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Accor faz check-in em nova fase de sustentabilidade com metas para 580 hotéis

Programa Hosting Change reúne metas de descarbonização, alimentação saudável, diversidade e impacto na cadeia de suprimentos para unidades próprias, administradas e franqueadas

Accor: rede envolve proprietários, fornecedores e hóspedes para transformar compromissos ambientais em práticas operacionais

Accor: rede envolve proprietários, fornecedores e hóspedes para transformar compromissos ambientais em práticas operacionais

Letícia Ozório
Letícia Ozório

Repórter de ESG

Publicado em 13 de julho de 2026 às 14h53.

Última atualização em 13 de julho de 2026 às 15h52.

Uma nova iniciativa da Accor vai concentrar, acelerar e dar escala aos programas ambientais e sociais já adotados na rede de hotéis e hospedagens. Batizada de Hosting Change, ou Hospedando Mudanças, a estratégia estabelece o roteiro de sustentabilidade da companhia entre 2026 e 2030 e deverá orientar operações próprias, unidades administradas e franquias.

O desafio passa por levar o modelo para além da rede própria: a maior parte dos hotéis da Accor pertence a investidores, incorporadoras ou proprietários individuais, enquanto cerca de metade do portfólio opera por franquia. Só nas Américas, são aproximadamente 580 hotéis entre marcas econômicas e empreedimentos dos segmentos premium, luxo e lifestyle.

“É importante que cada hotel consiga transformar sustentabilidade em algo que faça parte das novas incorporações e de todos os tipos de parceiros”, afirma Antonietta Varlese, vice-presidente sênior de sustentabilidade, comunicação e relações institucionais da Accor Américas, em entrevista à EXAME.

Na prática, isso significa que metas de consumo de água, energia, resíduos e emissões precisam ser aplicadas a unidades com estruturas societárias e operacionais diferentes. A estratégia também deve alcançar hotéis antigos, nos quais intervenções ambientais podem exigir reformas, troca de equipamentos e negociação com os proprietários.

A tarefa busca resolver um problema da área de hotelaria: mundialmente, o setor é responsável por emitir cerca de 260 milhões de toneladas de CO2 por ano, de acordo com um relatório da ONU Turismo, ou seja, cerca de 1% das emissões globais. Cerca de 70% dessas emissões derivam da produção, transporte e descarte dos bens e serviços consumidos pelos hóspedes, ou seja, na cadeia de valor.

O Hosting Change foi organizado em quatro frentes: preparação dos hotéis para uma operação de menor impacto; políticas para trabalhadores e futuros profissionais; experiência dos hóspedes; e relacionamento com fornecedores, comunidades e outros parceiros.

A proposta não parte do zero. Segundo Varlese, iniciativas ambientais acompanham a operação da Accor no Brasil desde a chegada da companhia ao país, há 50 anos. Em uma das ações mais conhecidas, a rede já incentivava hóspedes a reutilizarem toalhas e destinava parte dos recursos economizados ao reflorestamento de áreas como a Serra da Canastra, no sudoeste de Minas Gerais. Ao todo, mais de 600 mil mudas nativas já foram plantadas a partir dessa iniciativa.

Com o avanço das exigências regulatórias e da divulgação de informações ESG, essas iniciativas passaram a ser tratadas de forma mais coordenada. A vice-presidente conversou com a EXAME e contou mais sobre as metas e avanços dentro da estratégia e como a multinacional trabalha para dar escala à sustentabilidade sem impactar a experiência do cliente.

Redução de água e emissões

Em 2025, os hotéis gerenciados pela Accor nas Américas reduziram em mais de 5 mil toneladas suas emissões de dióxido de carbono equivalente em comparação com 2024. No mesmo período, o consumo de água por quarto ocupado caiu 6,8%, acima da meta regional de 4% e o melhor desempenho entre todas as regiões do grupo.

Segundo Antonietta Varlese, os resultados refletem uma estratégia que passou a ser incorporada ao dia a dia da operação dos hotéis. "Continuamos com metas bastante agressivas, tanto de descarbonização quanto na agenda social. O Hosting Change organiza tudo o que já fazíamos e estabelece entregas técnicas e KPIs até 2030", afirma.

A redução depende tanto de mudanças de comportamento quanto da substituição de equipamentos. Entre essas ações, a Accor mantém uma campanha interna chamada Race to Reduce, que incentiva hotéis a revisar equipamentos, sistemas hidráulicos e consumo energético.

"A corrida passa por campanhas internas, mas também por decisões de compra. Impacta a escolha de equipamentos, chuveiros e torneiras para reduzir a vazão sem comprometer a experiência do hóspede", diz a executiva.

Atualmente, 90% dos hotéis nas Américas utilizam uma ferramenta de gestão que monitora indicadores de água, energia, combustíveis e desperdício de alimentos. Essas informações também passaram a ser utilizadas na relação com clientes corporativos. "Hoje, quando um cliente faz um processo de solicitação de proposta, conseguimos capturar esses dados e apresentar as informações ambientais do hotel. Isso acaba sendo um fator competitivo para a rede", afirma Varlese.

Certificação chega a 150 hotéis

Nas Américas, 150 hotéis da Accor possuem certificações como Green Key, Hoteles Más Verdes e Sello S, concedidas por organizações independentes que verificam práticas de gestão ambiental. Para Varlese, os selos ajudam a traduzir para o consumidor um trabalho que nem sempre é visível.

"É uma forma de provar para a sociedade que aquele hotel tem práticas avançadas de sustentabilidade. Quando ele aparece em plataformas como o Booking.com com o selo de hotel sustentável, o hóspede consegue identificar isso no momento da reserva", conta.

