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C&A soma R$ 45,7 milhões ao lucro com ESG e leva moda circular à Avenida Paulista

Nos 50 anos da marca no Brasil, a varejista inaugura loja conceito e publica seu primeiro relatório no padrão IFRS

Ao entrar na loja da Paulista, o consumidor dá de cara com uma coleção 100% circular que estreia nos 50 anos da marca no Brasil (Divulgação)

Ao entrar na loja da Paulista, o consumidor dá de cara com uma coleção 100% circular que estreia nos 50 anos da marca no Brasil (Divulgação)

Sofia Schuck
Sofia Schuck

Repórter de ESG

Publicado em 31 de agosto de 2026 às 19h15.

Última atualização em 31 de agosto de 2026 às 20h14.

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Um dos endereços mais icônicos de São Paulo, a Avenida Paulista acaba de ganhar uma loja conceito da C&A e a varejista quer usá-la para "dar luz" à sustentabilidade.

Inaugurada em 27 de agosto, na mesma semana em que a marca completou 50 anos de atuação no Brasil, a unidade de mais de 2 mil metros quadrados faz parte do ciclo de expansão da companhia e aposta em um modelo que une moda sustentável, experiência e tecnologia, agora levado a um dos pontos mais disputados do varejo.

A aposta na Paulista se dá em meio a um cenário de consumo pressionado. No 2º trimestre de 2026, a C&A teve lucro líquido ajustado recorde de R$ 130,1 milhões, mesmo com o menor fluxo de clientes durante a Copa do Mundo e um ambiente de juros altos.

Com 341 lojas ao fim de junho, a companhia mantém o ciclo de reformas e expansão que agora desembarca em um dos endereços mais disputados do varejo.

Não por acaso, o momento também coincide com outro marco: nesta segunda-feira, 31, a C&A publicou seu primeiro relatório sobre o impacto financeiro da sustentabilidade no negócio, o IFRS, de forma voluntária após a CVM retirar a obrigatoriedade.

De acordo com o documento, em 2025, R$ 45,7 milhões foi o efeito positivo de práticas ESG no lucro líquido da C&A.

O que sustenta a loja por trás da vitrine

Logo ao entrar na nova loja, o consumidor não se depara com uma vitrine comum: dá de cara com a estreia de uma coleção 100% circular assinada pelo designer Gustavo Silvestre, feita inteiramente a partir de jeans reciclado. É a primeira vez que a C&A lança um collab com um artista brasileiro e em menos de 1h30 da abertura da loja, as peças esgotaram. 

Por trás da collab está o Movimento ReCiclo, iniciativa de economia circular que nasceu há quase uma década e que já arrecadou quase meia tonelada de peças por meio das urnas presentes nas lojas.

"O movimento é algo que inovamos, e muitas pessoas ainda precisam entender. Por isso fizemos essa campanha: para fomentar a circularidade", diz Cecília Preto Alexandre, CMO da C&A.

Mas a experiência começa ainda antes: a parada de ônibus em frente à loja também traz peças de jeans reciclado para chamar a atenção de quem está na avenida onde passam cerca de 1,5 milhão de pessoas todos os dias.

A unidade segue o conceito Energia, com arquitetura assinada pela Gensler, e integra moda, tecnologia e experiência física e digital. Toda a energia consumida pela loja vem de fontes renováveis. As cortinas são feitas de jeans mais sustentável, as sacolas são de tecido reutilizável no lugar do plástico tradicional, e o piso das áreas esportivas é de borracha reciclada.

No subsolo onde ficam os caixas, há um espaço de destaque logo após a escada para a urna do Movimento ReCiclo, programa de economia circular e logística reversa criado pela C&A em 2017 e que recebe peças de qualquer marca doadas pelos clientes.

