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Kevin Warsh e o futuro do Fed: inflação, política e independência em disputa

Indicado de Donald Trump à presidência do Federal Reserve tem histórico hawkish, já defendeu juros altos, agora admite cortes — e reacende debate sobre autonomia do banco central dos EUA

Kevin Warsh: ex-governador do Fed agora é indicado para presidir a entidade

Kevin Warsh: ex-governador do Fed agora é indicado para presidir a entidade

Rebecca Crepaldi
Rebecca Crepaldi

Repórter de finanças

Publicado em 15 de abril de 2026 às 05h00.

Em 2008, no auge da crise financeira global, o Federal Reserve (Fed, banco central dos Estados Unidos) respondeu com cortes agressivos de juros e um conjunto amplo de medidas emergenciais para conter o colapso de Wall Street e a deterioração rápida do mercado de trabalho nos Estados Unidos, relembra a Bloomberg em reportagem.

Kevin Warsh, então integrante do Conselho de Governadores do Fed, acompanhou a decisão de reduzir os juros, mas fez questão de registrar uma preocupação central com os riscos inflacionários. Ele afirmou: "Ainda não estou pronto para abandonar minhas preocupações com a inflação", em setembro daquele ano.

A partir daí, Warsh passou a ser identificado como um formulador de política monetária de perfil mais restritivo, com forte ênfase nos riscos de estímulos prolongados e na necessidade de preservar a estabilidade de preços mesmo em momentos de crise.

De crítico da política monetária a escolha de Trump

A indicação de Warsh por Donald Trump para comandar o Federal Reserve surpreendeu parte do mercado, justamente por seu histórico associado a uma postura mais dura em relação à inflação e mais cética quanto a cortes agressivos de juros.

Trump, ao longo de seu mandato, já defendeu publicamente reduções mais intensas das taxas — em alguns momentos chegando a sugerir cortes de até 3 pontos percentuais. Já sob Jerome Powell, o Fed adotou uma estratégia mais gradual e dependente de dados.

Nesse contexto, Warsh aparece com um discurso mais flexível do que no passado, admitindo espaço para cortes, mas condicionando esse movimento a dois fatores centrais: ajustes no balanço do Fed e ganhos de produtividade associados à inteligência artificial, aponta análise da Bloomberg.

O Federal Reserve opera sob um mandato duplo: garantir estabilidade de preços e promover o pleno emprego. Na prática, isso significa calibrar a taxa de juros para equilibrar atividade econômica e controle da inflação.

Um Fed dividido e a dificuldade de consenso

Mas, mesmo que Warsh assumisse a presidência, ele não teria poder individual para definir a política monetária, já que as decisões são tomadas de forma colegiada pelo Fomc, composto por 12 membros com direito a voto, em um processo no qual a construção de consenso é parte central da governança do Federal Reserve.

O quadro recente sugere alguma estabilidade, mas com sinais de divergência. Em março, o banco central manteve os juros inalterados pela segunda reunião consecutiva, com apenas um voto dissidente — de Stephen Miran, indicado por Trump.

Esse cenário reforça a leitura de que o papel do presidente depende menos de autoridade formal e mais de capacidade de articulação interna.

“Acho que algumas das preocupações sobre a independência do Fed são exageradas, porque o Fomc é um comitê”, disse David Beckworth à Bloomberg. Ele completa: “o presidente do Fed está entrando em um comitê que provavelmente está mais dividido do que nunca.”

Ainda assim, sua possível chegada ocorre em um ambiente de crescente tensão política. Trump já criticou publicamente o Fed, tentou remover a governadora Lisa Cook e questionou decisões de Jerome Powell, incluindo investigações relacionadas aos custos de reforma da sede da instituição — um episódio visto por Powell como tentativa de minar a independência do banco central.

Formação, Wall Street e visão econômica

Warsh chegou cedo ao centro do poder econômico dos EUA. Em 2006, aos 35 anos, foi nomeado por George W. Bush para o Conselho de Governadores do Fed, tornando-se o mais jovem integrante da instituição até então.

Antes disso, passou pela Casa Branca e pelo Morgan Stanley, experiência que ganhou relevância durante a crise de 2008, quando suas conexões com o mercado ajudaram o Fed a lidar com instituições financeiras em dificuldade.

Formado por Stanford e Harvard, Warsh também se aproximou de correntes mais críticas à política monetária expansionista, e mais tarde se vinculou à Hoover Institution, centro de pensamento de orientação mais conservadora.

Críticas ao Fed e defesa de uma agenda mais restrita

Após deixar o banco central em 2011, Warsh passou a se posicionar de forma mais aberta contra decisões do Fed, especialmente o uso recorrente de estímulos e a expansão prolongada do balanço patrimonial.

Ele também passou a questionar a atuação da instituição em áreas fora do núcleo tradicional de inflação e emprego.

Em sua visão, uma mudança estrutural na política monetária e regulatória teria efeitos amplos sobre a economia. "Uma reforma fundamental da política monetária e regulatória liberaria os benefícios da IA para todos os americanos", disse Warsh em um artigo de opinião publicado no Wall Street Journal em novembro.

