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Terça da Serra: rede quer mudar a forma como os brasileiros vivem depois dos 80 anos

Criada em 2014, rede de residenciais para idosos com 'jeitinho de interior' já conta com 124 unidades em operação

Terça da Serra: negócio busca criar habitação com 'jeitinho' de interior para idosos acima dos 80 anos, incluindo atividades como horta, redário e cursos de teatro e cozinha

Terça da Serra: negócio busca criar habitação com 'jeitinho' de interior para idosos acima dos 80 anos, incluindo atividades como horta, redário e cursos de teatro e cozinha

Letícia Ozório
Letícia Ozório

Repórter de ESG

Publicado em 12 de outubro de 2026 às 08h00.

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Quando o avô da médica Joyce Duarte Caseiro Moraes foi diagnosticado com Alzheimer, em 2010, a família fez o que muitas fazem diante da necessidade de cuidado: reorganizou a própria rotina.

A mãe de Joyce deixou outras atividades de lado para acompanhar o pai. “Eu vi a minha mãe envelhecer dez anos em um período de seis meses”, diz Joyce.

Ela decidiu procurar uma casa para idosos onde o avô pudesse morar e receber os cuidados de que precisava. Visitou instituições na região de Campinas e em São Paulo, mas não encontrou nenhuma que, na visão dela, se parecesse de fato com um lar.

As ILPIs, sigla para instituições de longa permanência para idosos, que Joyce conheceu funcionavam, segundo ela, em uma lógica concentrada principalmente em quartos e banheiros. Faltavam ambientes e rotinas que lembrassem a vida que o avô havia levado até ali.

“Eu queria fazer uma casa para o meu avô do jeito que ele sempre gostou de morar, com um cantinho para ele ler o jornal, uma horta. Ele sempre morou no interior, em casas com aquele cheirinho do café da tarde passado na hora”, afirma.

Em 2014, Joyce e o marido, Pedro de Senzi Moraes, abriram em Jaguariúna, no interior de São Paulo, a primeira unidade do Terça da Serra, negócio focado no acolhimento de idosos acima dos 80 anos. A casa começou com 14 leitos. A proposta era combinar cuidados de longa permanência com uma estrutura menor, mais próxima da dinâmica de uma residência.

Joyce Duarte Moraes e Pedro Moraes, fundadores da Terça da Serra, e do Hospital de transição Revitare

Joyce Duarte Moraes e Pedro Moraes, fundadores da Terça da Serra, e do Hospital de transição Revitare (Divulgação/Divulgação)

Segundo Joyce, a unidade atingiu a capacidade em menos de um mês. A procura levou o casal a ampliar o espaço em Jaguariúna e, depois, abrir uma operação em Campinas.

O negócio começou a ganhar outra escala quando médicos conhecidos do casal passaram a perguntar se poderiam levar o modelo para cidades como Belém e Florianópolis. Foi nesse momento que os fundadores decidiram adotar o sistema de franquias.

A preocupação, segundo eles, era crescer mantendo protocolos, processos e o mesmo padrão de atendimento.

Doze anos depois, a empresa afirma ter 160 unidades na rede, das quais 124 estão abertas, cerca de 3 mil moradores e presença em 24 estados, e as demais em construção. A meta agora é chegar a 500 unidades.

De negócio familiar a operação profissionalizada

A expansão também mudou a gestão. Pedro, economista e contador, acompanhava a empresa enquanto mantinha outras atividades profissionais. A virada aconteceu quando um fundo de investimento entrou no negócio.

A partir dali, ele deixou as demais funções e passou a se dedicar integralmente ao Terça da Serra, com foco principalmente na gestão financeira e na estruturação da operação.

A entrada do fundo também marcou uma etapa de profissionalização em um setor que, segundo os executivos, ainda é bastante pulverizado. Pedro estima que existam hoje mais de 10 mil instituições de longa permanência no Brasil. O número, porém, não é preciso.

Ele cita levantamentos realizados durante a pandemia, quando a situação dos idosos institucionalizados ganhou maior visibilidade, que apontavam cerca de 8 mil instituições. Segundo ele, aproximadamente 80% eram públicas ou filantrópicas.

A parcela privada, portanto, ainda representaria uma fração menor do mercado. A pandemia também expôs outro problema: a dificuldade de mapear um setor que por anos funcionou com pouca padronização.

Para ele, a falta de regras mais detalhadas e de segmentação ajuda a explicar por que o mercado brasileiro ainda reúne sob uma mesma categoria perfis muito diferentes de idosos e de necessidades de cuidado.

