Filmes de terror: Estudos sobre o chamado "medo recreativo" mostram que experiências assustadoras podem oferecer benefícios psicológicos para parte das pessoas (Getty Images/Divulgação)
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Publicado em 9 de julho de 2026 às 06h53.
Para muita gente, a ideia parece contraditória. Afinal, por que alguém escolheria assistir a um filme capaz de provocar tensão, sustos e aceleração dos batimentos cardíacos justamente para relaxar? A resposta pode estar na forma como o cérebro diferencia um perigo real de uma ameaça fictícia. Segundo pesquisadores que estudam o chamado "medo recreativo", viver experiências assustadoras em um ambiente seguro pode ajudar algumas pessoas a lidar melhor com a ansiedade e desenvolver maior equilíbrio emocional.
Essa hipótese vem sendo investigada pelo Recreational Fear Lab, da Universidade de Aarhus, na Dinamarca, um dos principais centros dedicados ao estudo científico do terror. Ao longo dos últimos anos, o grupo publicou uma série de pesquisas em revistas como a Psychological Science, explorando como atrações de horror, filmes e outras experiências assustadoras afetam o comportamento humano.
Um dos principais pesquisadores da área, o professor Mathias Clasen, explica que o terror funciona como uma espécie de simulação das situações ameaçadoras que fazem parte da vida. "Como seres humanos, estamos constantemente antecipando o que pode acontecer. Em certo sentido, o horror é um cenário formalizado de pior caso possível", afirmou o pesquisador à revista Time.
A lógica é relativamente simples. Durante um filme de terror, o organismo ativa respostas semelhantes às produzidas diante de um perigo verdadeiro. A frequência cardíaca aumenta, há liberação de adrenalina e o estado de alerta cresce. A diferença é que o cérebro sabe que aquela ameaça termina quando a sessão acaba.
Essa combinação permite experimentar emoções intensas dentro de um contexto seguro e previsível, o que pode contribuir para que algumas pessoas desenvolvam maior confiança na própria capacidade de lidar com situações estressantes.
Uma das pesquisas mais conhecidas do Recreational Fear Lab foi publicada na revista científica Psychological Science. Os pesquisadores acompanharam visitantes de uma casa mal-assombrada utilizando monitores cardíacos e questionários durante toda a experiência.
Os resultados mostraram que existe uma relação em formato de "U invertido" entre medo e diversão. Em outras palavras, o prazer atinge seu ponto máximo quando a intensidade do susto está em um nível intermediário: forte o suficiente para ser emocionante, mas sem provocar sofrimento extremo.
Segundo o pesquisador Marc Malmdorf Andersen, cofundador do laboratório, esse equilíbrio ajuda a explicar por que tantas pessoas procuram experiências assustadoras voluntariamente. "Na essência do medo recreativo está o aprendizado", afirmou à Time. "Ao se familiarizar com esses estados emocionais, eles se tornam mais previsíveis e menos avassaladores."
Outra pesquisa conduzida pelo grupo ganhou destaque durante a pandemia de Covid-19. O estudo constatou que fãs de filmes de terror apresentaram maior resiliência psicológica diante das incertezas provocadas pela crise sanitária. Aqueles que consumiam histórias sobre epidemias, invasões alienígenas e cenários apocalípticos também demonstraram sentir-se mais preparados para enfrentar acontecimentos inesperados.
Os pesquisadores sugerem que essas narrativas funcionam como exercícios mentais. Ao imaginar diferentes cenários de ameaça, o cérebro treina estratégias para lidar com situações difíceis, reduzindo parte do impacto emocional quando desafios reais aparecem.
Clasen descreve esse perfil de espectadores como "dark copers", pessoas que utilizam o horror como uma ferramenta para enfrentar um mundo que percebem como assustador. Segundo ele, muitos relatam encontrar diversão, autoconhecimento e crescimento pessoal justamente nessas histórias que despertam medo.
Apesar dos resultados promissores, os próprios pesquisadores fazem uma ressalva importante: filmes de terror não substituem acompanhamento psicológico ou psiquiátrico quando existe um transtorno de ansiedade.
Outro estudo do Recreational Fear Lab publicado no Journal of Anxiety Disorders mostra que pessoas com maior intolerância à incerteza tendem a antecipar emoções mais negativas antes de experiências assustadoras e também relatam níveis mais elevados de ansiedade durante elas. Isso significa que o efeito pode variar bastante entre diferentes indivíduos.
Além disso, quem tem fobias específicas ou traumas relacionados aos temas retratados nos filmes pode experimentar exatamente o efeito oposto, aumentando o desconforto em vez de reduzi-lo.
Por isso, o consenso dos pesquisadores é que o benefício aparece principalmente quando a experiência é voluntária, prazerosa e acontece dentro dos limites de conforto de cada pessoa.
Talvez seja justamente esse o maior paradoxo dos filmes de terror. Enquanto monstros, fantasmas e assassinos ocupam a tela, o cérebro aproveita a experiência para praticar uma habilidade essencial da vida real: enfrentar o medo, sobreviver a ele e descobrir que, muitas vezes, somos mais fortes do que imaginávamos.