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Com ou sem obrigatoriedade IFRS, a fronteira da transição climática é a implementação

Para pequenas e médias empresas, o desafio passa por reduzir custos, organizar dados e transformar exigências de transparência climática em capacidade competitiva

Transição climática entra em fase de implementação, com pressão crescente por dados comparáveis, transparência e capacidade técnica das empresas. (Getty Images)

Transição climática entra em fase de implementação, com pressão crescente por dados comparáveis, transparência e capacidade técnica das empresas. (Getty Images)

Publicado em 11 de outubro de 2026 às 16h00.

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*Por Linda Murasawa 

A transição climática continua avançando, mas entrou em uma nova etapa. Depois de anos dedicados à construção de metas, padrões e compromissos, o desafio agora é aguçar a capacidade de desenvolver e implementar soluções.

Essa mudança de foco é especialmente relevante para o Brasil. A recente revogação da Resolução CVM 244 expôs uma realidade conhecida por quem acompanha a agenda de sustentabilidade corporativa: muitas empresas brasileiras ainda não dispõem da estrutura necessária para atender, no prazo previsto, aos padrões internacionais IFRS S1 e IFRS S2.

No entanto, a decisão não reduz a importância da transparência climática — que continuará sendo demandada por investidores, cadeias globais de valor e instituições financeiras —, mas evidencia que a implementação ainda representa um desafio técnico e econômico para parte relevante do mercado.

Essa demanda por transparência está diretamente relacionada à necessidade de padronização das informações. Se o cenário atual é de assimetria informacional, com a implementação dos padrões IFRS S1 e IFRS S2, os investidores alcançam a comparabilidade necessária entre empresas, setores e jurisdições.

Enquanto o IFRS S1 orienta a divulgação de riscos e oportunidades de sustentabilidade capazes de afetar o fluxo de caixa, acesso a financiamento e custo de capital, o IFRS S2 aprofunda especificamente os aspectos relacionados ao clima.

Sem unificar essa linguagem, cada empresa tende a utilizar métricas, escopos e metodologias distintas, dificultando a avaliação da materialidade financeira e reduzindo a comparabilidade entre organizações.

A discussão, portanto, não deveria se limitar ao ritmo da regulação. A pergunta mais importante é como tornar a transição climática economicamente viável para empresas de diferentes portes. Os compromissos só nos levam para uma economia de baixo carbono quando se tornam concretos.

Estudos conduzidos pelo Climate Finance Hub estão investigando a fronteira da transição climática atual e apontam que, para uma pequena ou média empresa brasileira, o custo mínimo para elaborar um primeiro relatório de sustentabilidade pode alcançar aproximadamente R$ 94 mil, chegando a cerca de R$ 200 mil em um ciclo de três anos.

O cálculo considera um cenário conservador, baseado em esforço interno, inventário de emissões e processos essenciais de governança e reporte, sem considerar plataforma dedicada e sem assegurar conformidade integral com CBPS/ISSB.

Mais de 80% desse valor corresponde ao esforço técnico interno necessário para organizar dados, estruturar processos de governança, reunir evidências e avaliar riscos climáticos.

Ao mesmo tempo, optar por não divulgar essas informações também tem consequências. Empresas que deixam de reportar podem perder comparabilidade em relação a concorrentes que adotam os padrões internacionais, encontrar maior dificuldade para demonstrar a gestão de riscos climáticos e socioambientais e, em alguns casos, enfrentar um custo de capital mais elevado caso o mercado interprete essa ausência como menor transparência.

Além disso, a falta de reporte não elimina os riscos: eventos climáticos, mudanças regulatórias, pressões das cadeias de valor e exigências de financiadores continuarão afetando o desempenho dos negócios.

Os dados revelam que o principal obstáculo não está na tecnologia nem nos padrões internacionais, mas na capacidade organizacional das empresas.

Se o custo está concentrado na produção das informações, ampliar exigências regulatórias, por si só, dificilmente resolverá o problema. A agenda da implementação exige reduzir custos, simplificar processos e ampliar a capacidade técnica das organizações.

Esse desafio torna-se ainda mais evidente quando observamos as emissões de Escopo 3. Sabemos que a próxima etapa da transição climática depende das cadeias de valor, colocando pequenas e médias empresas no centro da discussão.

É justamente por isso que o debate sobre Escopo 3 precisa evoluir. Não basta ampliar as solicitações de informações aos fornecedores.

É necessário construir uma infraestrutura capaz de permitir que os dados sejam produzidos uma única vez e reutilizados para diferentes finalidades, reduzindo retrabalho, aumentando a interoperabilidade e gerando benefícios também para quem produz essas informações.

A trajetória brasileira também aponta nessa direção. O país assumiu compromissos climáticos internacionais por meio de sua Contribuição Nacionalmente Determinada (NDC) e vem estruturando instrumentos para viabilizar sua implementação, como o Plano Clima.

Esses marcos indicam que a agenda da transição climática permanece como uma política de longo prazo.

Esse cenário abre espaço para uma nova geração de soluções. Inteligência artificial, interoperabilidade entre bases de dados e metodologias capazes de avaliar a maturidade da transição climática podem reduzir significativamente o custo do reporte e aumentar sua qualidade.

Metodologias como a ACT (Assessing low-Carbon Transition), a TPT (Transition Plan Taskforce) e referenciais alinhados às recomendações da TCFD e aos padrões do ISSB ajudam empresas a compreender seu estágio de preparação, identificar riscos e oportunidades e direcionar investimentos para acelerar sua transição de maneira consistente.

O potencial dessa agenda é particularmente relevante para a indústria. O desafio não é apenas produzir e reduzir as emissões de carbono, mas demonstrar esse desempenho por meio de dados verificáveis, comparáveis e reutilizáveis ao longo das cadeias de valor.

Em setores como cimento, química e mineração, a competitividade dependerá cada vez mais da capacidade de demonstrar desempenho avesso ao risco climático com evidências robustas, especialmente em um contexto de maior exigência dos mercados internacionais.

O Brasil reúne condições importantes para liderar esse processo e parte do desafio atual é conectar capacidades para construir uma infraestrutura que reduza custos de relatório, aumente a qualidade das informações para transição climática e fortaleça a competitividade das empresas brasileiras.

Os debates internacionais mostram que a agenda climática não está retrocedendo. Ela está se tornando mais sofisticada.

Depois de anos dedicados à construção de compromissos, o diferencial competitivo passará a estar na capacidade de implementá-los com eficiência.

As soluções baseadas na ciência, o desenvolvimento das engenharias e o cruzamento com a economia verde vem trazendo a inovação necessária para seguirmos avançando na transparência e gestão dos riscos climáticos.

*Linda Murasawa é Coordenadora de engajamento do setor financeiro no Climate Finance Hub

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