Um mercado que envelhece junto com a população

O avanço do negócio acontece enquanto a própria estrutura etária do país muda. O Brasil já tem 36,6 milhões de pessoas com 60 anos ou mais, segundo dados do Ministério da Saúde. Nas próximas duas décadas, esse contingente deve chegar a 61,5 milhões.

O aumento da população idosa amplia a chamada economia prateada, conjunto de produtos e serviços voltados principalmente às pessoas com mais de 50 anos.

No caso do Terça da Serra, o cliente direto costuma estar em uma faixa etária ainda mais alta. A idade média dos moradores da rede está acima dos 80 anos, e cerca de 70% são mulheres, segundo a empresa.

Pedro faz uma distinção: muitas vezes, quem toma a decisão e paga pelo serviço são os filhos, que estão justamente dentro do grupo de consumidores com mais de 50 anos.

O envelhecimento, porém, não significa necessariamente dependência. Joyce divide esse público em diferentes perfis. Há pessoas que chegam à velhice com autonomia e vida social ativa. Outras continuam independentes, mas preferem deixar casas grandes e migrar para espaços menores. E há aquelas que passam a depender de ajuda para atividades do cotidiano.

É principalmente nesse último grupo que a rede atua.

Famílias menores mudam a conta do cuidado

Para os executivos, a oportunidade de mercado não vem apenas do crescimento da população idosa. Ela aparece também na mudança da estrutura familiar.

Durante décadas, o cuidado de pais e avós ficou concentrado dentro de casa, muitas vezes sob responsabilidade das mulheres.

Foi o que aconteceu com a mãe de Joyce. Pedro também conta que sua mãe assumiu os cuidados da própria avó. Esse modelo, segundo ele, começa a mudar.

“As famílias estão cada vez menores. A mulher está no mercado de trabalho, está em posições de liderança e não vai ser necessariamente a responsável por cuidar da tia, da avó, de todo mundo que precisa de cuidado”, diz.

A transformação aparece também nas conversas com familiares dos moradores. Pedro afirma que escuta cada vez mais uma pergunta de filhos que ajudam a pagar a residência dos pais: se eles próprios poderiam começar a contribuir antecipadamente para garantir uma vaga no futuro.

A lógica é simples. Uma mãe pode ter quatro filhos dividindo a conta da sua habitação. Na geração seguinte, aquele adulto pode ter apenas um filho ou nenhum.

Para a empresa, esse tipo de preocupação indica uma mudança de comportamento.

Terça da Serra: unidades contam com atividades do interesse dos idosos que lá residem, como xadrez, aulas de teatro e culinária

De última opção a alternativa planejada

Quando a primeira unidade abriu, em 2014, Joyce diz que a casa de repouso ainda costumava ser vista como última alternativa. “Eles vinham com grau de dependência muito alto porque a família trazia para dentro da casa de repouso como última alternativa”, afirma.

Hoje, segundo ela, o perfil começa a mudar. A rede passou a receber também pessoas com maior autonomia, algumas delas procurando uma unidade por conta própria.

Para a fundadora, essa mudança mostra que o serviço começa a entrar mais cedo nas decisões sobre envelhecimento.

Na avaliação de Pedro, o mercado brasileiro ainda oferece poucas alternativas entre morar sozinho e precisar de cuidados de saúde mais intensivos. Ele resume o cenário em três opções principais: a casa da própria pessoa, uma instituição de longa permanência e o hospital.

Alguns hospitais de transição começam a ocupar um espaço intermediário. Essas instituições recebem, por exemplo, pessoas que sofreram um AVC, tiveram uma queda ou passaram por cirurgia e precisam de fisioterapia, reabilitação e apoio para retomar atividades do dia a dia antes de voltar para casa.

O grupo também atua nesse segmento e mantém uma operação do tipo em Campinas. Nos Estados Unidos e em países europeus, dizem os executivos, há um número maior de categorias de moradia e cuidado.

 

Pedro cita condomínios para idosos independentes, moradias assistidas e nursing homes, residências voltadas a pessoas que necessitam de cuidados mais intensos, entre outros formatos.

Segundo ele, alguns mercados chegam a ter sete ou oito níveis diferentes entre a vida totalmente independente e o cuidado especializado.

Joyce afirma que, em visitas ao exterior, percebeu também uma especialização por condição de saúde, com casas específicas para pessoas com Alzheimer ou Parkinson, por exemplo. “No Brasil, ainda estamos traçando esse caminho agora”, diz.

