Apesar das justificativas técnicas, especialistas apontam que o momento da repatriação coincide com um período de instabilidade nas relações comerciais entre Europa e Estados Unidos (evgeniibashta/Freepik)
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Publicado em 15 de abril de 2026 às 23h23.
O Banco Central da França (Banque de France) confirmou a conclusão de uma operação histórica: a retirada total de suas reservas de ouro que estavam sob custódia do Federal Reserve (Fed), em Nova York. Entre julho de 2025 e janeiro de 2026, a instituição executou a venda de 129 toneladas do metal precioso, encerrando décadas de armazenamento nos Estados Unidos.
A operação, realizada por meio de 26 transações pontuais, gerou um ganho de capital de US$12,8 bilhões. Segundo o banco central francês, os recursos foram imediatamente utilizados para a compra de novas barras de ouro, que agora estão integralmente armazenadas em cofres em Paris.
Oficialmente, o governo francês nega que o movimento tenha motivações políticas. O presidente do Banco Central, François Villeroy de Galhau, reiterou que a decisão é técnica e baseada em diretrizes de controle interno de 2024.
"Não se trata de um gesto geopolítico. O movimento atende a uma política de modernização e padronização iniciada em 2005", afirmou a instituição.
As barras armazenadas em Nova York datavam da década de 1920 e não possuíam o grau de pureza e o peso exigidos pelos padrões modernos do comércio internacional. Para a França, foi financeiramente mais vantajoso vender o estoque antigo em solo americano e recomprar metal novo na Europa do que arcar com os custos de refino e transporte transatlântico.
Apesar das justificativas técnicas, especialistas apontam que o momento da repatriação coincide com um período de instabilidade nas relações comerciais entre Europa e Estados Unidos. Segundo a agência de notícias Reuters, o movimento francês ocorre em meio a um fenômeno global: pela primeira vez desde 1996, os bancos centrais detêm mais ouro em suas reservas do que títulos da dívida pública americana (Treasuries).
A busca pelo metal reflete a desconfiança crescente no dólar, impulsionada por:
Dívida dos EUA: o aumento do endividamento americano gera temor sobre a solidez da moeda.
Inflação global: o ouro é utilizado como o principal hedge (proteção) contra a perda do poder de compra.
Tensões geopolíticas: países buscam controle físico de seus ativos para evitar sanções ou bloqueios internacionais.
Para André Novaes, assessor especial de geopolítica da Diretoria Internacional da Fundação Getulio Vargas (FGV), os fatores políticos podem ter sido considerados para a decisão do Banco Central francês.
"Como afirmado, tecnicamente houve uma troca de barras antigas por padrão internacional na Europa. Mas o timing escolhido pode esconder algo, como um hedge contra possíveis sanções americanas, similares às sofridas pela Rússia após a invasão da Ucrânia. Isso não pode ser desconsiderado", analisa Novaes.
“O ouro, neste mundo turbulento e incerto em que vivemos, tornou-se um ativo com mais segurança e suas sucessivas altas históricas, em 2025, indicam isso. No entanto, ainda não dá para afirmar que estamos entrando num mundo “pós-dólar”, mas sim num mundo de reservas híbridas, posto que a moeda americana continua sendo a coluna vertebral do sistema”, avalia o especialista.
A estratégia francesa se provou lucrativa. A venda ocorreu em um período de valorização recorde, com o ouro atingindo o pico histórico de US$5.595 por onça em janeiro de 2026. Mesmo com a correção subsequente para a casa dos US$4,7 mil, a França conseguiu maximizar seu ganho de capital, reforçando seu balanço nacional enquanto centraliza sua soberania monetária em Paris.
Até 2028, o país pretende concluir a padronização dos 5% restantes de seu estoque total que ainda precisam ser adequados às normas internacionais, garantindo que toda a reserva francesa seja composta por ativos de alta liquidez e custódia própria.