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O RNA está em tudo — e move uma aposta de US$ 100 milhões no agro brasileiro

A GreenLight, empresa americana de biotecnologia, chega ao Brasil com técnica que cria pesticidas sem deixar resíduos químicos no campo

Laura Pancini
Laura Pancini

Repórter

Publicado em 13 de abril de 2026 às 12h24.

Uma startup americana quer mudar a forma como alimentos são produzidos no Brasil — usando a mesma molécula que existe em tudo o que você come.

A GreenLight Biosciences, empresa de biotecnologia fundada em 2008, escolheu o país como principal porta de entrada na América Latina para uma nova geração de pesticidas baseados em RNA, uma tecnologia que promete atacar pragas agrícolas com precisão quase cirúrgica — e sem deixar resíduos químicos no ambiente.

Em 2025, a empresa registrou cerca de US$ 15 milhões em receita global, com mais da metade vindo da América Latina, e projeta ultrapassar US$ 100 milhões até 2028.

A aposta não é trivial. O Brasil é uma potência agrícola, mas também um dos mercados mais exigentes quando o assunto é produtividade.

É nesse contexto que a empresa tenta emplacar uma proposta que, à primeira vista, parece complexa: usar um mecanismo natural das células para “desligar” pragas específicas, sem afetar o resto do ecossistema.

Em vez de matar indiscriminadamente, a tecnologia atua como um “interruptor biológico” que impede a praga de sobreviver.

A GreenLight já levantou US$ 200 milhões globalmente e investiu mais de US$ 25 milhões somente no Brasil.

Do laboratório para a lavoura

No centro da estratégia está o RNAi (RNA de interferência), um processo biológico presente em plantas, animais e humanos.

Em termos práticos, a GreenLight desenvolve moléculas que, ao serem ingeridas por insetos ou fungos, bloqueiam funções essenciais para sua sobrevivência.

“O RNA está em tudo o que você come. Seu corpo e o ambiente sabem como lidar com ele”, diz Mark Singleton, diretor comercial e diretor geral da GreenLight Biosciences.

É uma mudança relevante em relação aos pesticidas tradicionais, que costumam agir de forma mais ampla — e, muitas vezes, com impacto colateral sobre outros organismos. Isso porque o RNA é desenhado para atingir apenas a praga-alvo, preservando insetos benéficos e se degradando rapidamente no ambiente.

“Nosso produto é reciclado naturalmente muito rápido. Não há resíduos no ambiente ou nos alimentos”, diz Singleton. Para quem está fora do agronegócio, a comparação mais próxima é com medicamentos de alta especificidade: em vez de um “antibiótico geral”, seria algo mais próximo de uma terapia direcionada.

A ideia de usar RNA na agricultura não é nova. Ela existe desde os anos 1990, mas esbarrou por décadas em um obstáculo básico: custo. Há 25 anos, um grama de RNA podia custar até US$ 500 mil; hoje, a GreenLight afirma produzir por menos de US$ 0,50 — um custo de base que ainda precisa incorporar etapas como formulação e distribuição até chegar ao campo.

Esse salto em valor veio de uma tecnologia própria chamada cell-free manufacturing, ou fabricação sem células, que elimina etapas tradicionais de fermentação e reduz drasticamente o custo de produção.

O que vem por aí?

Apesar da ambição tecnológica, a entrada no Brasil foi feita por um caminho mais pragmático.

O primeiro produto lançado por aqui, o Fortivance™, não é baseado em RNA. Ele atua como um “potencializador” de inseticidas já usados pelos agricultores. Desde 2025, cerca de 5,2 milhões de litros do produto já foram vendidos no país.

A Greenlight já realizou cerca de 200 testes de campo no Brasil  e vê a América Latina como responsável por até um terço de sua receita global nos próximos anos. “Se você quer inovação em agricultura, você precisa estar no Brasil”, diz Steven Turbes, vice-presidente sênior de vendas e marketing da GreenLight Biosciences.

Dois produtos baseados em RNA já estão em análise regulatória por aqui — um voltado para oídio, doença comum em culturas como uva, e outro para ácaros, pragas que afetam de soja a café. A previsão é que essas soluções cheguem ao mercado a partir de 2027.

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