A casa também precisa mudar

O envelhecimento coloca pressão não só sobre os serviços de cuidado, mas sobre a própria moradia.

Na Grande São Paulo, Pedro observa um mercado imobiliário cada vez mais concentrado em apartamentos pequenos, alguns difíceis de adaptar para alguém que utiliza cadeira de rodas, bengala ou andador.

No interior, a dificuldade pode ser oposta. Em cidades como Jaú e São Carlos, diz ele, há idosos vivendo em casas grandes, muitas vezes no centro da cidade, que já não conseguem ou não querem administrar sozinhos a manutenção do imóvel e do jardim.

As diferenças culturais também aparecem dentro das residências da rede. Em Fortaleza, por exemplo, uma unidade ganhou um redário porque a equipe identificou que o hábito de usar redes fazia parte da rotina dos moradores.

As casas também seguem princípios de geroarquitetura, área voltada ao planejamento de ambientes considerando características da longevidade.

Segundo Joyce, isso inclui espaço para circulação de cadeiras de rodas e andadores, iluminação que evite sombras excessivas e escolhas de cores que não provoquem maior agitação em pessoas com demência.

A rotina não pode ser igual para todos

A empresa também tenta evitar que todos os moradores sejam submetidos à mesma programação. A rotina é construída a partir dos interesses de quem vive em cada unidade.

Há casas onde os moradores preferem teatro. Em outras, as atividades incluem xadrez, crochê, culinária, música ou cinema.

Para chegar a essa programação, a equipe entrevista tanto o idoso quanto familiares e procura reconstruir parte da história de vida daquela pessoa.

“Temos uma rotina básica porque o idoso gosta de saber o que vai acontecer. Mas cada idoso tem uma história diferente, com gostos diferentes”, diz Joyce.

Isso significa também preservar escolhas que nem sempre combinam com a visão tradicional sobre envelhecimento.

Pedro lembra de uma excursão de moradores de unidades paulistas a um McDonald’s. Quando a empresa publicou imagens da visita nas redes sociais, recebeu críticas pela escolha da alimentação.

Segundo ele, os moradores têm acompanhamento nutricional e o passeio não fazia parte da rotina diária. “Tem 80, 85 anos e não pode comer fast food um dia?”, questiona.

Para os fundadores, a reação mostra como o envelhecimento ainda costuma ser associado à ideia de doença e perda de autonomia.

Espaços contam com no máximo 50 idosos por unidades, o que garante o bem-estar de todos

Uma mensalidade média de R$ 8 mil

O custo do serviço também delimita o tamanho do mercado privado. A mensalidade média da rede para uma acomodação dupla é de cerca de R$ 8 mil.

Em São Paulo, os valores começam na faixa de R$ 9,5 mil a R$ 10 mil. A empresa afirma que há diferenças importantes entre cidades e regiões.

Segundo Joyce, o pagamento inclui alimentação, cuidados e atividades oferecidas pela casa. Os executivos argumentam que a comparação precisa considerar o custo total de manter um idoso dependente em casa. Nessa conta entram alimentação, água, luz, manutenção do imóvel, limpeza e, principalmente, a contratação de cuidadores.

Há ainda um custo menos visível: o tempo de familiares que deixam ou reduzem o trabalho para assumir os cuidados.

Outros negócios dentro da longevidade

A estratégia de crescimento já começa a ultrapassar as instituições de longa permanência.

No ano passado, o grupo investiu em uma empresa de centros de convivência para idosos independentes, que hoje soma cerca de 20 unidades, segundo Pedro.

A lógica é atender um público que não precisa necessariamente de ajuda física. Em muitos casos, afirma ele, o principal problema é a solidão. São pessoas que perderam o marido ou a esposa, continuam independentes e moram sozinhas, mas procuram espaços para passar parte do dia e conviver com outras pessoas.

Para Pedro, serviços desse tipo mostram como o mercado de longevidade tende a se dividir em diferentes nichos.

Se a projeção de 61,5 milhões de brasileiros com 60 anos ou mais se confirmar nas próximas duas décadas, porém, a demanda tende a crescer muito além das casas voltadas aos mais dependentes.

Para o casal, a aposta é justamente essa: o envelhecimento brasileiro não vai criar apenas mais idosos. Vai criar diferentes formas de morar, receber cuidado e organizar a vida por mais tempo.

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