estritamente a linguagem acordada na COP28, em Dubai, focando na “transição para longe dos combustíveis fósseis”, e não em “phase out” — termo que não foi aprovado formalmente.

Os documentos devem ser apresentados até setembro, com três partes principais: diagnóstico dos desafios, levantamento de soluções e propostas de caminhos.

Conferência da Santa Marta, a 'COP dos fósseis'

Paralelamente, o Brasil também acompanha iniciativas externas como a conferência de Santa Marta, na Colômbia, descrita como uma “coalizão de países que já avançaram” na agenda de eliminação de combustíveis fósseis.

Apesar das diferenças, o governo brasileiro vê complementaridade entre os processos. “Há espaço para muitas abordagens. Quanto mais debates e instituições envolvidas, mais rico será o processo”, disse.

O embaixador destacou ainda uma lacuna estrutural na governança global de energia: a ausência de uma organização universal sob a ONU para tratar do tema, ao contrário do que ocorre com florestas.

Diante disso, diferentes fóruns — como IEA, IRENA e alianças temáticas — acabam contribuindo com visões diversas. “O debate ainda é muito jovem para algo tão importante”, afirmou.

A estratégia brasileira aposta nesse ecossistema fragmentado como forma de acelerar soluções, mesmo fora dos processos formais de negociação climática.

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