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Apesar de liderar a expansão das renováveis, a China ainda depende fortemente do carvão: em 2025, foram 3,17 bilhões de toneladas queimadas. (Rawpixel.com/Freepik)
Editora ESG
Publicado em 7 de junho de 2026 às 18h00.
Última atualização em 7 de junho de 2026 às 18h15.
Uma mudança discreta na forma como a China mede o próprio progresso climático mascarou boa parte do crescimento recente de suas emissões, embora a quantidade real de gases lançada na atmosfera siga a mesma.
Segundo análise do Centro de Pesquisa em Energia e Ar Limpo (CREA), think tank sediada na Finlândia, o método com que o país contabiliza a intensidade de carbono deixou de fora cerca de metade do aumento de emissões verificado entre 2020 e 2025.
A diferença não é modesta: equivale a aproximadamente 700 milhões de toneladas de CO₂ por ano, volume próximo ao que Alemanha ou Coreia do Sul emitem anualmente.
O caso ganhou repercussão depois que o Financial Times noticiou a análise no fim de maio. O ponto de partida, porém, é um documento público: o esboço do 15º Plano Quinquenal chinês divulgado em março.
O documento foi combinado ao trabalho de pesquisadores que tentam entender, de fora, a fórmula exata com que calcula a intensidade de carbono - algo que a potência asiática nunca explicou abertamente.
Sem acesso a essa fórmula, os analistas do CREA precisaram deduzi-la a partir dos resultados oficiais, testando quais combinações de dados de emissões e de PIB reproduziriam os valores divulgados.
A intensidade de carbono relaciona a quantidade de CO₂ emitida a cada unidade de produção econômica, e foi a métrica que o país escolheu, há mais de uma década, para acompanhar o próprio avanço.
É também o que sustenta o compromisso assumido por Xi Jinping em 2021, de reduzi-la em 65% sobre os níveis de 2005 até 2030.
Por esse método, o índice havia caído 12,4% entre 2020 e 2025, o que já deixava o país longe de cumprir o que prometeu no Acordo de Paris. A nova contabilidade, no entanto, aponta uma queda de 17,7%.
A distância entre os dois números muda toda a leitura.
Como a intensidade mede emissões por unidade de PIB, a redução menor, combinada ao crescimento econômico, ainda significava uma alta de cerca de 13% nas emissões absolutas no período; a maior encolhe esse avanço para apenas 6%.
O que mudou foi o escopo: a definição revisada passou a incluir emissões de processos industriais e a excluir usos não energéticos dos combustíveis fósseis, como os destinados à indústria química.
Há um outro detalhe que torna o ajuste especialmente conveniente. A produção de cimento, uma das maiores fontes de emissões industriais do país, despencou junto com a crise do setor imobiliário chinês.
Ao trazer esse componente em queda para dentro da conta, a métrica passa a registrar uma melhora que reflete tanto a recessão quanto qualquer esforço deliberado de descarbonização.
Ainda assim, os próprios pesquisadores do CREA reconhecem que nem mesmo essa mudança de escopo explica a totalidade da revisão.
A conjuntura em que a polêmica eclode é particularmente sensível. A China construiu nos últimos anos uma reputação de liderança climática, apoiada numa indústria de renováveis em expansão acelerada e na eletrificação de boa parte de seus transportes.
Em um evento na Universidade Tsinghua, Simon Stiell, Secretário Executivo da Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, declarou que o país é "uma luz que guia" o multilateralismo climático".
Com diplomacia, Stiell acrescentou que mesmo assim, era preciso abandonar os combustíveis fósseis "mais e mais rápido" - uma ressalva que aponta para a contradição que sustenta toda a discussão. Apesar do avanço inegável em energia limpa, a China, como muitas nações, ainda depende fortemente do carvão para abastecer sua economia.
Em 2025, o país queimou 3,17 bilhões de toneladas de carvão.
E o 15º Plano Quinquenal, não somente não reafirma o objetivo anterior de reduzir combustíveis fósseis de forma gradual, como fala em "promover o pico" do combustível, abrindo mais espaço para a demanda crescente nos setores elétrico e químico.
"A mudança na definição de intensidade de carbono tem o efeito de enfraquecer as metas climáticas da China e de introduzir mais incerteza no acompanhamento do progresso", escreveu o CREA em sua análise do plano quinquenal, assinada pelos pesquisadores Lauri Myllyvirta e Belinda Schäpe.
O efeito prático da mudança aparece quando se olha para os compromissos futuros. O plano estabelece uma meta de corte de 17% na intensidade de carbono entre 2026 e 2030, patamar inferior aos 18% fixados no período anterior, que ficaram pelo caminho por larga margem.