Segundo a empresa, uma pesquisa realizada com o Booking.com mostrou que mais de 43% dos viajantes já procuram hospedagens com atributos ligados à sustentabilidade.

Além das certificações, 84% dos hotéis da região eliminaram cerca de 77 itens de plástico de uso único. As mudanças incluem a substituição de embalagens individuais de amenities por dispensadores fixos, como ao acoplar o shampoo e o condicionador ao banheiro ao invés de fornecer miniaturas plásticas.

O trabalho ainda inclui alternativas para o fornecimento de água aos hóspedes, como filtros de água para que abasteçam suas garrafas e evitem usar novas garrafas plásticas. Grande parte dessas iniciativas ocorre nos bastidores da operação, envolvendo compras, gestão de resíduos e processos internos.

Redução da poluição plástica: Accor prioriza o uso de shampoos, condicionador e loções acoplados na parede ao invés de distribuir embalagens de uso único

Energia renovável e cadeia de fornecedores

A estratégia também envolve mudanças na cadeia de suprimentos. Por meio da plataforma de compras Astore, fornecedores são avaliados com base em critérios relacionados a direitos humanos, emissões e práticas ESG. Segundo a companhia, 98% dos fornecedores globais já possuem avaliação da EcoVadis.

Em 2025, a plataforma também apoiou a contratação de energia proveniente de fontes renováveis para 150 hotéis da rede no Brasil. Para Varlese, a agenda ambiental passou a ser uma questão operacional e financeira. "Sustentabilidade também precisa fazer parte do negócio. Os investidores querem retorno, mas ela melhora a operação dos equipamentos, o que evita custos. Quando reduzimos desperdício, reduzimos custo. Lixo também é dinheiro", afirma.

A vice-presidente afirma que a compra de energia no mercado livre pode representar um desembolso inicial maior, mas gera ganhos de eficiência ao longo do tempo e também se tornou um diferencial para clientes corporativos que precisam reportar suas emissões.

Desperdício de alimentos vira meta operacional

A alimentação é uma das principais frentes da estratégia ambiental da Accor. A meta global é reduzir em 70% o desperdício de alimentos até 2030. Hoje, mais de 2.300 hotéis da rede monitoram esse indicador no mundo. Nas Américas, quase metade das unidades já faz esse acompanhamento de forma estruturada.

Segundo Varlese, reduzir desperdício também melhora o desempenho financeiro da operação. "Se mexermos no buffet, vai ter redução do desperdício e redução no custo dos alimentos. A gente trabalha junto com os chefs para criar novos pratos e aproveitar melhor os ingredientes."

A companhia também pretende ampliar a participação de refeições plant-forward, ou seja, em que vegetais ocupam a maior parte do prato. A meta é que 35% dos pratos servidos até 2030 sigam esse conceito. Além da reformulação dos cardápios, a rede passou a reorganizar a disposição dos alimentos nos bufês.

"Aplicamos uma estratégia visual em que frutas e pratos à base de plantas ficam na frente do buffet. As pessoas acabam escolhendo esses alimentos primeiro. É uma forma de incentivar uma alimentação mais saudável sem retirar opções", afirma.

Antonietta Varlese, Sênior Vice-presidente de Sustentabilidade, Comunicação e Relações Institucionais Accor Américas: "Quando reduzimos desperdício, reduzimos custo. Lixo também é dinheiro"

No Brasil, a empresa também prepara um projeto-piloto para digitalizar a medição do desperdício de alimentos nas cozinhas.

Sustentabilidade sem reduzir o conforto

A Accor afirma que um dos aprendizados ao longo dos últimos anos foi a importância de explicar aos hóspedes o motivo das mudanças operacionais. Segundo Varlese, a reação inicial ao programa de reutilização de toalhas ilustra esse desafio.

"Quando lançamos o projeto das toalhas, muita gente achou que era apenas economia de dinheiro. Depois explicamos que a economia de água ajudava a financiar o reflorestamento da Serra da Canastra. Quando o cliente entende o motivo, ele não critica. Pelo contrário, valoriza mais."

A companhia procura reduzir a comunicação visual dentro dos hotéis, concentrando essas informações nos canais digitais e no programa de fidelidade ALL, que oferece pontos para hóspedes que optam por dispensar a limpeza diária do quarto.

Outra mudança envolve a redução da vazão da água. "Quando o hóspede abre a torneira e percebe uma vazão menor, ele quer entender por quê. Quando sabe que existe um projeto por trás daquilo, a percepção muda."

Metas sociais entram no plano

Além das metas ambientais, o Hosting Change incorpora objetivos ligados à diversidade, direitos humanos e desenvolvimento de pessoas. A Accor afirma empregar mais de 400 refugiados e estabeleceu como meta superar 53% de mulheres na gerência de hotéis.

Segundo Varlese, uma das diferenças da estratégia atual é que os indicadores deixaram de ser exclusivos da área de sustentabilidade. "Todo mundo tem metas de ESG na performance. Isso é importante porque faz com que todas as áreas participem da estratégia", explica.

A companhia também prepara uma parceria com o Instituto Mbappé para capacitar 20 mil jovens em diferentes países. O Brasil foi um dos escolhidos para receber o projeto-piloto, que será lançado em outubro em parceria com a Unibes.

Internamente, a empresa criou ainda o programa ESG Lovers, que reuniu cerca de 200 colaboradores interessados em aprofundar conhecimentos sobre sustentabilidade.

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