Ouro: cotação do metal recuou cerca de 17% desde a máxima intradiária em janeiro (Srinophan69/Getty Images)
Repórter de finanças
Publicado em 6 de abril de 2026 às 05h00.
O preço do ouro sofreu sua maior queda mensal em quase 13 anos, e alguns bancos centrais mudaram de compradores para vendedores — mas isso, na verdade, reforça a importância do metal precioso para investidores, segundo reportagem do MarketWatch.
“A narrativa de que os bancos centrais abandonaram o ouro simplesmente não encontra respaldo nos dados”, afirmou Jan Skoyles, chefe de marketing da GoldCore. Segundo ela, a recente liquidação foi “impulsionada por crises em um punhado de países sob forte pressão cambial. Não se trata de uma mudança estrutural nas reservas de ouro”.
“O ouro é o ativo que manteve seu valor tão bem que vale a pena liquidá-lo”, disse Skoyles em vídeo publicado em 2 de abril. “Isso não é uma fraqueza do ouro. Essa é a essência do ouro.”
O aumento das compras de ouro pelos bancos centrais foi um dos pilares da alta histórica do metal, ajudando a impulsionar os preços a novos recordes em 2022 e nos anos seguintes. Com base nos contratos mais ativos da Comex, o ouro chegou a US$ 5.626,80 por onça em 29 de janeiro de 2026.
Entre 2022 e 2024, os bancos centrais compraram mais de 1.000 toneladas métricas por ano — cerca do dobro da média da década anterior, segundo o World Gold Council. Em 2025, as compras caíram um pouco, para 863 toneladas métricas, mas continuaram elevadas.
Skoyles explica que o início da guerra no Oriente Médio, com ataques dos EUA e Israel ao Irã em 28 de fevereiro, alterou o cenário. Os contratos futuros de ouro mais negociados recuaram quase 11% em março, registrando a pior queda mensal desde junho de 2013.
Os contratos futuros do ouro para junho fecharam em US$ 4.679,70 em 2 de abril, uma queda de US$ 947,10 em relação à máxima intradiária de janeiro, ou quase 17%.
Apesar disso, o ouro não deixou de cumprir seu papel, aponta a reportagem do MarketWatch. Em contextos de guerra, alta do petróleo, preocupações com inflação e incerteza global, o metal ofereceu liquidez imediata, algo ainda mais valioso para governos e bancos centrais.
“Quando o preço do petróleo dispara, todas as economias importadoras de energia do planeta precisam de dólares rapidamente. Europa, Turquia, Japão, Índia — todas disputando liquidez ao mesmo tempo”, disse Skoyles. O euro caiu 7% frente ao dólar desde o início do conflito, enquanto a lira turca bateu mínimas históricas 11 vezes.
“Quando a moeda colapsa e você precisa de dólares, você vende o ativo de reserva não monetário mais líquido que possui: o ouro”, acrescentou Skoyles. “Não é porque perdeu a fé no ouro, é porque você precisa do dinheiro.”
O ex-diretor da Casa da Moeda dos EUA, Edmund Moy, alerta para não extrapolar tendências a partir das vendas de alguns bancos centrais, pois cada país tem motivos próprios. Ele destacou que, no geral, os bancos centrais continuam compradores líquidos de ouro.
Em fevereiro, dados mostram que bancos centrais compraram 19 toneladas métricas de ouro, enquanto Turquia e Rússia estavam entre os vendedores.
A Polônia, por outro lado, comprou 20 toneladas. Skoyles observa que o Banco Popular da China, grande impulsionador da tendência de compras desde 2022, parece ter interrompido oficialmente aquisições, embora informações chinesas costumem ser secretas ou subestimadas.
A Turquia retirou cerca de 60 toneladas métricas de ouro para defender a lira, e a Polônia propôs monetizar parte de suas reservas para financiar gastos com defesa, mostrando que a venda não é necessariamente sinal de fraqueza do ouro, mas de necessidade de liquidez.
A Rússia, desde 2025, tem vendido ouro para financiar a guerra na Ucrânia, arrecadando cerca de US$ 2,4 bilhões, atingindo níveis de reservas mais baixos em 40 anos — um caso de “financiamento de guerra”, não de reposicionamento estratégico, segundo Skoyles.
Stefan Gleason, presidente da Money Metals Exchange, reforça: “Para esses bancos centrais, o ouro cumpriu sua função e serviu como fonte de liquidez imediata.”
Para investidores privados, a queda recente representa uma oportunidade. “O ouro passou por uma transformação nos últimos cinco anos, deixando de ser um ativo marginal de diversificação para se tornar essencial para indivíduos de alto patrimônio e investidores institucionais”, afirmou Peter Grant, vice-presidente e estrategista sênior da Zaner Metals.
“Se é bom para reservas de bancos centrais, é bom para todos.”
Fatores como crescimento da dívida global, desvalorização cambial, desdolarização, compras de bancos centrais, instabilidade geopolítica e incerteza política continuam sustentando a valorização do ouro, segundo Grant.
O sentimento dos investidores reflete isso. Adrian Ash, diretor de pesquisa da BullionVault, destaca que compradores aproveitaram a queda para voltar a níveis anteriores ao pico histórico de janeiro. O Índice de Investidores em Ouro da BullionVault subiu para 60,7 em março, maior leitura desde agosto de 2020, mostrando que a demanda permanece firme mesmo com preços mais baixos.
“A amplitude da demanda demonstra que o ouro segue sendo um investimento atraente no mundo incerto e cada vez mais arriscado de hoje”, concluiu Ash.