"A economia ficaria mais forte. O padrão de vida seria mais alto. A inflação cairia ainda mais. E o Fed teria contribuído para uma nova era de ouro."

O balanço do Fed e a nova justificativa para cortes

Um dos pontos centrais da argumentação atual de Warsh é o tamanho do balanço do Federal Reserve, que ultrapassa US$ 6,6 trilhões — mais de sete vezes o nível observado antes da crise financeira de 2008.

Ele sustenta que a redução desse estoque de ativos abriria espaço para cortes de juros sem gerar pressões inflacionárias relevantes.

No entanto, essa leitura é contestada por economistas, que alertam para o risco de instabilidade nos mercados financeiros caso a redução ocorra de forma acelerada. Historicamente, o Fed não utilizou a venda de ativos em larga escala como instrumento ativo de aperto monetário.

Inteligência artificial e uma tese controversa

Outro argumento apresentado por Warsh para justificar a possibilidade de cortes de juros — de que a inteligência artificial estaria aumentando a eficiência dos trabalhadores e, assim, permitindo maior crescimento sem pressão inflacionária — também enfrenta críticas.

Bill Dudley, ex-presidente do Federal Reserve de Nova York, classificou esse raciocínio como “no mínimo especulativo” em artigo publicado na Bloomberg.

A leitura, porém, também é compartilhada por parte de assessores econômicos ligados ao governo Trump, que argumentam que a IA estaria elevando a produção da economia sem aumentar, na mesma proporção, os custos de produção.

Nesse enquadramento, os ganhos de eficiência lembrariam o movimento observado na década de 1990, quando a disseminação dos computadores e o avanço da internet impulsionaram um ciclo de forte aceleração da produtividade nos Estados Unidos.

Essa tendência foi identificada ainda à época pelo então presidente do Federal Reserve, Alan Greenspan. No entanto, mesmo reconhecendo o ganho de eficiência, Greenspan não utilizou esse fator como justificativa direta para cortes de juros.

Naquele período, o aumento da produtividade acabou permitindo que o Fed mantivesse a política monetária relativamente estável, sem necessidade de ajustes agressivos nas taxas.

Relação Fed–Tesouro e risco de interferência política

Em fevereiro, o secretário do Tesouro dos EUA, Scott Bessent, afirmou que o Federal Reserve poderia levar “pelo menos um ano” para definir a melhor forma de reduzir suas reservas, indicando a complexidade do processo de normalização do balanço do banco central.

O envolvimento de Bessent nas discussões sobre o Fed — incluindo entrevistas com todos os candidatos à presidência antes da escolha de Kevin Warsh por Donald Trump — não foge ao padrão tradicional de atuação de um secretário do Tesouro. Ainda assim, cresce a percepção de que a relação entre o banco central e o Tesouro pode se tornar mais próxima sob uma eventual gestão de Warsh.

Warsh defende revisar um acordo de cerca de 75 anos entre as duas instituições. O arranjo atual foi estabelecido em 1951, com o Acordo Tesouro-Fed, que separou a gestão da dívida federal, sob responsabilidade do Tesouro, das decisões de política monetária do Federal Reserve, após um período em que o banco central comprava títulos do governo para manter juros baixos durante a Segunda Guerra Mundial.

Na visão de Warsh, esse arcabouço já não reflete a realidade atual. Em discursos recentes, incluindo uma fala em 2025, ele argumentou que as compras de títulos pelo Fed após a crise financeira acabaram criando um sinal implícito de apoio a gastos públicos mais elevados e déficits maiores, ao reduzir o custo de financiamento do governo.

Ele defende, por isso, maior transparência sobre o papel do balanço do Fed na interação com a política fiscal. A proposta, porém, é vista como controversa, já que pode tanto reforçar a coordenação entre política monetária e fiscal quanto abrir espaço para maior influência política sobre o banco central.

Para Julia Coronado, da MacroPolicy Perspectives, uma aproximação maior entre Fed e Tesouro pode representar risco à independência da instituição. Warsh também já mencionou a intenção de reduzir o quadro de funcionários do Fed, o que, segundo ela, pode reforçar a concentração de poder.

“O efeito final será a consolidação da autoridade de tomada de decisões no presidente e em muitas decisões operacionais do Fed, alinhando-as com o Tesouro, e essa é uma das formas de quebra da independência”, afirmou Coronado à Bloomberg.

O limite final: o mercado

Mesmo com apoio político ou autoridade institucional, o poder do Federal Reserve encontra um limite externo: a credibilidade junto aos mercados.

Se investidores interpretarem que a condução da política monetária perdeu independência ou previsibilidade, a reação pode se traduzir em juros mais altos, independentemente da decisão oficial do banco central.

Como resumiu Joe Brusuelas: "os participantes do mercado e os investidores serão muito insensíveis a qualquer coisa que pareça comprometer ainda mais a independência do Fed", e isso “punirá tanto o Fed quanto a economia de acordo.”

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