Pela leitura do CREA, a meta permite que as emissões chinesas ainda cresçam de 3% a 6% até o fim da década, assumindo um avanço do PIB entre 4,5% e 5% ao ano.
Sem a revisão dos dados, cumprir essa mesma meta teria exigido uma queda de cerca de 2% nas emissões no período, em vez de permitir que crescessem.
A consequência mais delicada é diplomática. Com a nova régua, a nação asiática pode declarar que atingiu o pico de emissões antes de 2030, promessa central de sua política climática, mesmo com o volume real ainda em alta.
O compromisso, assim, é cumprido no papel mesmo sem se concretizar na atmosfera.
O CREA é cauteloso em sua avaliação. Em declarações ao Carbon Brief, Myllyvirta, que é analista-chefe do centro, ponderou que a potência asiática segue firme rumo a sua meta internacional para 2030, embora a revisão pareça oportunista.
Em suas palavras, "sem inventar números, a China escolheu a definição de intensidade de carbono que mais lhe convinha justamente quando precisava mostrar progresso, baixando, na prática, a própria régua".
Portanto, o pesquisador acredita que o questionamento mais defensável não seria de que o país falsificou números, e sim que trocou a métrica sem tornar o método público nem submetê-lo a verificação externa - uma nuance no qual se apoia a resposta chinesa.
Tanto a imprensa estatal, quanto analistas alinhados ao governo rebatem as acusações com o argumento de que revisar inventários de emissões de forma retroativa é prática corrente no mundo todo.
Por exemplo, a agência ambiental dos Estados Unidos (EPA) recalcula suas estimativas todos os anos para incorporar dados melhores, sem que isso jamais seja classificado como suspeito.
De fato, ao menos desde o Acordo de Paris, todos os países revisam suas séries históricas conforme refinam metodologias, algo previsto e permitido pelo Marco de Transparência Reforçada da ONU.
A diferença é que Estados Unidos e União Europeia submetem inventários auditáveis às diretrizes do IPCC, abertos à avaliação de pares. Já a conta chinesa não passa pelo mesmo procedimento.
A controvérsia se insere num histórico mais amplo de erosão da transparência estatística chinesa. Em 2018, o governo deixou de publicar o detalhamento por setor do investimento em ativos fixos e reduziu totais históricos de crescimento. Seguiu divulgando o montante investido, mas sem mostrar como ele se distribuía pela economia.
Três anos depois, descontinuou uma série de preços que economistas usavam para ajustar a inflação. Em 2023, interrompeu a divulgação dos dados de desemprego entre jovens, retomada meses depois sob uma metodologia que trazia números menos alarmantes.
Isoladamente, cada episódio pode ter justificativa técnica. Juntos, tornam a checagem de dados oficiais, do clima à economia, cada vez mais dependente de estimativas independentes e de suas margens de erro
A qualidade dos dados do maior emissor do mundo não é uma questão doméstica. O Acordo de Paris se apoia na premissa de que cada país mede e relata suas emissões de forma comparável e verificável.
Quando a métrica do principal poluidor global se torna nebulosa, fica mais difícil para todos saber se o mundo avança de fato para conter o aquecimento.
Os impactos são também comerciais. Desde 1º de janeiro de 2026, a fase definitiva do Mecanismo de Ajuste de Carbono na Fronteira da União Europeia (o CBAM, na sigla em inglês) exige que importadores comprem certificados atrelados ao preço do carbono no bloco.
Assim, a contabilidade de emissões de cada país de origem deixou de ser só um indicador ambiental e virou uma linha concreta na conta das exportações.
A boa notícia é que a transparência tende a ser maior. O SEEG, sistema de estimativas do Observatório do Clima, recalcula toda a série histórica a cada ano e a publica de forma aberta e reproduzível - a entidade prefere até falar em "coleções de dados" para deixar claro que o conjunto inteiro muda quando a metodologia melhora.
Em 2024, as emissões brutas do país caíram 16,7%, a segunda maior queda desde 1990, puxada pelo recuo do desmatamento. As emissões por queimadas sem ligação com o desmatamento, cerca de 241 milhões de toneladas de CO₂ equivalente, não entram no inventário oficial, embora sejam estimadas à parte.
Foi a primeira vez que esse volume quase igualou tudo o que o uso da terra emitiu em termos líquidos. Ou seja, o que fica de fora da conta pode ser tão grande quanto o que entra.
A diferença para a China, porém, está na transparência. No Brasil, o critério é público e auditável, e o que entra na conta se decide à vista de todos.
É essa transparência que a revisão chinesa põe em xeque, e a razão pela qual a forma de medir, e não só o número medido, está no centro do debate climático global.