Comportamento humano: pesquisa traz novas pistas sobre as origens evolutivas da violência (Freepik)
Redatora
Publicado em 12 de outubro de 2026 às 11h00.
A violência humana pode ter uma história evolutiva mais complexa do que se imaginava. Um estudo com 100 espécies de primatas encontrou pouca relação entre formas moderadas de agressão e comportamentos letais.
Espécies que se envolvem frequentemente em conflitos cotidianos, por exemplo, não apresentaram necessariamente maior propensão a matar indivíduos da mesma espécie. A pesquisa foi conduzida por cientistas da Universidade de Lincoln, no Reino Unido. Os resultados foram divulgados na revista científica Evolution Letters.
Algumas teorias sobre as origens da violência consideram a agressividade uma característica comportamental ampla. Nessa perspectiva, espécies com maior frequência de brigas e disputas também tenderiam a apresentar níveis elevados de violência letal.
Os resultados do novo estudo não encontraram esse padrão. A análise mostrou que níveis elevados de agressão moderada não estavam necessariamente associados a uma frequência maior de mortes de competidores.
Comportamentos extremos, como ataques fatais contra adultos e infanticídio, apresentaram padrões evolutivos próprios. Segundo os pesquisadores, diferentes formas de agressão podem surgir em resposta a pressões sociais e evolutivas distintas.
Os pesquisadores compararam cinco formas de agressão intraespecífica, ou seja, conflitos entre indivíduos da mesma espécie. A análise incluiu comportamentos que variavam de confrontos moderados até violência letal.
Diferentes formas de agressão fatal apresentaram associação moderada entre si. A relação entre violência letal e agressão leve, porém, foi pequena. O resultado sugere que os dois grupos de comportamento podem ter seguido caminhos evolutivos distintos.
Segundo os autores, os mecanismos evolutivos relacionados à violência letal podem ser diferentes dos associados aos conflitos cotidianos.
As descobertas questionam modelos que classificam espécies segundo uma propensão geral à agressividade. Para Bonaventura Majolo, professor de Evolução Social da Universidade de Lincoln e líder do estudo, os resultados apontam para padrões mais complexos.
Segundo Majolo, tratar diferentes comportamentos agressivos como manifestações de uma única característica pode ser biologicamente impreciso. "Compreender as raízes evolutivas da violência é importante não só para a biologia, mas também para a forma como pensamos sobre o comportamento humano", disse o pesquisador.
A pesquisa também acrescenta evidências ao debate sobre as origens da violência humana. Antropólogos e biólogos evolutivos discutem há décadas quanto desse comportamento está relacionado à história evolutiva e quanto depende de fatores sociais e culturais.
Os novos resultados não demonstram que fatores evolutivos estejam ausentes da violência humana. A análise indica que conflitos moderados e violência letal não devem ser tratados automaticamente como diferentes intensidades de um mesmo comportamento.