Ciência

Ondas de calor marinhas podem esconder meses de aquecimento nos oceanos

Análise de mais de 2.580 eventos mostrou que métodos convencionais podem subestimar a exposição total ao calor em mais de 150%

Oceanos: ondas de calor podem ocorrer dentro de períodos de aquecimento que duram meses (Freepik)

Oceanos: ondas de calor podem ocorrer dentro de períodos de aquecimento que duram meses (Freepik)

Publicado em 30 de setembro de 2026 às 18h23.

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As ondas de calor marinhas podem fazer parte de períodos de aquecimento muito mais longos, que começam antes dos eventos extremos e continuam depois deles. Em alguns casos, as temperaturas elevadas persistem durante meses.

A descoberta pode mudar a forma como cientistas calculam o estresse térmico sofrido pelos ecossistemas marinhos. Segundo um novo estudo, as medições convencionais podem subestimar em mais de 150%, em média, a exposição acumulada ao calor.

A pesquisa foi liderada por cientistas do Instituto de Ciências Marinhas da Virgínia (VIMS) e da Batten School da William & Mary, nos Estados Unidos. Os resultados foram publicados na revista científica Communications Earth & Environment.

Tradicionalmente, uma onda de calor marinha é analisada como um evento com início e fim definidos. Os pesquisadores decidiram observar também períodos de águas excepcionalmente quentes registrados antes e depois desses episódios.

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Aquecimento pode persistir por semanas ou meses

Para investigar o fenômeno, a equipe analisou observações de longo prazo realizadas em 20 estuários dos Estados Unidos. Os dados mostraram que as ondas de calor podem estar inseridas em períodos muito maiores de temperaturas anormalmente elevadas.

Essas condições podem permanecer durante semanas ou até meses, enquanto o evento classificado formalmente como onda de calor ocupa apenas parte desse intervalo.

Em muitos casos, a exposição ao calor registrada antes e depois contribuiu tanto ou mais para o total acumulado do que a própria onda de calor marinha.

Isso significa que analisar somente os dias classificados como um evento extremo pode deixar de fora uma parcela importante das condições térmicas enfrentadas pelos organismos.

Mais de 2,5 mil ondas de calor foram analisadas

Para os resultados, os pesquisadores avaliaram mais de 2.580 registros ao longo de duas décadas. A análise considera não apenas o quanto a temperatura aumenta, mas também por quanto tempo os organismos permanecem expostos à água mais quente.

Essa duração pode ser importante porque os efeitos biológicos dependem tanto da intensidade quanto do tempo de exposição. Períodos prolongados também podem se combinar a outros fatores de estresse ambiental e criar condições mais difíceis para determinadas espécies.

Estudo identificou dois padrões de aquecimento

A equipe dividiu os episódios analisados em duas categorias principais. Cerca de dois terços foram classificados como eventos individuais.

Nesses casos, as temperaturas elevadas permaneceram por aproximadamente 60 dias a partir do início do período de aquecimento. O terço restante foi classificado como evento composto. Esse grupo estava associado a períodos ainda mais prolongados, de aproximadamente 90 dias, considerando o aquecimento ao redor da onda de calor.

Nos eventos compostos, a exposição acumulada foi mais de três vezes maior do que aquela provocada apenas pelo período formalmente classificado como onda de calor marinha.

Resultado pode mudar experimentos sobre os oceanos

Os dados também levantam questões sobre a forma como os efeitos das ondas de calor são reproduzidos em laboratório. Experimentos costumam elevar a temperatura da água durante alguns dias ou semanas para avaliar as respostas dos organismos.

Segundo os pesquisadores, esse modelo continua sendo útil, mas pode não representar períodos prolongados encontrados em ambientes naturais.

A nova abordagem permite incorporar o aquecimento anterior e posterior aos eventos extremos e calcular a exposição acumulada ao longo do tempo. Isso pode ajudar a avaliar de forma mais próxima das condições naturais os impactos sobre diferentes ecossistemas marinhos.

Calor prolongado pode se somar a outros problemas

Períodos extensos de água quente podem ainda intensificar outras pressões ambientais, como baixos níveis de oxigênio e proliferação de algas nocivas. Esses fatores podem afetar ambientes que vão de pradarias marinhas a recifes de coral.

Diante disso, os pesquisadores defendem que estudos futuros considerem todo o período de aquecimento ao avaliar a vulnerabilidade dos ecossistemas, em vez de analisar apenas os episódios classificados formalmente como ondas de calor marinhas.

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