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Tabu nas COPs, Conferência na Colômbia reúne 45 países pelo fim dos combustíveis fósseis

Encontro em Santa Marta acontece em meio à guerra no Oriente Médio e altas no petróleo, enquanto tenta destravar um debate historicamente travado nas negociações climáticas globais

A cidade colombiana de Santa Marta recebe, em abril, a primeira conferência dedicada exclusivamente ao fim dos combustíveis fósseis (Getty Images)

A cidade colombiana de Santa Marta recebe, em abril, a primeira conferência dedicada exclusivamente ao fim dos combustíveis fósseis (Getty Images)

Sofia Schuck
Sofia Schuck

Repórter de ESG

Publicado em 1 de abril de 2026 às 18h30.

Última atualização em 2 de abril de 2026 às 11h12.

A conferência que quer fazer o que as COPs nunca conseguiram: colocar o fim dos combustíveis fósseis no centro do debate global.

“Estamos próximos de uma nova era geopolítica com o fim dos fósseis”, disse Irene Vélez, ministra do meio ambiente da Colômbia em coletiva a jornalistas, ao anunciar a criação de uma coalizão internacional para acelerar a transição energética.

Liderada pelo país colombiano, a iniciativa já reúne 45 países e foi anunciada a menos de um mês da conferência em Santa Marta, nos dias 28 e 29 de abril, com apoio da Holanda na organização.

Além dos governos, 2.608 organizações e comunidades já aderiram ao movimento, participando dos diálogos preparatórios encabeçados por setores e sociedade civil.

Proposto na COP30, o evento quer criar um espaço inédito de articulação entre governos e setores econômicos para discutir diretamente a eliminação dos combustíveis fósseis poluentes pela primeira vez, um tema historicamente sensível e travado nas negociações climáticas. Em Belém, pelo menos 80 países se mostraram favoráveis a iniciativa. 

A nova coalizão surge com a ambição de preencher uma lacuna nas Conferências do Clima da ONU (COPs), onde o debate sobre o fim gradual de fontes energéticas como petróleo e carvão ainda enfrenta forte resistência política e econômica.

Segundo Vélez, a ideia é justamente romper esse bloqueio e impulsionar a transição energética.

“Nunca antes houve um espaço dedicado aos países e setores para falar sobre este tema. Há uma espécie de tabu, precisamente porque existe uma grande dependência econômica e um forte lobby petroleiro”, afirmou.

A ministra também informou que pretende organizar um grupo de países comprometidos com ações concretas, e não apenas metas. “O mais importante é que possamos agir. O sucesso depende de movermos a agenda mais rápido”, destacou.

Energia no centro da geopolítica

O lançamento da coalizão e a própria conferência pioneira acontece em um momento de forte instabilidade global.

A guerra no Oriente Médio elevou os preços do petróleo e expôs, mais uma vez, a dependência estrutural de muitos países em relação aos combustíveis fósseis, reacendendo temores de uma crise econômica sem precedentes. 

Para André Corrêa do Lago, embaixador e presidente da COP30, o contexto atual torna o debate ainda mais urgente e mais complexo. 

“O ano começa com uma situação totalmente excepcional, caracterizada pela maior disrupção da questão energética. As guerras nunca trazem resultados positivos, mas a realidade é que dessa vez há uma injeção adicional ao debate da transição energética”, ressaltou, também em coletiva de imprensa.

Segundo o embaixador, a agenda de energia ainda enfrenta obstáculos estruturais dentro das negociações multilaterais. “Nunca houve de fato uma discussão profunda dentro da ONU. A lógica mundial foi construída em torno dos fósseis, o que torna esse debate mais difícil e espinhoso", comentou.

Um dos objetivos da coalizão é justamente trazer mais embasamento técnico e econômico para o debate, incluindo análises sobre viabilidade e impactos da transição para fontes renováveis como eólica e solar.

“A dimensão econômica é central. Por isso, estamos envolvendo especialistas para analisar as circunstâncias e as possibilidades de alternativas”, complementou Corrêa do Lago, citando a colaboração com a Agência Internacional de Energia Renovável (IRENA).

A conferência na Colômbia também deve marcar o lançamento de um painel científico voltado ao tema, segundo confirmou o climatologista Carlos Nobre.

O cientista brasileiro também liderou o primeiro pavilhão que conectava ciência às negociações durante a COP30, junto ao sueco Johan Rockstrom.

A queima dos fósseis representa de 70% a mais de 80% das emissões mundiais de gases de efeito estufa (GEE), sendo o maior problema atual para conter a mudança climática em curso.

Do impasse na COP30 ao 'roadmap' global

A iniciativa dialoga diretamente com uma das principais apostas da presidência brasileira da COP30: a construção de um roadmap ou roteiro para o fim gradual dos combustíveis fósseis.

A proposta, no entanto, ficou de fora do texto final da conferência em Belém, expondo as dificuldades políticas em torno do tema e oposições de países petrolíferos.

Agora, a expectativa é que a nova coalizão ajude a destravar e contribua para a elaboração do roteiro, que deve ser apresentado até a COP31, na Turquia, em novembro. 

A presença confirmada tanto da Comissão Europeia quanto da presidência turca em Santa Marta é vista também como um sinal de que a "agenda tem respaldo para sobreviver à transição entre as COPs".

Para Corrêa do Lago, o processo vai além de encontrar soluções imediatas.

“O roadmap é um processo. Há um momento em que países e empresas precisam se expressar sobre a agenda. O que me deixa satisfeito é justamente ver o crescimento dessas vozes”, acrescentou.

O que está em jogo na conferência da Colômbia

A conferência de Santa Marta deve reunir lideranças políticas e representantes subnacionais.

O governo colombiano espera contar, por exemplo, com a presença do governador da Califórnia, Gavin Newsom, que tem se posicionado como um dos principais opositores ao desmonte de políticas climáticas sob a liderança de Donald Trump nos EUA.

A lista dos 45 países confirmados revela uma aposta deliberada na diversidade. Ao lado de nações ricas e produtoras de petróleo — como Canadá, Noruega, Reino Unido e Austrália —, estão economias emergentes como Brasil, México e Angola, países europeus como Alemanha, França e Itália, e nações vulneráveis à crise climática, como as ilhas de Tuvalu, Vanuatu e Palau, que convivem com a ameaça concreta de desaparecimento pelo avanço do mar. 

Para a ministra da Colômbia, o encontro representa uma oportunidade sem precedentes de reunir ao mesmo tempo os mais vulneráveis e os mais responsáveis pelas emissões globais, visando criar condições para que avancem juntos em direção a acordos concretos.

"Apesar de nossas diferenças, todos os participantes concordam com a necessidade de priorizar a ciência e agir de forma urgente e coordenada", afirmou.

A missão, no fim, é simples de enunciar e difícil de executar: transformar o tabu em roteiro global e em ação coordenada entre os países.

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