A jornada é estampada para o consumidor ver os resultados: 

  • 460 mil peças arrecadadas desde o início do programa, em 2017
  • 110 mil peças arrecadadas somente em 2025
  • 72 mil peças em bom estado destinadas à doação
  • 26 mil peças enviadas para coprocessamento
  • mais de 11 mil peças efetivamente recicladas

"É um projeto que nos enche de orgulho. Conseguimos desenvolver uma tecnologia que faz o jeans voltar para a cadeia produtiva. Somos a única varejista de moda no Brasil que dá vida nova a uma coleção inteira dessa forma", afirma Cyntia Kasai, gerente de ASG da C&A.

Segundo Cyntia, as peças em melhor estado recebidas nas urnas são doadas ao Instituto C&A, o que soma impacto ambiental e social.

"As lojas que passam por reforma e expansão já nascem com uma área dedicada para mostrar o Movimento ReCiclo", destaca. A nova unidade nasceu até com bancos pensados para as pessoas sentarem, descansarem e serem impactadas pela ação. 

"É possível enxergar e entender toda a rota da peça", explica a diretora. A companhia também usa blockchain para rastreabilidade: hoje, 100% do jeans da C&A já é feito com matéria-prima de origem mais sustentável, e cada peça traz etiqueta com informações sobre origem e etapas de produção.

Por que publicar um relatório que não é mais obrigatório

A decisão de publicar o IFRS voluntariarmente mesmo após a CVM retirar a exigência está ligada a uma agenda que a C&A constrói há mais de duas décadas. Para Laurence Gomes, CFO e diretor de Relações com Investidores da C&A, a publicação também carrega um recado sobre a posição estratégica do Brasil.

"O país se colocou na vanguarda. É um padrão internacional recente, ao qual poucos países aderiram, e o mercado nacional se antecipou. Esse é um mérito que precisa ser reconhecido", destaca o executivo, em entrevista à EXAME.

Segundo o CFO, publicar o IFRS é uma decisão estratégica. A agenda ESG da companhia assumiu compromissos públicos com prazo até 2030 e tem meta de redução de emissões.

"O relatório materializa uma parte dessa estratégia e mostra, com método e verificação externa, aquilo que já vínhamos construindo. É uma evolução para qualificar a informação que chega ao investidor e ao mercado", complementa.

Outro fator é que os riscos climáticos entraram de vez na gestão do negócio. Segundo Laurence, o tema está incorporado à matriz corporativa, com supervisão do Conselho de Administração e dos comitês internos.

O relatório lista quatro frentes de risco: a assertividade das coleções diante de temperaturas atípicas, a performance dos canais de venda em eventos climáticos extremos, a capacidade de distribuição logística e a dependência de terceiros na rede de fornecimento.

Para cada uma delas, já há uma "resposta" em curso. Na ponta comercial, isso passa pela abordagem de Test & Learn, validar produtos e volumes em escala reduzida antes de ir para produção em larga escala, e pelo acompanhamento das condições climáticas como insumo para definir o sortimento das lojas.

Na gestão de estoque, a saída é realocar peças entre regiões com padrões climáticos distintos, evitando que uma coleção fique parada por causa de um verão ou inverno atípico.

O impacto para além das lojas

A marca também reconhece que a decisão nasceu de uma coerência interna, mas admite o potencial de efeito coletivo. "O setor de moda tem uma característica que torna esse movimento naturalmente coletivo, porque a rede de fornecimento é compartilhada", frisa o CFO.

A C&A trabalha com 946 fornecedores diretos e outros 816 além do primeiro nível, em elos como fiação, tecelagem, tingimento e acabamento. "Toda boa prática que se consolida em uma companhia tende a se propagar pela cadeia e beneficiar o setor inteiro. Se a nossa publicação contribuir nesse sentido, será muito bem-vinda", acrescenta.

É esse o fio que conecta a urna de jeans no meio da loja da Paulista ao IFRS: dos R$ 45,7 milhões de impacto positivo no lucro líquido mensurados pela companhia em 2025, R$ 41,7 milhões vieram justamente de projetos de reformas e expansão com menor impacto.

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