Restauração de manguezais fortalece a proteção costeira e a economia azul (Ricardo Lima/Getty Images)
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Publicado em 29 de julho de 2026 às 15h00.
Por Geraldo Rios e Bianca Sales*
Durante muito tempo, os manguezais foram vistos principalmente como áreas de preservação ambiental.
Em um planeta cada vez mais quente e sujeito a eventos climáticos extremos, essa visão se tornou insuficiente.
Além do alto valor ambiental, esses ecossistemas representam hoje uma infraestrutura natural capaz de reduzir riscos, proteger ativos econômicos e contribuir para uma agenda de desenvolvimento mais resiliente.
Poucas infraestruturas naturais oferecem tantos benefícios simultaneamente. Os manguezais amortecem os impactos de tempestades e da erosão costeira, ajudam a proteger cidades e empreendimentos, além de sustentar a pesca.
Também melhoram a qualidade da água, conservam a biodiversidade e armazenam grandes quantidades de carbono em sua vegetação e, principalmente, em seus solos.
Esses serviços ecossistêmicos geram valor econômico ao reduzir riscos para infraestrutura, cadeias produtivas e comunidades costeiras, evitando prejuízos que frequentemente superam os investimentos necessários para sua conservação e restauração.
O Brasil concentra uma das maiores extensões contínuas de manguezais do planeta, um patrimônio natural que também representa uma vantagem estratégica diante dos desafios da economia de baixo carbono.
No entanto, a expansão urbana desordenada, a poluição e a conversão dessas áreas para outras atividades continuam comprometendo um dos ativos naturais mais valiosos do país.
Cada hectare degradado significa menos proteção para o litoral, menor produtividade pesqueira e uma redução da capacidade natural de capturar e armazenar carbono.
Essa capacidade transforma os manguezais em um dos ativos naturais mais promissores para o mercado de carbono.
A combinação de benefícios coloca esses ecossistemas em posição de destaque na agenda das finanças climáticas.
Além de contribuírem para as metas globais de descarbonização, projetos de restauração bem estruturados podem gerar créditos de carbono de alta integridade, atrair investimentos voltados à transição climática e fortalecer a economia azul, unindo benefícios ambientais, sociais e econômicos.
O grande desafio, entretanto, é transformar esse potencial em escala.
Restaurar manguezais ainda exige operações complexas, conduzidas em áreas de difícil acesso, que demandam monitoramento contínuo, mensuração do carbono e validação dos resultados.
Esses fatores elevam custos, aumentam riscos e limitam a competitividade de muitos projetos, dificultando sua expansão e reduzindo sua atratividade para investidores.
É nesse contexto que as finanças climáticas ganham protagonismo.
Instrumentos como blended finance, capazes de combinar capital público, filantrópico e privado para reduzir riscos e alavancar investimentos, podem acelerar a restauração em escala.
No entanto, para que esses projetos se tornem competitivos e atrativos ao mercado é indispensável investir em inovação capaz de aumentar produtividade, tornando a restauração mais eficiente.
À medida que os efeitos das mudanças climáticas se intensificam, restaurar manguezais deixa de ser apenas uma pauta ambiental para se consolidar como uma estratégia de adaptação, competitividade e desenvolvimento econômico.
Transformar esse potencial em realidade dependerá da capacidade de integrar ciência, tecnologia, instrumentos financeiros e políticas públicas.
No fim, a questão talvez não seja mais quanto custa restaurar um manguezal, mas quanto custará ao Brasil deixar de investir em uma das infraestruturas naturais mais eficientes para enfrentar as mudanças climáticas.
Em um planeta mais quente, proteger e restaurar manguezais não será apenas uma decisão ambiental, mas uma escolha econômica.
*Geraldo Rios é Coordenador do projeto MangueLab e líder em soluções baseadas na natureza na OceanPact.
*Bianca Sales é Supervisora de Projetos de Restauração e Carbono na OceanPact.