Ciência

Fumaça de incêndios desaparece, mas outro risco invisível pode permanecer no ar

Ozônio associado aos incêndios pode atingir áreas distantes e ampliar os impactos da poluição do ar sobre a saúde

Incêndios florestais: impactos na qualidade do ar podem ir além da fumaça (Freepik)

Incêndios florestais: impactos na qualidade do ar podem ir além da fumaça (Freepik)

Publicado em 5 de outubro de 2026 às 18h40.

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A fumaça dos incêndios florestais pode desaparecer do céu sem que os impactos sobre a qualidade do ar tenham terminado. Pesquisas recentes mostram que as emissões geradas pelo fogo também contribuem para elevar o ozônio ao nível do solo, um poluente invisível associado a problemas respiratórios e cardiovasculares.

Um estudo publicado em junho na revista científica Science mostrou que o aumento dos incêndios reverteu parte dos avanços obtidos na redução do ozônio nos Estados Unidos. Entre 2022 e 2024, os pesquisadores estimaram que as emissões dos incêndios expuseram 43 milhões de pessoas a condições que não atendiam ao padrão federal de qualidade do ar para o poluente.

O problema vai além das partículas finas conhecidas como PM2,5, um dos componentes mais estudados da fumaça. Outra pesquisa, publicada na Science Advances, mostrou que os efeitos da fumaça sobre o ozônio podem ocorrer em locais e momentos diferentes daqueles observados para as partículas finas.

Quando o ozônio se torna perigoso para a saúde?

O efeito do ozônio depende de onde o gás está localizado na atmosfera. Em grandes altitudes, ele desempenha papel essencial na proteção do planeta contra a radiação ultravioleta do Sol. Próximo à superfície, porém, torna-se um poluente prejudicial à saúde.

O ozônio troposférico pode irritar e danificar as vias respiratórias. A exposição também está associada a problemas como asma, doenças pulmonares e cardiovasculares.

Ao contrário da fumaça densa, o ozônio não produz necessariamente um sinal visual evidente. Por isso, uma região pode registrar concentrações elevadas mesmo sem apresentar o céu tomado pela fumaça.

Incêndios revertem anos de avanço contra o ozônio

O estudo publicado na Science analisou as concentrações de ozônio nos Estados Unidos entre 2003 e 2024. A equipe, liderada por pesquisadores da Universidade de Iowa, utilizou aprendizado de máquina para combinar dados de satélites, medições em superfície e modelos atmosféricos. O método permitiu estimar diariamente as concentrações de ozônio em uma resolução de um quilômetro.

Os resultados mostraram que os níveis do poluente diminuíram, em média, 0,65 parte por bilhão por ano entre 2003 e 2015. Depois disso, a tendência se inverteu. Entre 2015 e 2024, as concentrações aumentaram cerca de 0,13 parte por bilhão por ano.

Segundo os autores, a reversão foi impulsionada principalmente pelo aumento das emissões dos incêndios, que anulou o equivalente a cerca de 3,9 anos de progresso na redução do ozônio.

Entre 2022 e 2024, os incêndios também expuseram cerca de 43 milhões de pessoas a condições que não atendiam ao padrão federal de qualidade do ar para ozônio nos Estados Unidos.

Risco pode se espalhar para longe dos incêndios

Uma segunda pesquisa, publicada em abril na revista Science Advances, analisou especificamente como a fumaça dos incêndios altera as concentrações de ozônio ao nível do solo. Pesquisadores da Universidade Stony Brook e de outras instituições combinaram medições da qualidade do ar, informações de satélites e modelos de aprendizado de máquina.

Após considerar as variações meteorológicas, a equipe calculou que a contribuição da fumaça poderia elevar o ozônio diário em até 6,9 partes por bilhão em determinados pontos de monitoramento dos Estados Unidos. Isso corresponde a um aumento de até 16% em relação aos dias sem fumaça.

O estudo também mostrou que os padrões de ozônio e PM2,5 relacionados à fumaça apresentavam pouca correlação. Na prática, isso significa que os impactos dos dois poluentes não necessariamente aparecem nos mesmos lugares ou nos mesmos momentos.

Segundo os pesquisadores, incêndios no oeste dos Estados Unidos tendem a provocar os maiores impactos de PM2,5 na própria região. Já os efeitos sobre o ozônio podem se espalhar por áreas muito mais amplas do país. Por isso, o impacto dos incêndios sobre a qualidade do ar pode ocorrer longe das regiões onde a fumaça é mais evidente.

Como o ozônio se forma após os incêndios

Ao contrário das partículas presentes na fumaça, o ozônio ao nível do solo não é simplesmente lançado diretamente pelas chamas. O poluente se forma na atmosfera por meio de reações químicas envolvendo compostos precursores, como óxidos de nitrogênio e compostos orgânicos voláteis, na presença de luz solar.

Essas reações dependem de fatores como temperatura, luz solar e composição química da atmosfera. Isso ajuda a explicar por que o aumento do ozônio pode ocorrer distante da origem do incêndio.

Os incêndios, porém, não são os únicos responsáveis pelo problema. Emissões provenientes de atividades humanas continuam sendo importantes fontes dos compostos que levam à formação do ozônio troposférico.

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