Sucessivos governos prometeram reconstruir a BR-319, mas os projetos esbarraram em obstáculos técnicos, ambientais e legais (Getty Images)
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Publicado em 29 de maio de 2026 às 15h36.
A visita do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) a Manaus, nesta semana, recolocou a BR-319 no centro do debate nacional. A rodovia, que liga Manaus (AM) a Porto Velho (RO), voltou a avançar no papel após anos de paralisações, disputas judiciais e embates entre defensores do desenvolvimento regional e ambientalistas preocupados com os impactos sobre a Amazônia.
Durante agenda na capital amazonense nesta semana, Lula afirmou que a recuperação da estrada será conduzida sob rígidos critérios ambientais. “Ela não é uma estrada qualquer. Está situada em um lugar muito sensível da Amazônia”, declarou o presidente ao defender um modelo de obra acompanhado por fiscalização permanente, regularização fundiária e ações de segurança pública.
Inaugurada na década de 1970, a BR-319 foi originalmente asfaltada, mas perdeu as condições de tráfego ao longo das décadas, principalmente no chamado “trecho do meio”, segmento de pouco mais de 400 quilômetros considerado o mais crítico da rodovia. Desde então, sucessivos governos prometeram reconstruir a estrada, mas os projetos esbarraram em obstáculos técnicos, ambientais e legais.
O principal ponto de impasse está justamente no impacto ambiental. A rodovia corta áreas sensíveis da Amazônia, próximas de unidades de conservação e terras indígenas. Estudos e organizações ambientais alertam que a reabertura sem controle pode estimular grilagem, desmatamento ilegal e ocupação desordenada da floresta.
Entraves
Ao mesmo tempo, políticos da região Norte defendem a BR-319 como estratégica para integrar o Amazonas ao restante do País. Hoje, Manaus depende majoritariamente do transporte fluvial e aéreo para abastecimento, especialmente durante períodos de seca severa nos rios amazônicos.
O Senador Marcos Rogério afirma que os entraves ambientais impediram o avanço das obras nos últimos anos. “A BR-319 é uma rodovia que um dia já foi asfaltada e hoje é um desafio para quem está em Rondônia e precisa chegar em Manaus. A grande questão para resolver são os entraves causados por leis de licenciamento ambiental, que estão segurando o desenvolvimento”, disse o senador durante sua participação em evento da Esfera Brasil.
Segundo ele, o “Meião”, trecho central da estrada, tornou-se símbolo das dificuldades envolvendo o licenciamento. “Quando vai avançar, meio ambiente, ONGs e Justiça suspendem o licenciamento e trava tudo de novo. Isso já atravessa pelo menos os três últimos governos”, afirmou o parlamentar.
O debate ganhou novo capítulo com a retomada dos editais do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT) para obras entre os quilômetros 250 e 590 da rodovia. As licitações haviam sido suspensas após ação do Observatório do Clima, que questionou a dispensa de licenciamento ambiental nas intervenções. Horas depois, porém, a suspensão foi revertida pelo Tribunal Regional Federal (TRF) da 1ª Região.
Modernização
O governo federal sustenta que as obras atuais se enquadram como manutenção e melhoramento de infraestrutura já existente — e não pavimentação definitiva. A interpretação se apoia em dispositivos da nova Lei Geral do Licenciamento Ambiental, aprovada após o Congresso derrubar vetos presidenciais feitos em 2025.
O Ministro dos Transportes, George Santoro, afirmou que o governo pretende transformar a BR-319 em referência internacional de infraestrutura sustentável. “A BR-319 será a rodovia mais sustentável do planeta. Estamos coordenando para, em fases, modernizar a região”, destacou. Ele também anunciou novos investimentos públicos e uma proposta de parceria público-privada para os primeiros 50 quilômetros da estrada.
Os editais já lançados preveem investimentos de R$ 678 milhões, incluindo obras de drenagem, elevação da pista e construção da ponte sobre o rio Igapó-Açu, com prazo estimado de três anos.