Narval: animal foi equipado com sensor para coletar dados de temperatura, salinidade e profundidade nos fiordes da Groenlândia (Carsten Egevang.)
Redatora
Publicado em 31 de agosto de 2026 às 19h32.
Narvais estão ajudando pesquisadores a investigar regiões do Ártico que permanecem pouco exploradas. Seis animais receberam sensores capazes de registrar dados sobre temperatura, salinidade e profundidade da água durante seus deslocamentos.
A pesquisa ocorreu em Scoresby Sound, um extenso sistema de fiordes no leste da Groenlândia. O local é difícil de alcançar por embarcações, principalmente por causa do gelo marinho. Os dados coletados pelos mamíferos revelaram a presença de água proveniente do Atlântico em pontos localizados a cerca de 300 quilômetros da costa.
Publicado na última quarta-feira, 26, na revista Science Advances, os resultado pode contribuir para entender como o oceano influencia o derretimento das geleiras na região.
Os pesquisadores acoplaram sensores CTD aos seis animais. Os equipamentos registraram informações sobre a água enquanto os narvais realizavam seus deslocamentos e mergulhos naturais.
Os sensores permaneceram nos animais entre 85 e 332 dias. Nesse período, foram registrados 2.060 perfis oceanográficos, com medições que chegaram a mais de 1.500 metros de profundidade.
A estratégia permitiu obter informações em áreas que navios de pesquisa raramente conseguem alcançar. Os fiordes são extensos, remotos e apresentam condições de gelo que dificultam a navegação.
“Agora, de repente, temos medições de locais que podemos usar em nossos modelos, o que nos dá uma visão muito mais completa do oceano”, afirmou Susanne Ditlevsen, professora da Universidade de Copenhague e coautora do estudo.
Os fiordes de Scoresby Sound recebem diferentes massas de água. Entre elas estão a Água Polar, fria e originária do Ártico, e a Água Intermediária Atlântica, mais quente e salgada.
Para analisar essa distribuição, os pesquisadores combinaram os dados dos narvais com mais de 2.200 perfis oceanográficos históricos do Banco de Dados Mundial dos Oceanos. O modelo desenvolvido pela equipe indicou que a camada de água atlântica está ficando mais espessa. Ao mesmo tempo, a camada superior de água polar está se tornando mais fina.
Os pesquisadores também identificaram a chegada da Água Intermediária Atlântica a bacias profundas diante das geleiras, a centenas de quilômetros para dentro dos fiordes.
A água atlântica encontrada nessas áreas é relativamente quente em comparação com a água polar. Segundo os pesquisadores, ela contribui para o derretimento das geleiras próximas.
O estudo também identificou uma tendência de aquecimento das águas da região. Entre 1960 e 2021, as temperaturas oceânicas aumentaram cerca de 0,047 °C por ano, segundo os pesquisadores.
Os novos dados ajudam a detalhar como a água do Atlântico se desloca dentro dos fiordes e chega às regiões próximas ao gelo.
As novas medições também podem contribuir para pesquisas sobre o clima e o derretimento da Groenlândia. A perda de gelo libera grandes volumes de água doce no oceano. Os pesquisadores destacam que compreender melhor esse processo é importante para aprimorar os modelos climáticos usados nas projeções sobre mudanças no clima.
Segundo a equipe, obter informações mais detalhadas sobre a temperatura, a salinidade e a circulação da água ajuda a representar melhor o comportamento do oceano na região.